«Dengue», mais uma vez

Esqueçam isso

      «“O vírus tem quatro serotipos identificados. No caso da Madeira, revelou fortes semelhanças com o serotipo um que circula na Colômbia e na Venezuela. Todos os serotipos provocam febre do dengue, mas este aparentemente está associado a quadros mais benignos e ao surgimento de mais casos em menos tempo”, explicou ao DN Maria João Alves, responsável pelo Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas do INSA» («Dengue na Madeira menos grave mas mais contagioso», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.10.2012, p. 17).
      O tal «sábio» é que escrevia que só tinha encontrado o género feminino para a doença na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Já não seria pouco, mas não: Rebelo Gonçalves, na página 319 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como feminino.
[Texto 2191]

Aportuguesamento: «napalme»

Estranho seria que não

      Aportuguesada, pois. Conheço várias abonações, Luísa, mas deixo-te só uma: «Votou-se ainda o teor dum telegrama, mais incendiário que uma bomba de napalme, a dirigir ao presidente da Duma e, depois de muitos vivas e morras, abraços e parabéns, cada mocho foi para seu soito a ruminar na noitada» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1974, p. 179).
[Texto 2190]

Léxico: «tranqueira»

Quase obscuro

      Podemos estar sempre a aprender, se quisermos, se mantivermos os olhos abertos. Hoje, por exemplo, fiquei a conhecer a palavra «tranqueira» na acepção de cercado de madeira para fortificar. Esta a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Tranqueira de Balibó, tranqueira de Kailako... Em Timor. Nunca antes tinha visto. Obra de defesa indígena.
[Texto 2189]

Rifoneiro

Grandes certezas

      «Não é “à”, mas “na”.» Já me tinha corrigido noutra ocasião. Desta vez não podia deixar passar em claro. Dá-me aí o Rifoneiro Português, de Pedro Chaves. Cá está: «Casa roubada, trancas à porta.» Expliquei pacientemente. Outro rifão semelhante e a significar mais ou menos o mesmo: «Porco morto, cevada ao rabo.»
[Texto 2188]

«Dengue», de novo

Tudo na mesma

      Virgílio Nóbrega, jornalista da RTP Madeira, no Jornal da Tarde de ontem: «A população de mosquitos transmissores do dengue tem alastrado, mas, de acordo com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, está controlada e monitorizada.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino. Espera aí... eu já tinha escrito isto! Os jornalistas repetem os mesmos erros.
[Texto 2187]

«White cube»

Cubo branco

      Vou ter a coragem de ser humilde e admitir: eu não sabia o que era o white cube. Meu Deus. Quer dizer, literalmente, sabia o que era. No âmbito das artes plásticas, porém, remete para o conceito que designa a sala de exposição branca e neutra, cubo branco, onde até as cartelas das obras expostas escasseiam. Mas tem mesmo de estar em inglês?
[Texto 2186]

Sobre «demão»

Sinónimo de «ajuda»

      Sim, «demão» também significa «ajuda». É verdade que as acepções mais usadas e conhecidas são outras: camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície e cada uma das vezes que se retoma um trabalho ou um assunto.
      «Aliás, não fosse querer dar uma demão na venda dos livros ao velho camarada e grande amigo Alberto Pratas e Isidro Pacheco que aquele lançamento promovera, não estaria ali» (O Autógrafo, Dias de Melo. Lisboa: Edições Salamandra, 1999, p. 77).
[Texto 2185]

Baiona

Mas a memória

      «Aquilino Ribeiro Machado, que nasceu em Baiona, a cidade do Sul de França onde os pais estavam exilados, a 6 de abril de 1930, vivendo de seguida em Vigo e em Tuy (até o autor de Quando os Lobos Uivam regressar a Portugal, em 1932), licenciou-se em Engenharia Civil e começou a trabalhar na autarquia lisboeta em 1956, passando a diretor de serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento do Fundo de Fomento da Habitação em 1969» («Primeiro presidente de Lisboa eleito depois do 25 e Abril», Diário de Notícias, 9.10.2012, p. 24).
      Muito bem — o pior é que se vão esquecer de que escreveram desta forma. Aliás, quase sempre escrevem Bayonne, como nesta notícia de Maio: «Há duas semanas, Valls [ministro do Interior francês], nascido em Espanha e naturalizado francêrs [sic], qualificou a ETA de “terrorista”, mostrando que a mudança política em França não altera este ponto. Oroitz Gurruchaga Gogorza e o seu número dois, Xabier Aramburu, estão em prisão preventiva em Bayonne» («Ministro francês em Madrid após prisão de etarras», Diário de Notícias, 29.05.2012, p. 29).
[Texto 2184]

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