Léxico: «bordaliano»

Ora, calha assim


      «A seleção de sete artistas para ilustrarem foi bastante rápida e consensual. E será montra do talento nacional na ilustração editorial, cartoon e caricatura. Aqui, o Novo Álbum das Glórias bate o original de Bordalo ou a sua cópia mais próxima, de 1909-1911, Varões Assinalados, do bordaliano Francisco Valença» («Um país de caricatura», Jorge Silva [curador artístico da colecção Novo Álbum das Glórias e designer], Público, 31.07.2026, p. 28). 
      Já andou pelos dicionários, mas depois foi expulso. E ainda eu quero que dicionarizem «jacobiano»... Assim, proponho ➠ bordaliano adjectivo 1. relativo a Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), caricaturista, ilustrador e ceramista português, ou à sua obra; 2. que apresenta influência ou características próprias da obra ou do estilo de Rafael Bordalo Pinheiro | nome e adjectivo que ou quem admira, segue ou é influenciado pela obra de Rafael Bordalo Pinheiro.

[Texto 23 652]

Léxico: «polinómetro»

Ora, por nada


      «Para isso, necessitávamos de polinómetros (aparelhos de colheita de pólen atmosférico). Como não conseguia adquiri-los no estrangeiro, forneci material e dados a um funcionário do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, extremamente habilidoso e competente (António Gaspar), que conseguiu construir meia dúzia de polinómetros, que coloquei no topo de edifícios altos da universidade, no Observatório Astronómico e no Instituto Geofísico» («Alterações climáticas e poluição atmosférica mineral», Jorge Paiva [biólogo], Público, 26.08.2026, p. 25). 
      Vá-se lá saber porque não está nos dicionários. Assim, proponho ➠ polinómetro nome masculino aparelho destinado à recolha de grãos de pólen presentes na atmosfera, para identificação e determinação da respectiva concentração e variação ao longo do tempo.

[Texto 23 651]

Definição: «alto-mar»

Não chega


      Num debate na SIC Notícias (5.08.2026) a propósito da apreensão de cinco toneladas de cocaína escondidas num navio, um jurista fez equivaler alto-mar a mar internacional, mas as coisas não são bem assim, já que a designação «mar internacional», tal como «águas internacionais», não corresponde a uma zona marítima definida pelo direito internacional. Embora seja por vezes usada como sinónimo de «alto-mar», pode designar mais amplamente as águas situadas fora do mar territorial, incluindo as compreendidas numa zona económica exclusiva. 
      Quanto aos dicionários, infelizmente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só apresenta uma acepção geral, ao contrário do Houaiss, que acolhe duas, sendo a segunda do âmbito jurídico, embora não totalmente correcta. Assim, proponho ➠ alto-mar 1. região marítima afastada do litoral; mar alto, mar largo, largo; 2. DIREITO INTERNACIONAL conjunto das partes do mar não incluídas na zona económica exclusiva, no mar territorial ou nas águas interiores de qualquer Estado, nem nas águas arquipelágicas de um Estado arquipélago.

[Texto 23 650]

Léxico: «canalrodopsina»

Onze anos atrasados


      «“Hegemann e Nagel descobriram a canalrodopsina, uma proteína com propriedades únicas. Descobriram que, independentemente da célula em que a proteína fosse inserida, estas células tornavam-se sensíveis à luz”, pode ler-se no comunicado disponibilizado no site oficial do prémio Nobel» («Células nervosas, luz e emoções. A descoberta que garantiu um Nobel», Sofia Fonseca e Carlos Ferro, Diário de Notícias, 6.10.2026, p. 13).
      Já se lê aqui e ali, tanto mais que a patente portuguesa (PT2614079E) foi publicada em 2015. Assim, proponho ➠ canalrodopsina nome feminino BIOQUÍMICA proteína fotossensível da família das rodopsinas microbianas, identificada originalmente na alga verde unicelular Chlamydomonas reinhardtii e presente também noutras algas, que funciona como canal iónico activado pela luz, permitindo a passagem de iões através da membrana celular; é utilizada em optogenética para controlar a actividade de células excitáveis, nomeadamente neurónios. (Quanto à etimologia, vem do inglês channelrhodopsin, «idem», de channel, «canal» + rhodopsin, «rodopsina».)

[Texto 23 649]

Como se fala na rádio

Estamos tramados


      «João Pinheiro [presidente da Associação de Alojamento Local], boa tarde, bem-vindo ao Portugal em Directo. Desculpe-me a expressão popular, quase a roçar o grosseiro: está aqui um problema do arco-da-velha [disse o jornalista Nuno Amaral, da Antena 1].» Uns minutos antes já tinha falado na «caída a pique» no número de passageiros e de dormidas desde a saída da Ryanair dos Açores.

[Texto 23 648]

Definição: «fago»

Redundante e imprecisa


      «Sur une colline au nord de Lyon, Frédéric Laurent veille sur son troupeau. Mais son bétail est bien particulier : haut de quelques dizaines de nanomètres, doté d’une douzaine de pattes et capable de faire naître en moins d’une heure plusieurs centaines de petits, il est hébergé dans des étables en forme de boîtes de Petri. L’objet de toutes les attentions du microbiologiste ? Des phages, des virus qui n’infectent que les bactéries. Une arme thérapeutique découverte au début du XXᵉ siècle, puis vite oubliée au profit des antibiotiques. Mais les bactéries développant d’inquiétantes résistances à ces derniers, les phages retrouvent les faveurs de la recherche» («À Lyon, on élève des phages, virus “mangeurs” de bactéries résistantes aux antibiotiques», Soline Roy, Le Figaro, 10.08.2026, p. 9). 
      A definição da Porto Editora, além de redundante, faz-nos crer que todos os fagos destroem as bactérias: «BIOLOGIA vírus bacteriolítico que actua como destruidor de bactérias; bacteriófago». 
      Tudo analisado e digerido, proponho ➠ fago BIOLOGIA vírus que infecta bactérias e se replica no seu interior, provocando frequentemente a lise da célula hospedeira; bacteriófago.

[Texto 23 647]

Definição: «turfa»

É como quem não vê


      Depois de me ter deparado vezes sem conta com referências à turfa, a mais recente num romance que acabei de rever, hoje vi, por mero acaso, um vídeo no YouTube em que apareciam irlandeses a extraírem turfa e a prepararem-na para ser usada. Primeira e decisiva conclusão: a classificação como «rocha sedimentar carbonizada», adoptada pela Porto Editora («PETROLOGIA rocha sedimentar carbonizada, com elevado teor de humidade, combustível quando seca, habitualmente fibrosa e rica em restos vegetais e que constitui a matéria-prima principal para a formação de carvões»), merece profunda revisão. 
      Trata-se, mais precisamente, de um depósito orgânico inconsolidado, não litificado. No estado natural, pode ser cortado, comprimido e esboroado, e grande parte da água que contém pode ser expulsa apertando-o com a mão, como pude ver. Também «carbonizada», sem qualquer qualificação, merece reparo: a matéria vegetal encontra-se parcialmente decomposta, sendo descrita pelo British Geological Survey como semicarbonizada. Mais do que «rica em restos vegetais», a turfa é constituída predominantemente por matéria vegetal parcialmente decomposta. Essa transformação em carvão exige soterramento e alterações físicas e químicas ao longo do tempo geológico; a simples secagem da turfa permite utilizá-la como combustível, mas não a transforma em carvão. 
      Assim, proponho ➠ turfa PETROLOGIA depósito orgânico inconsolidado, geralmente fibroso e de cor castanha a negra, formado pela acumulação de restos vegetais parcialmente decompostos em terrenos encharcados e pobres em oxigénio, com elevado teor de água no estado natural, que constitui a fase inicial do processo natural de formação do carvão e que, depois de seco, pode ser utilizado como combustível.

[Texto 23 646]

Como se escreve por aí

Apre!


      «Como sempre, o estacionamento estava descontrolado na escola de karaté, que fica num centro comercial partilhado por cerca de uma dúzia de outras lojas» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, p. 16). 
      Nós falamos assim? Eu não falo. «Como sempre, o estacionamento era um caos na escola de karaté, que fica num pequeno complexo comercial com cerca de uma dúzia de outras lojas.»

[Texto 23 645]

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