Como se escreve nos jornais

Comentários para quê?

      «As especialidades de reumatologia, hemodiálise e cirurgia maxilo-facial não têm aparente relação entre si, mas, no hospital de Braga, é o mesmo médico quem as dirige. [...] O clínico em causa é Fernando Pardal, que está inscrito na Ordem dos Médicos como especialista em Anatomia Patológica. Por isso, o director clínico é há vários anos o responsável pela direcção deste serviço médico no hospital. Mas a esta competência o médico acrescenta responsabilidades sobre os serviços de cirurgia-maxilofacial, genética médica, imuno-alergologia, nefrologia (hemodiálise), reumatologia e doenças infecciosas. [...] No caso de cirurgia maxilofacial, por exemplo, o serviço está subcontratado a outros médicos de unidades do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente do Hospital de Santo António, no Porto, face à dificuldade da unidade bracarense em encontrar especialistas para estas áreas no mercado» («Médico acumula direcção de sete especialidades no hospital de Braga», Samuel Silva, Público, 17.04.2013, p. 14).
[Texto 2766]


«Na qualidade de»

«Não há remédio senão usá-la»?

      «NA QUALIDADE DE. Tal modo de dizer recebêmo-lo de França. Mais natural é o emprêgo de como, nas funções de, ou, com circunlóquio, exercendo (eu, êle, etc.) o cargo de, etc. Camilo lançou mão da locução pouco ou nada vernácula:

    na qualidade de conselheiro de estado e guerra...”
                                                (Luta de Gigantes, 168).

    na qualidade de capitão-geral do reino...”
                                                (Luta de Gigantes, 220).


      Claro que, se a imprópria expressão ganhar raízes, não há remédio senão usá-la. Mas cumpre não esquecer ou não postergar as equivalentes portuguesas» (Estudos Vernáculos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editora Educação Nacional, 1938, p. 43).
[Texto 2765]

«Exit Talks»

Em inglês nos desentendemos

      «Vital Morgado, da Agência para o Desenvolvimento e Comércio Externo, que participa na iniciativa da Universidade de Aveiro, as “Exit Talks”, “Conversas de Sucesso para a Exportação”, que reúnem vários agentes económicos» (Maria de São José, noticiário das 3 da tarde, Antena 1, 15.04.2013).
      «“As Conversas sobre Exportações” trouxeram à Universidade de Aveiro Gilles Lipovetsky, um filósofo francês que nos últimos tempos tem olhado para a tendência dos consumidores, e garante que a crise económica não afectou o desejo do consumo, sobretudo nos produtos de gama alta» (Paulo Moreira, Jornal da Tarde, RTP1, 15.04.2013). Bem, está mais próximo, mas o que se podia ler por detrás dos entrevistados era «“Exit Talks”/Conversas sobre exportação».
[Texto 2764]

«Ater-se a»

Casa de ferreiro

      «Não nos vamos ater na argumentação nem no descritivo das muitas peripécias da saga. Qualquer leitor interessado poderá ler o artigo e interpretá-lo como melhor entender.
      À míngua de tudo e sem cotação na bolsa — lá está a dependência! —, ressalvamos o penúltimo parágrafo. Nele se refere o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, classificado como “subsidiadíssimo”, em meio da listagem de editoras, personalidades políticas, instituições de toda a ordem que, qual enxame, se orienta ou desorienta na colmeia da língua» («Sobre o Ciberdúvidas», Público, José Manuel Matias e José Mário Costa, Público, 15.04.2013, p. 47).
      Mas não é ater-se a, isto é, limitar-se, restringir-se? Então?... E como é possível que os autores, coordenadores do Ciberdúvidas, prefiram «listagem» a «lista»?
[Texto 2763]

«Maturidade», um anglicismo

Maturidades e madurezas

      «Vítor Gaspar, ministro das Finanças português, que esperava um prolongamento das maturidades dos empréstimos europeus de dez anos, não terá grande margem para convencer os parceiros a aumentar os prazos desde que o Tribunal Constitucional (TC) rejeitou várias medidas do Orçamento do Estado que deveriam gerar economias de 1326 milhões de euros. Esta decisão significa que o país não conseguirá cumprir a meta de redução do défice orçamental com que se comprometeu com os parceiros europeus em troca da continuação da ajuda externa» («Prazo de reembolso será de cinco anos», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 10.04.2013, p. 2).
      Será em vão que procuraremos nos dicionários da língua portuguesa a acepção usada no artigo. Na edição do mesmo dia do Público, das cinco vezes que o termo é usado, apenas numa se trata do estado de espírito no seu auge. É mais um anglicismo semântico, agora usado todos os dias, sobretudo por políticos e, sem reflexão, acriticamente, pelos jornalistas. Basta consultar o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora para se saber que maturity é o vencimento, termo de pagamento.
[Texto 2762]

«Cor de rosa»

Nem isto resolveram

      «Vê pink elephants, e com esta expressão humorística de ver elefantes cor de rosa expressa-se na Inglaterra a visão confusa produzida pelo álcool» (A Língua Inglesa e a Vida em Londres, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Centro Internacional de Línguas, 1958, p. 173).
      Como em relação a muitos outros vocábulos, Vasco Botelho de Amaral, quando não concordava com a ortografia em vigor, escrevia como lhe parecia melhor. Não era, porém, uma heterografia, como Isabel Pires de Lima afirmou em relação ao que o Acordo Ortográfico de 1990 amplamente permite. Graças, é preciso que se diga, ao princípio antiacordo por excelência: as negregadas facultatividades.

[Texto 2761]

Sobre «inaugurar»

Mais um motivo para emigrar

      «Museu dedicado aos Abba [em Estocolmo] vai inaugurar em Maio» (Público, 13.04.2013, p. 31). Vai inaugurar o quê esse museu antropomorfizado? Ah, já percebi: o museu vai inaugurar-se a si mesmo. É em Estocolmo, e em sociedades avançadas é assim que tudo funciona, sem intervenção humana.

[Texto 2760]

«Preferir uma coisa a outra»

Se até Camilo...

      Às 22h12 de ontem, escrevia-me um leitor: «Decorre na RTP (não sei se só aí) uma campanha de divulgação de uma iniciativa da Universidade de Aveiro em que vários intervenientes terminam os seus depoimentos com a seguinte frase: “Eu prefiro mudar o país DO QUE mudar de país.” Isto diz-se assim?» É claro que não diz, mas como são, imagino, catedráticos, reitores, investigadores a falar, pode haver quem duvide dos seus próprios conhecimentos. Não se diz que são os melhores cérebros que estão a emigrar?
[Texto 2759]

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