Como se escreve nos jornais

Nem um duende

      «Pedro Lourenço escondera-se no meio das ervas. A movimentação de um arbusto fez desconfiar os guardas, que, usando as pistolas Uzi 9 mm, alvejaram o recluso foragido numa perna» («Guardas travam a tiro fuga de dois reclusos algemados», Luís Fontes e Rute Coelho, Diário de Notícias, 15.05.2013, p. 22).
      Há quem não saiba distinguir um arbusto de uma árvore, nem um camelo de um dromedário, mas confundir ervas com arbustos há-de ser mais raro.
[Texto 2850]

Léxico: «gicleur»

Anglicizado

      «“Aos 16 anos, a meias com o meu irmão, comprámos uma motorizada a cair de madura. O meu irmão desistiu logo porque aquilo dava muitas dores de cabeça. Eu andava com um alicate no bolso de trás dos calções porque como havia pouco dinheiro para a gasolina o gigler do carburador passava a vida a entupir. Sacava do alicate[,] desapertava o gigler, chupava, voltava a pôr e siga”, recorda [Pedro Branco]» («“Ainda estou aí para as curvas”», Maria Assunção Oliveira, Jornal Sénior, 9.05.2013, p. 22).
      Talvez a jornalista ouça mal, ou então não sabe que há uns livros em que se encontram, por ordem alfabética, palavras de uma língua. Parece, assim deturpado, inglês, mas é francês: gicleur, que é, lê-se no Dicionário Francês-Português da Porto Editora, o «pulverizador do carburador; injector». Se, juntamente com o injector e outras peças, faz parte, pelo que vi, do carburador, não devia usar-se ali a palavra «injector». Os Brasileiros, práticos e com aquela relação leve com a língua, aportuguesaram para «giclê». Cá, só com autorização do papa ou referendo nacional. Talvez doseador, pulverizador ou calibrador fossem formas acertadas de nos referirmos a esta peça.
      «Ali, naquela aquática vastidão deserta, sem remos, sem vela, sem probabilidades de auxílio externo, o maquinista desmontou o carburador, soprou no “gicleur” sobre a água do mar (e se ele lhe caía das mãos?) e, tornando a montar as peças, pôs a manivela em movimento» (Uma Jornada Científica na Guiné Portuguesa, António Augusto Mendes Corrêa. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1947, p. 57).

[Texto 2849]

Léxico: «biomarcador»

Marcador biológico

      «Uma equipa internacional que integra o português Pedro Castelo-Branco descobriu um novo biomarcador, testado com sucesso em tumores cerebrais pediátricos, seguindo-se os estudos com outros tipos de cancro» («Português descobre novo biomarcador para o cancro», Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 27).
      Este já está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «substância que pode ser medida e indica a ocorrência de processos biológicos (normais ou patológicos) ou respostas farmacológicas a intervenções terapêuticas».
[Texto 2848]

Sobre «aparatoso»

Como se fosse um espectáculo

      «Depois da sua queda aparatosa durante um comício na terça-feira, Imran Khan foi aconselhado a ficar acamado. Ferido na cabeça, o antigo campeão de críquete transformado em estrela em ascensão da política paquistanesa está a ser alvo de uma vaga de simpatia que, a três dias das eleições, lhe podem valer votos nas urnas» («Queda deixa Imran Khan fora da campanha mas pode render votos», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 25).
[Texto 2847]

«Perdiz-vermelha»

Ou sim ou sopas

      «Em causa está o facto de estar a decorrer a época de nidificação da perdiz vermelha, uma espécie endémica da Península Ibérica e que tem, “naquela zona do Parque Florestal de Monsanto, nesta altura do ano, um ‘oásis’ para a sua reprodução”. “Quantos países não quereriam ter uma espécie endémica?”, questiona João Pinto Soares, acusando a autarquia de ter “duas caras” relativamente a questões ambientais» («“Câmara está a tentar justificar o injustificável”», Inês Banha, Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 20).
      A jornalista trabalha num jornal que adoptou o Acordo Ortográfico de 1990, e por isso tem obrigação de saber que nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas se emprega o hífen. Logo, perdiz-vermelha.
[Texto 2846]

Léxico: «zooerastia»

Bestial

      «Em causa estão “danos morais” sofridos por Murat na sequência de várias notícias publicadas pelo diário da Cofina que, segundo o tribunal, lhe atribuem “uma personalidade doentia, da área não só da pedofilia como até da zooerastia, compatível com a prática de ilícito criminal relacionado com o desaparecimento da criança”» («‘CM’ vai pagar 15 mil euros a Murat», Diário de Notícias, 9.05.2013, p. 51).
      Não sei onde vão desencantar estes termos... Se calhar é lá no Limoeiro, no recreio. Sempre se disse «bestialismo», mas, é óbvio, este anda aí em textos em língua inglesa. Não é preciso mais.

[Texto 2845]

Tradução: «pop-up book»

Muito bem

      Pensava que tinha sido já neste blogue que falara do que os Ingleses chamam pop-up book. Não foi; foi no Assim Mesmo. Encontrei um dado novo: quando, a 19 de Dezembro de 2006, Bárbara Guimarães entrevistou, no seu Páginas Soltas, o encenador Ricardo Pais, usou a expressão «livro de armar» para designar este tipo de livros. Está bem visto.
[Texto 2844]

«Dusseldórfia», pois claro

Hallo, Leute!

      «Uma produção do teatro Rheinoper, em Dusseldórfia, foi banida após reação do público a cenas relacionadas com a presença de alusões à Alemanha nazi» («Polémica produção de ópera de Wagner com tema nazi», Diário de Notícias, 10.05.2013, p. 49).
[Texto 2843]

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