Em inglês é outra coisa

Só assim se percebe

      «Fervem as apostas. Na terça-feira, os bookmakers apostavam na absolvição [de Silvio Berlusconi]. Ontem, apostavam na condenação. A incógnita, com qualquer desfecho, é o “dia seguinte”» («Itália suspensa do “dia do juízo” de Silvio Berlusconi», Jorge Almeida Fernandes, Público, 1.08.2013, p. 25).
      Jorge Almeida Fernandes achou — e alguém concordou na redacção — que corretor de apostas seria demasiado difícil para a cabecinha dos pobres leitores do Público.
[Texto 3127]

Léxico: «comportamentalista»

Raro, e sobretudo animal

      «“Desconfiamos que pode ter problemas de saúde. Depois, não excluímos o recurso a um comportamentalista animal e a uma especialista em recuperação de animais agressores. Mas estamos proibidos pelo tribunal de revelar detalhes sobre o seu estado” [diz Rita Silva, dirigente da Animal» («Cão que matou bebé sai do canil e passa a chamar-se Mandela», Ana Henriques, Público, 1.08.2013, p. 7).

[Texto 3126]

Léxico: «recoleta»

Outra ignorada

      «Explicitamente sobre Ovar, Júlio Dinis escreveu apenas O Canto da Sereia, sobre o Furadouro, falando dos palheiros e das recoletas onde dormiam as famílias dos pescadores» («Os serões na província foram à beira-mar. Júlio Dinis», Raquel Ribeiro, Público, 31.07.2013, p. 29).
      Também aqui os dicionários falham. O Aulete, porém, regista que recoleta é um termo recolhido em Aveiro e é o «barracão, para vivenda, com uma só vertente de telhado». Palheiros há muitos. As recoletas são palheiros térreos e muito pobres.
[Texto 3125]

Como se traduz na televisão

Dragado, calado...

      O presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, está em Portugal em visita oficial, vi no Jornal da Tarde de ontem. As legendas da sua declaração à imprensa diziam isto: «A visita visa aprofundar as relações comerciais entre os dois países e é por isso importante que o porto de Sines, em Portugal, tenha relações com os portos panamianos, assim que o Canal do Panamá for expandido. Portugal será uma das economias que mais beneficiará pelo acesso direto aos portos com calado suficiente para receber os barcos pós-alargamento, e ser assim um porto de entrada para uma grande quantidade de produtos oriundos do Oriente e da América e destinados ao mercado europeu.» «Portos com calado suficiente»? Alguém devia estar calado, isso sim. O que Ricardo Martinelli disse foi que «Portugal va ser una de las economías que más se va a beneficiar por el acceso directo que tienen sus puertos, la capacidad de tener un dragado suficiente para acomodar los barcos post-panamax [com capacidade para 12 000 a 16 00 contentores]». Calado é a distância vertical entre a parte inferior da quilha e a linha de flutuação de uma embarcação.

[Texto 3124]

Léxico: «surdolímpico»

Mesmo desde 2000...

      O lutador Hugo Passos, acabei de ver na televisão, conquistou o ouro nos Jogos Surdolímpicos. É o quarto título consecutivo do português na luta greco-romana, na categoria menos 66 quilos. Quanto à categoria, eu só podia competir na de menos 78 quilos, e surdo sou também eu: então estes jogos tiveram a primeira edição em Paris em 1924 e eu nunca tinha ouvido a palavra? Ah, está aqui uma parte da explicação: «A partir de 2000, os jogos passaram a ser conhecidos pelo seu nome actual “Deaflympics” ou Surdolímpicos, denominação oficial Portuguesa [sic], muitas vezes erroneamente apelidados de “Olimpíadas dos Surdos”.»
[Texto 3123]

Sobre «senador», de novo

Com frequência

      «Ouvir o novo ministro [Rui Machete] classificar as perguntas mais do que legítimas que lhe eram feitas sobre o BPN — perguntas banalíssimas em qualquer país que conheça o significado do verbo “escrutinar” — como uma manifestação da “podridão dos hábitos políticos”, é daquelas atitudes que só mesmo um velho senador do Bloco Central dos interesses, a quem a democracia por vezes enfada, se lembraria de ter» («Machete kills», João Miguel Tavares, Público, 30.07.2013, p. 48).
      Com aspas ou sem aspas, a verdade é que se vai consolidando, de dia para dia, este sentido figurado do vocábulo «senador». Está capaz de ir para os dicionários.
[Texto 3122]

Léxico: «rebém»

Bem e rebém

      Não me ficou muito no ouvido, mas retive de um anúncio qualquer coisa como «para que não sejas rebém, mas rebelde». Retive apenas, é claro, o que fugia ao trivial, rebém. Foi acolhido por Morais e por Houaiss (como advérbio: duas vezes bem; muito mais, bem mais), mas não, por exemplo, pelo moderno Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, em que figura somente como substantivo, o açoite com que se castigavam os forçados. No caso do anúncio, o prefixo juntou-se ao adjectivo bem no sentido de socialmente irrepreensível ou de classe social elevada. É pena que, em vez de enriquecidos, os dicionários sejam despojados destes vocábulos e acepções.
[Texto 3121]

Sufixos iniciados por z

Quarenta anos

      No primeiro semestre deste ano, foram criadas mais de 20 mil empresas em Portugal, o que representa uma subida de 18 % em relação ao mesmo período de 2012. Uma delas foi a Tales in Details (no rodapé da reportagem no Jornal da Tarde de ontem, lia-se «Tails in Details»), que produz sobretudo artigos para crianças. Mostraram uma almofada em que de um lado o Lobo Mau perguntava: «o que levas na cestinha?» Do outro lado, o Capuchinho Vermelho respondia: «levo bolos para a avózinha!» Assim, com minúsculas e o acento em «avozinha». Há quarenta anos, o artigo único do Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, estatuía: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z
[Texto 3120]

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