«Brisa glaciar»

Humildemente

      «Agora, sempre que vejo os restos mortais de algum jornal gratuito abandonado no metropolitano, ou esvoaçando, qual melancólico fantasma, pelas ruas flageladas pela brisa glaciar de Fevereiro, lembro-me do Manuel António Pina» («Embrulhar o peixe», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 14.02.2012, p. 3).
     Tenha atenção da próxima, Jorge Marmelo, «glaciar» é substantivo e verbo. O que queria era um adjectivo. Ei-lo: glacial. Ora de nada, eu também sou generoso.
[Texto 1106]

Neste momento

Aguarda-se a todo o instante...

      Entretanto, na Assembleia da República, na comissão de Educação, Ciência e Cultura, encontra-se o cidadão (outro jurista?) David José Caldas Baptista da Silva para defender a petição (n.º 68/XII), de que é o único subscritor, em que exige um referendo sobre o Acordo Ortográfico. A «questão» que o peticionário quer «colocar» — são os termos da petição, que está aqui — ao bom povo é a seguinte: «Concorda com a existência e implementação do Novo Acordo Ortográfico?»
[Texto 1105]

«Contra a vontade do povo português»

Não colhe

      «O queixoso [Ivo Miguel Barroso, assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa] explicou à Lusa que o AO viola a Constituição, porque esta foi escrita seguindo a ortografia anterior ao acordo aprovado em 1990. Daí que seria necessária “uma revisão constitucional” para que a ortografia da Constituição fosse alterada. “Assinalo, porém, que a Constituição já foi aprovada. As alterações, em sede de revisão, são feitas artigo a artigo. Por isso, só alterando todos os artigos que estão em desconformidade com o AO”, adverte Ivo Barroso, segundo a Lusa. E acrescenta que “uma língua não se muda por decreto”, além de que considera que o acordo foi elaborado “contra a vontade do povo português” e contra a maioria dos “pareceres técnico-científicos”.
      Jorge Bacelar Gouveia, professor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, ainda que admitindo que a iniciativa de Ivo Barroso vem “abrir uma nova frente de discussão” sobre o tema, não concorda que a constitucionalidade do AO esteja em causa. “Não se trata de uma revisão da língua, que não muda”, argumenta o também presidente do Instituto de Direito da Língua Portuguesa. E nota que o AO “não tem uma dimensão punitiva”, continuando os portugueses a poder usar a língua como bem entenderem. Também a constitucionalista e deputada independente pelo PS Isabel Mayer Moreira, salvaguardando não conhecer o teor do requerimento, acha que a ideia da inconstitucionalidade “não colhe”. “O que não pode ser alterado são as palavras no seu significante, não na forma. Se se retirar um ‘c’ antes de um ‘p’, isso não altera o significado da palavra”, diz» («Movimento de oposição ao Acordo Ortográfico cresce em várias frentes», Sérgio C. Andrade, Público, 14.02.2012, p. 10).
      Custa um pouco a crer que um assistente de Direito tenha enveredado por esta via tão pouco promissora.

[Texto 1104]

Subjugado pelo AO

Inconvertíveis

      «Quem fez questão de recusar qualquer associação entre a queixa na Provedoria e a sua luta contra o AO foi João Pedro Graça, o primeiro subscritor da ILC que continua a cuidar de reunir as assinaturas necessárias para apresentar um projecto de lei na AR que revogue o AO. “Não queremos ter só as 35 mil assinaturas exigidas por lei, mas o máximo possível para fazermos valer a nossa causa”, diz o ex-tradutor, que abdicou da sua profissão, e está agora desempregado, por se recusar a trabalhar subjugado pelo AO» («Movimento de oposição ao Acordo Ortográfico cresce em várias frentes», Sérgio C. Andrade, Público, 14.02.2012, p. 10).
      Não sabia. Inevitável é um revisor ter de se submeter, quer queira quer não queira, às novas regras ortográficas. Um tradutor, se for competente, terá sempre clientes, e a conversão é feita na editora ou pelo revisor. Uma questão de princípio, dir-se-á.
[Texto 1103]

«Condenação no crime»?

Condenável

      «A condenação (e inabilitação durante onze anos) de Baltazar Garzón no crime de prevaricação, por ter ordenado escutas das conversas confidenciais entre os arguidos do processo Gurtel e os seus advogados, não é trama que mereça ficar entre parangonas» («O caso Garzón», Pedro Lomba, Público, 14.02.2012, p. 40).
      É-se condenado no crime ou pelo crime? Condenado na pena de... pelo crime de...
[Texto 1102]

«Anóxia/anoxia»

Ao seu dispor

      «Uma enorme bolha preta quase tapa a vista de quem entra no Salão Nobre. “É uma bolha de desinfestação por anóxia, perfeitamente segura para os visitantes, onde o mobiliário é colocado para matar os bichinhos da madeira”, esclarece Nunes Pereira [director do Palácio da Pena]» («Aberto para obras», Marina Marques, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 29).
      «Anoxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso», escreveu certa vez D’ Silvas Filho. Não faltará quem afirme: «Anóxia é uma variação prosódica legitimada pelo uso.» Alguns dicionários registam as duas formas.
[Texto 1101]

Sobre «recetação»

Quase «receitação»

      «Ao todo, responderam na barra do tribunal de Aveiro seis arguidos, cinco dos quais por participação nos assaltos e um por recetação de ouro» («Ladrão quer trabalhar para ourives que agrediu», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 30.01.2012, p. 20).
      Pois, caro Vítor Lindegaard, não sabemos porque não se fechou o a de «actual» e de «actividade». Pode ser mera especulação, mas em relação ao e de «recetação», um termo pouco frequente, só podemos esperar que, daqui a uns anos, se feche completamente.
[Texto 1100]

Interditar mais a sul

Ou antes

      O Laboratório Nacional de Engenharia Civil fez uma inspecção à Ponte D. Maria II, em Lagos, e afirma que há perigo iminente de desmoronamento. A ponte foi encerrada ao trânsito. O vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, António Marreiros Gonçalves, estudou profundamente o relatório e pode afirmar: «Apesar de ser um relatório ainda preliminar, diz que nós devemos encerrar, ou devemos interdir, a passagem a viaturas e a peões.» Talvez o relatório estivesse escrito em francês, interdire. Não, não: a explicação há-de estar na analogia com o verbo — mais conhecido de qualquer autarca — «intervir».

[Texto 1099]

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