«Chá das cinco»

Lá é às 4 e meia


      «Príncipe Harry tomou chá das cinco com Michelle Obama» (Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 45).
      Investiguei e foi infusão de camomila o que beberam, ou seja, nem sequer um verdadeiro chá, o que não fica bem ao neto em 7.º grau (inventei: façam os leitores as contas) da imperatriz das Índias.
      «Em Portugal fala-se no five o’ clock tea, o chá das cinco. Na Inglaterra o que se diz é afternoon tea, chá da tarde, que o Inglês muito aprecia» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 192).
[Texto 2834]

«Castela Velha»

Talvez seja

      Gonçalo Ribeiro Telles: «Havia o trabalho de estirador e as viagens. O Caldeira Cabral todos os anos levava um pequeno grupo de alunos a visitar a universidade na Alemanha para aprender o que os paisagistas andavam a fazer. A minha primeira viagem foi de Volkswagen até Hanôver. Atravessámos a Espanha, pelas estradas de Castela Velha, a França e depois subimos o Reno. Imagine o que se vê! A Alemanha era uma paisagem destruída pela guerra. Estavam a reconstruir tudo e tivemos oportunidade de assistir. A referência e o estudo comparativo são fundamentais. Estas coisas deram-me uma leitura do meu território» («“Nunca saí deste lugar. Tive essa sorte”», Ana Soromenho, «Revista»/Expresso, 20.04.2013, p. 51).
      Já aqui tinha andado à volta deste topónimo. Ei-lo aqui sem a: não Castela a Velha, mas Castela Velha. Verdadeira variante ou economia de quem fala?
[Texto 2833]

Léxico: «taradice»

Infindável

      «Ao reaparecimento das motos vintage inglesas aparecerem [sic] as café racers — que são motos ‘customizadas’ ao estilo ‘bife’ dos anos 60/70. Não é um mero epifenómeno. É a taradice do momento» («O triunfo das café racers», Luís Pedro Nunes, «Revista»/Expresso, 20.04.2013, p. 66).
      De novo, quase não acreditamos: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «taradice».
[Texto 2832]

Etimologia de «dinheiro»

Está tudo explicado

      «[Jacques] Ellul recorda justamente que a raiz hebraica do termo ‘dinheiro’ deriva do verbo ‘desejar’, ‘ansiar por alguma coisa’. Quem quer que se ponha a amar o dinheiro nunca se dará por satisfeito: pequena ou grande, nenhuma quantidade lhe parecerá suficiente. Desejará sempre mais e mais, transformando esse desejo na procura alucinada de uma eternidade tangível» («O dinheiro», José Tolentino Mendonça, «Revista»/Expresso, 20.04.2013, p. 6).
[Texto 2831]

Plural de «rês»

Olho nisso

      Chegou esta semana às bancas, vi anteontem numa reportagem do Telejornal, o Jornal Sénior, que vai sair de quinze em quinze dias e procura informar os mais idosos, uma parte cada vez maior da população portuguesa. Às tantas, ouve-se alguém da redacção dizer: «Eu, quando vi que tinha palavras-cruzadas, fiquei feliz.» Então, cuidado com a página 46, com a 3 horizontal, que diz: «Diz-se das rezes que têm chifres pequenos ou quebrados.» Isto, pela televisão, depois hei-de ler. Erro muito comum, esse. Está bem, os substantivos terminados em as e es tónico, os, us, r e z pluralizam com o acrescento de es, mas as consoantes do singular não se transmutam, nem o plural de noz passa a noses, nem o de rês a rezes. Não é assim?
[Texto 2830]

«Em ordem a»

Depende, depende

      D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima: «[...] ver que é todo o povo que sofre e que diante deste sofrimento, deste crescimento da própria pobreza é necessário um novo impulso em ordem a encontrar um consenso básico fundamental para todos sairmos da crise, por conseguinte é também um apelo à liderança da Europa [...]» (Telejornal, 12.05.2013).
      A construção «em ordem a» é um anglicismo sintáctico? Uns afirmam que sim, outros, como Mário de Carvalho, que nem pensar: «Recusei-me, durante anos, a usar a expressão “em ordem a” porque um mestre de Português, fortemente repugnado, a rejeitou como anglicismo espúrio. Depois encontrei-a, repetidamente, em Francisco Manuel de Melo...» Creio que este escritor leu mal. No sentido de «a fim de», «para», como na frase do bispo de Leiria-Fátima, é inequivocamente anglicismo; no sentido de «relativamente a», é construção clássica.
[Texto 2829]

«Desgranar»?

Mas é bonito

      «Muitos [peregrinos a caminho de Fátima] vão a pé, desgranando as contas do rosário, apoiados num bordão, de mochila às costas e bolhas nos pés» («Oásis», Gonçalo Portocarrero de Almada, i, 11.05.2013, p. 13).
      À puridade lhe digo, Sr. Padre: acho que só para lá de Badajoz é que se diz dessa forma. Aliás, é pronominal, desgranarse, pois é o que se diz das contas de um colar, de um rosário, etc., quando se soltam. Claro que, em sentido figurado, até das horas se pode dizer o mesmo. Mas para lá de Badajoz.

[Texto 2828]

Tradução: «view»

Ah, isso

      «Tamerlan Tsarnaev, um dos suspeitos dos atentados bombistas de Boston de 15 de Abril, morto durante uma perseguição policial no rescaldo do ataque na maratona da cidade do Massachusetts, “já tinha visões extremistas” quando, em 2012, esteve na Rússia» («Boston. Tamerlan “já tinha visões extremistas”», i, 11.05.2013, p. 11).
      Com nome tão profético, tinham mesmo de fazer qualquer coisa de extraordinário — bom ou mau. E as visões, suspeito, não se assemelharão às de Santa Teresa de Ávila. Fui espreitar as fontes, sobretudo para confirmar se eram os famosos insights, mas não: «Boston bombing suspect Tamerlan Tsarnaev already held extreme views when he visited Russia, Islamists in Dagestan have told US media.» Views...

[Texto 2827]

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