Naturais de Mossul

Os *tecelães moslawis


      «A vingança não era nada de novo para os Moslawis» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 8).
      O uso do termo «Moslawis» obrigou a tradutora a redigir uma nota de rodapé — escusadamente. Há muitos tradutores que gostam deste recurso, que, pessoalmente, acho completamente inútil. Que interesse pode ter para o leitor português saber que os naturais e moradores da cidade iraquiana de Mossul se chamam a si próprios Moslawis? Alternativas? Já indiquei uma: naturais de Mossul. Outra: forjamos um gentílico. Mossulenses. Não precisa de pegar, não é esse o objectivo, mas sim funcionar na obra.
      A propósito, sabiam que o nome musselina, o tecido leve e transparente, de algodão, lã ou seda, muito usado no vestuário feminino, provém do nome da cidade de Mossul? Fiquei a saber com esta obra. «O algodão tornou-se uma das suas principais produções, beneficiando da água abundante que corria dos cumes das montanhas, e o tecido simples desenvolvido pelos tecelães locais recebeu um nome derivado do da cidade: musselina» (idem, ibidem, p. 53). E o plural de tecelão não é tecelões?

[Post 3087]

Imprecisões

É o habitual

      «Domingo passado começaram as celebrações do centenário da I República» («Contra as agências de rating marchar marchar», Pedro Lomba, Público, 2.2.2010, p. 32).
      Na verdade, é o centenário da República, não da I República. Oficialmente, comemora-se a República. E no título falta uma vírgula.
[Texto 3086]

Ortopantomografia/radiografia panorâmica

Aldrabões


      «Paul enviou, então, uma radiografia panorâmica e recebeu um orçamento: 8 mil euros com implantes e pontes fixas» («A roleta húngara», Natacha Tatu, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 89).
      Tenho um primo dentista, mas está longe, na província (ou na Província, como escreveria José António Saraiva), pelo que pergunto aqui: radiografia panorâmica é o mesmo que ortopantomografia? Se é, porque nos obrigam a gaguejar para pronunciarmos «ortopantomografia»? Nunca mais.

[Post 3085]

Léxico: «motosserrista»

Seu Ceará sabe, sim


      «Quem ensina o que aprendeu é Ceará, 56 anos, motosserrista há 27, ex-campeão de desmatamento, que tem no seu currículo mais de 5 mil árvores derrubadas» («Amazónia. A esperança nunca se abate», Norma Couri, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 68).
      Tanto quanto vejo, nenhum dicionário regista o vocábulo. Nem, desta vez, o Dicionário Houaiss. (Caro Paulo Araujo, trate de mais este caso.) Pergunto-me se os profissionais não usarão até o verbo motosserrar — mesmo à revelia de Mauro Villar. Falem com seu Ceará.

[Post 3084]

Léxico: «madeira de lei»

Talvez os antiquários


      «O Instituto Brasileiro de [sic] Meio Ambiente [IBAMA] estuda inserir no Google Earth um programa para rastrear a origem da madeira da sua sala, até à floresta, o percurso do móvel pronto, até ao tronco. A casa e o mobiliário de muitos defensores da Amazónia contribuiu [sic] para a agonia da floresta. Sem falar das bibliotecas, erguidas com madeira de lei, antes só permitida aos monarcas portugueses» («Amazónia. A esperança nunca se abate», Norma Couri, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 67).
      A locução madeira de lei é desconhecida do falante português e não está registada nos dicionários editados em Portugal, com excepção do Dicionário Houaiss, que regista que é a «madeira resistente à acção do tempo, ao clima, às intempéries».

[Post 3083]

Nomes de povos e etnias

Pronunciável, se faz favor


      «O exército tailandês começou, no domingo, 27, a repatriar para o Laos os elementos da etnia hmong que se refugiaram no país, alguns há mais de 30 anos. Banguecoque estabeleceu com o Laos um acordo de repatriamento de mais de 8 mil hmongs, iniciando-se a operação pelo encerramento de um campo com 4 mil, na província de Phetchabun» («Etnia hmong expulsa», Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 62).
      É isto que eu advogo e pratico. O povo chama-se hmong ou h’mong; logo, dois elementos são os hmongs. Quero eu lá saber como se pluraliza numa língua que me é completamente estranha. Neste caso, se elogio a pluralização, deploro a escolha da variante do gentílico, pois vejo que existe o muito mais pronunciável mong.

[Post 3082]

«Incumbente»: acepção inglesa

Fica a incumbência


      «Para as próximas eleições intercalares de Novembro, a estratégia do Tea Party é desafiar — e derrotar — todos os chamados “incumbentes”, quer eles sejam democratas ou republicanos. É precisamente neste último caso que a sua influência poderá ter consequências imprevisíveis: muitos dos concorrentes conservadores mainstream poderão ser preteridos por candidatos radicais, que inevitavelmente conduzirão o partido para um extremo» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 13).
      As aspas não são salvatério suficiente. Na língua portuguesa, o vocábulo incumbente não tem a acepção usada na frase citada. Nos Estados Unidos, incumbent, em contexto político, refere o actual titular de um cargo. Assim, the incumbent President é o actual presidente. Incumbe à jornalista explicar convenientemente o que escreve.

[Post 3081]

Porque/por que

Questões comezinhas, hã?


      «Com uma presença relativamente discreta na sociedade americana, os chamados “teabaggers” (a designação porque são conhecidos os entusiastas da causa, sem tradução em português) tornaram-se crescentemente visíveis ao longo do ano de 2009, tendo chegado a dominar o noticiário no pico do Verão, com a sua marcha sobre Washington em protesto contra o plano de reforma do sistema de saúde em debate no Congresso» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 12).
      Este é um erro muito comum — mas imperdoável num jornalista —, a confusão entre a conjunção porque e a preposição por com o pronome relativo que, equivalente a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais.

[Post 3080]

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