Sobre «inválido»

Deficiente, doente...

      «Silvano Toniolo, de 80 anos, ex-enfermeiro, foi despejado há oito meses do seu apartamento em Turim e, desde então, vive nos comboios de Itália. Não os que estão parados. Os que estão em movimento. Para isso, usa um passe de inválido, que permite viajar gratuitamente» («Italiano de 80 anos vive em comboios», Diário de Notícias, 23.04.2013, p. 24).
      Que significa exactamente «inválido»? Os dicionários dizem que é o que não pode levar uma vida activa; enfermo. Mas, com 80 anos, se não se é doente, talvez não possa levar-se uma vida activa. A palavra há-de ter vindo da língua de origem, é o habitual. «Lui, infatti, ha la tessera per viaggiare gratis da quando un ictus lo ha reso parzialmente invalido.»
[Texto 2774]

Léxico: «supercazzola»

Para confundir o interlocutor

      Mascetti, interpretado pelo Ugo Tognazzi, é personagem do Amici Miei (Oh! Amigos Meus), um dos grandes filmes da comédia italiana (1975). Mascetti introduziu na língua italiana o neologismo “supercazzola”, que é um falar sem dizer nada. Mascetti só teve um voto e, na votação seguinte, Napolitano aceitou candidatar-se e ganhou. Ainda bem. Já por cá, mesmo só em memória, António Silva seria melhor presidente do que qualquer outro Silva. Cada povo é um caso» («O Silva seria um grande candidato», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 22.04.2013, p. 56).
      Parece que se usa, sim, mas nos dicionários não o encontrei. Não é, tanto quanto percebi, exactamente falar sem dizer nada, mas falar para confundir. Cá, pode não ter nome, mas é técnica conhecidíssima.

[Texto 2773]


Léxico: «arquitecto-paisagístico»

Outra reduzida

      «A autarquia promete que serão plantadas novas árvores no lugar das antigas e que uma parte do projecto foi alvo de alterações de modo a evitar o corte de um plátano. “Não serão criados mais lugares de estacionamento”, diz a câmara, que assume considerar os plátanos “de vital importância no conjunto arquitecto-paisagístico da zona”» («Abate de plátanos motiva protestos», João Pedro Pincha, Público, 19.04.2013, p. 14).
[Texto 2772]

Léxico: «vazar-se»

Ainda cá anda

      «A esta corajosa e inesperada resistência, a populaça apavorou-se. Os gritos dos feridos pelos chicotes e pelas patas dos cavalos ainda deram mais fôrças ao espanto. A multidão começou a abalar em retirada, e a vasar-se pelas ruas transversais» (Um Motim Há Cem Anos, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Tavares Martins, 1935, p. 234).
      Curiosa forma de dizer: vazar-se. Para meu espanto, é acepção que ainda consta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: escoar-se.
[Texto 2771]

Como se fala com os médicos

A pergunta certa

      «O senhor gosta de beber?» Gosto, sim. «É que estou aqui a ver uma alteração no seu fígado...» Espere, eu não disse que bebia, eu disse que gostava de beber. Não foi o que me perguntou? Na realidade, gosto, gosto muito, mas não bebo. Vejo que tenho feito mal em abster-me.
[Texto 2770]

Como se escreve nos jornais

Esboços e arabescos

      «A frustração da Casa Branca esteve presente em cada palavra de Barack Obama. Como podia o Senado ter rejeitado uma proposta “defendida por 90% dos americanos”, baseada no “senso comum” e desenhada por dois senadores bem vistos pelo lobby das armas?» («Nem a lei mais branda foi aprovada no Senado, num “dia vergonhoso para Washington”», Alexandre Martins, Público, 19.04.2013, p. 21).
      Desenhar leis, liderar isto e aquilo, maturidades dos empréstimos — uma língua alternativa muito próxima da nossa.
[Texto 2769]

Léxico: «ricina»

Andam sempre a enganar-nos

      «A polícia federal dos EUA anunciou a detenção de um homem por suspeitas de ter enviado cartas ao Presidente Barack Obama e ao senador Roger Wicker com a presença de ricina, uma substância potencialmente mortal» («FBI detém suspeito, um imitador de Elvis», Alexandre Martins, Público, 19.04.2013, p. 21).
      Andamos há dias a ouvir e a ler nos meios de comunicação social «ricino», e logo suspeitei que estava errado. Se fosse algo semelhante, seria rícino, mas parece que este é o nome com que se designa somente o próprio arbusto e o óleo que dele se extrai, não a proteína altamente tóxica que se encontra nas sementes da mamona (outro nome do rícino). O termo ricina só o encontro no Dicionário Houaiss.

[Texto 2768]

Sobre «consultar»

A vingança

      Queria consultar de novo, disse ao telefone, a Dra. X. Risinho divertido do lado de lá. «A Sr. Dra. é que poderá consultar o Sr.» A mim? Para quê? Não tenho nenhum conselho, opinião ou instrução para lhe dar ou vender. E, ao contrário do que vai sendo habitual, não me atendeu um segurança ou uma simples assistente. Não. «Bom dia, fala a enfermeira Y.»
      «O barão ouviu-o com semblante alegre. Interessavam-lhe as miudezas daquela metamorfose. Queria saber se os médicos julgavam curável a paralisia de Leonor. Se o cego tio de Soares queria ir a França consultar os oculistas célebres» (Vingança, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Livros Horizonte, 1981, p. 126).
[Texto 2767]

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