Linguagem

Lá longe, nas Sorlingas

      Pareço aquelas autoras norte-americanas (quem sabe se condiscípulas desse grande ignorante, que finalmente se enxergou e desistiu da candidatura à presidência dos EUA, Herman Cain: «Quando me perguntarem quem é o presidente do Ubequi-bequi-bequi-bequi-stão-stão, a minha resposta vai ser: “Não sei. Você sabe?”») que recebem cartas de leitores de países tão pequenos, dizem, que têm de ir ver no mapa. No meu caso, nunca antes tinha ouvido falar das ilhas Scilly, ou Sorlingas, um arquipélago ao sul da península da Cornualha, na Inglaterra. Doravante, só tenho desculpa de não me lembrar do nome em córnico.
[Texto 767]

Como se fala na televisão

É deveras preocupante

      José Manuel Levy, no Telejornal de ontem: «Segundo Paulo Esteves Veríssimo, aparentemente estes ataques trataram-se de uma provocação, um teste de stress aos sistemas informáticos do Estado, e o que revelaram é deveras preocupante.»
      Parece o improviso de alguém que não domina minimamente — e devia — a língua em que se exprime.
[Texto 766]

«Sanduíche/sande/sandes»

Bifes e sandes

      Escreveu José Neves Henriques em 1997: «Não é lá muito fácil dizer qual a forma correcta, se sanduíche, se sande. Ambas as palavras são usuais e vêm nos dicionários. Sanduíche é aportuguesada, seguindo a pronúncia do inglês sandwich. Depois sanduíche evolucionou para sandes (já dicionarizada) e para sande (variante popular). Só o futuro dirá qual o vocábulo que se vai fixar. Talvez sanduíche, uma vez que já existe o verbo sanduichar.» Não é o que regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, para o qual «sandes» e «sande» são ambas formas populares. E Vasco Botelho de Amaral, no Glossário Crítico, afirmou que «o povo assimila o inglês sandwich em sandes».
      Confesso que não engulo a forma «sanduíche». Estou como Machado de Assis em relação a «bife»: «Ora qual é nossa situação há dez ou quinze anos? Há dez ou quinze anos, penetrou nos nossos hábitos um corpo estranho, o bife cru. Esse anglicismo só tolerável a uns sujeitos, como os rapazes de Oxford, que alternam os estudos com regatas, e travam do remo com as mesmas mãos que folheiam Hesíodo, esse anglicismo, além de não quadrar ao estômago fluminense, repugna aos nossos costumes e origens.»

[Texto 765]

Sobre «pro-drop»

Para evitar as formas de tratamento

      «Formas verbais sem sujeito expresso são formas diplomáticas de tratamento, que permitem evitar elegantemente a dificuldade social das formas nominais. Conhece-se este fenómeno pela expressão inglesa prodrop, construção que deixa cair (drop) o pronome (pro), evitando assim ter de tomar decisões difíceis entre uma panóplia de formas de tratamento» (Discursar em Português... e não só, Isabel Casanova. Lisboa: Plátano Editora, 2011, pp. 82-83). A seguir, os exemplos: «Sabe onde fica a catedral? Quer vir comigo? Pode sair».
      Em lado nenhum encontro outra grafia que não seja pro-drop ou pro drop. Quanto a esta característica da língua portuguesa (não se poderia prescindir da expressão, usando sempre em alternativa, como por vezes se vê, sujeito nulo?), sim, é verdade, o que a torna ainda mais maleável e única. Afinal, o universal inglês, por exemplo, não a tem.
[Texto 764]

Tradução: «surprise party»

De surpresa

      Os filhos quiseram fazer-lhe uma surprise party pelo 75.º aniversário. Como traduzimos? Melhor, como escrevemos? Festa-surpresa, festa surpresa ou festa de surpresa?
      «Faz-me falta a música para dançar ao teu lado neste noante em que vogo. Tive a minha festa-surpresa, sim — apareceram-me todos, carregados de flores, ao lado do caixão. Mas só tu cantas encostado ao gelo da minha boca azul» (Fazes-me Falta, Inês Pedrosa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 16.ª ed., 2007, p. 159).
      «Para seduzir o rapaz tentou de tudo, chegando ao ponto de organizar na Ilha uma festa surpresa, em sua homenagem, para a qual convidou as famílias mais notáveis da cidade» (D. Nicolau Água-Rosada e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis, José Eduardo Agualusa. Lisboa: Vega, 1990, p. 33).
      A forma com hífen é muito recente (década de 1990?), pelo menos em Portugal, e resta saber se é mesmo necessária.
[Texto 763]

Como se fala na rádio

Uma frase que sobra...

      Alexandre David, no noticiário das 9 da manhã na Antena 1: «Pedro Passos Coelho faz saber que existe um excedente de 2 mil milhões de euros para injectar na economia. Uma frase que sobra da entrevista que vem publicada na edição deste domingo do jornal Público
      Já tínhamos visto este modismo, mas é bom não o deixar passar sempre sem reparo.
[Texto 762]

Léxico: «radiobaliza»

É bom que esteja

      «Mário de Almeida aproveitou para dizer que acha “imperativo” dotar os barcos de uma radiobaliza com GPS. Só com isso se pode localizar embarcações que se percam em alto mar. O presidente da associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar, José Festas, também» («Foram 57 horas de muita reza e algum desespero», Ana Cristina Pereira, Público, 4.12.2011, p. 15).
      Poucos dicionários acolhem o termo. O Dicionário Houaiss regista-o: «emissor de fraca potência, modulado por um sinal de identificação e usado para guiar navios no mar ou para indicar aos aviões a sua posição».
[Texto 761]

Você e tu

Você aí

      «É que, de facto, a língua portuguesa não necessita desta forma, mas talvez pior ainda do que a utilização abusiva da forma VOCÊ e o engano em que muitas pessoas são induzidas seja a utilização da forma VOCÊS. É que, contrariamente ao que poderíamos ser levados a pensar, a utilização de VOCÊS não é um mero plural de VOCÊ; VOCÊS corresponde simplesmente ao plural de TU. Quero com isto dizer que só poderei recorrer a VOCÊS sempre que a correspondente singular fosse TU, e não VOCÊ» (Discursar em Português... e não só, Isabel Casanova. Lisboa: Plátano Editora, 2011, p. 82).
      É assim — ou, pelo menos, é-o sempre em relação àquelas camadas «cultas ou semicultas» (como escreve a autora) —, mas já o tenho ouvido, muito raramente, é certo, como plural de «você» (como é sempre no Brasil).
[Texto 760]

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