Sobre «colmatar»

Outros riscos

      «O risco de escrever sobre este assunto, com um título destes, é sempre o risco de moralizar em excesso, de opinar em causa própria e de ficcionar um diálogo grandíloquo com um ausente. Vou procurar colmatá-los evitando um tom plástico e circunscrevendo a minha defesa» («Carta a um ex-leitor de jornais», Pedro Lomba, Público, 29.12.2011, p. 32).
      «Colmatar riscos». Chegará a extensão semântica a tanto? Não me parece.
[Texto 891]

Sobre «convocar»

Chamado a depor

      «Além de Iñaki Urdangarin, o juiz José Castro, titular do processo, imputou a prática dos crimes ao seu sócio Diego Torres e outros dirigentes do Instituto Nóos, chamados a testemunhar já no dia 5 de Janeiro. O ex-director-geral de Desportos do Governo das Ilhas Baleares, o ex-director da Fundação Illesport e o responsável pelo Instituto Balear de Turismo também foram convocados («Iñaki Urdangarin chamado a depor em tribunal», Rita Siza, Público, 30.12.2011, p. 30).
      Convocar é também solicitar a presença de alguém, geralmente de forma imperativa, mas não é o verbo habitualmente usado para exprimir a ordem com intimativa emitida por um tribunal. O monarca, antigamente, convocava as cortes. Convocava a palácio (como se dizia então) governadores e outros representantes da Coroa, etc.
[Texto 890]

O «Público» errou

Erro num caso, gralha no outro

      «Por uma necessidade de simplificação de linguagem na manchete da edição de ontem dizia-se que “Quem pedir isenção das taxas da Saúde vai ter de revelar dados fiscais”. De facto, trata-se não de “revelar”, mas de autorizar o acesso a esses dados. Face à eventual confusão que o título possa ter gerado nos leitores, aqui fica a explicação» («O Público errou», Público, 30.12.2011, p. 40). 
      Sim, é um pouco diferente... Imagino as reclamações que receberam dos leitores. E hoje, no «Sobe e desce», sobre a ministra da Justiça: «Ao enterrar os famosos Campus de Justiça, o Estado irá gastar menos 15 milhões de euros por ano em rendas».
[Texto 889]

Como falam os médicos

Eusébio fez levante!

      O Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio, mais uma vez, falar do estado de saúde de Eusébio: «Passou muito bem a noite. Ahn... Fez... As análises estão muito... estão melhores. Do ponto de vista radiológico e clínico também. Ahn... Fez levante, sentou... está sentado num cadeirão.»

[Texto 888]

«Handcycle»

Vamos arranjar-lhe nome português?

      «O ex-piloto italiano compete em handcycle (bicicleta adaptada para a propulsão manual). Em 2011 conseguiu vários resultados assinaláveis, com destaque para a vitória na Maratona de Nova Iorque e o segundo lugar no contra-relógio nos Campeonatos do Mundo de estrada. “Foi uma temporada muito boa. Consegui ganhar várias maratonas, em Roma, em Milão, em Veneza. Mas a Maratona de Nova Iorque foi a que me deu mais satisfação”, apontou» («Dez anos depois de perder as duas pernas num acidente Alessandro Zanardi quer uma medalha em Londres», Tiago Pimentel, Público, 26.12.2011, p. 27).

[Texto 887]

Léxico: «canhangulo»

Espécie de trabuco

      «Traziam amuletos para que as balas dos brancos não lhes fizessem mal, atacavam com canhangulos e catanas, trepavam pelos muros e caíam ao pé do portão» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 29).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-nos que é o nome que, em Angola e Moçambique, tinha a espigarda antiga de carregar pela boca. Seria? «Os canhangulos eram armas feitas com canos rudimentares, onde os guerrilheiros colocam pólvora e pregos, bocados de ferro, etc. Através de uma cabeça de fósforo colocada num orifício, perto da pólvora, o gatilho, feito de madeira, agarrado ao fuste, fazia disparar a arma, a mais perigosa que “eles” tinham» (A Vida É Um Ensaio, Adriano Correia de Pinho. São Paulo: Biblioteca 24 Horas, 2010, p. 67).
[Texto 886]

Sempre o inglês

Em Luanda

      «Naquele gabinete já se lhe sente o cheiro, está no corredor por onde o Capitão os acompanha, por detrás das portas fechadas, no pátio da entrada e nas janelas iluminadas onde teóricos e burocratas redigem sitreps e perintreps» (Jornada de África, Manuel Alegre. Lisboa: Visão/Dom Quixote, 2003, p. 23).
      Em Álvaro Guerra ao menos aparecia grafado em itálico: «– Li-lhe as perintreps, os louvores ao batalhão, ouvi-lhe uma arenga no QG de Luanda. Duro de roer. Não vai tratar como iguais os que lá tratava como bandidos» (Café 25 de Abril: as Ruínas: Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha, Álvaro Guerra. Lisboa: Jornal, 1987, p. 92).
      Do inglês, pois claro: sitrep (situation report) e perintrep (periodic intelligence report).
[Texto 885]

Como se fala na televisão

Tradição portuguesa

      As labaredas do madeiro de Natal de Penamacor cresceram mais alto do que a igreja. Os bombeiros, de prevenção, intervieram. «Agora é suposto o madeiro ficar a arder até aos Reis, dia 6 de Janeiro», rematou o repórter da RTP. É modismo que se está a empregar menos nos últimos tempos, parece-me.
[Texto 884]

Arquivo do blogue