Bibliotrónica Portuguesa

Colaborem

Dantes havia o livro único; agora, o livrónico. Sabia? Até às 17.34 de ontem, eu também não. Àquela hora, Carlos Costa, assessor do projecto Bibliotrónica Portuguesa, resgatou-me da minha ignorância. Na Bibliotrónica Portuguesa, que é um sítio dedicado à edição de textos em suporte electrónico, alojado na página do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, traduzem e-book por livrónico. Os textos editados e a editar têm de cumprir três condições: têm de ser textos em língua portuguesa; têm de ser textos cuja edição não ofenda os direitos de autor (domínio público ou cedência dos direitos); têm de ser editados de acordo com normas previamente explicitadas. Veja aqui.

Um anglicismo semântico

Evidentemente

Afinal, a estátua da Loba Capitolina, símbolo de Roma, é 1800 anos mais nova do que se pensava. Como é que se sabe? Para mim, foram provas científicas, com recurso ao carbono-14. Para Ricardo Nobre, «evidências científicas (o teste do carbono) acabam de pôr a descoberto mais um erro da Arqueologia». Evidência, no sentido de «prova», «indício», é um anglicismo inútil e que não merece contemplação. Claro que também vem do latim, através do inglês, mas mais de 50 % do léxico inglês provém do latim. Um caso bem diferente do vocábulo «paciente», aqui explicado por Adriana Freire Nogueira. Curioso é ver que a notícia para que remete Ricardo Nobre não usa a palavra «evidence».

Estudo de caso

Os limites da revisão

É interessante ver a língua evoluir à frente dos nossos olhos. Evoluir… ou espalhar-se? O artigo era a propósito do 5.º aniversário da MTV Portugal, e o título era «Caso-estudo de sucesso europeu» (Filipe Feio, Diário de Notícias, 6.7.2008, p. 70). No artigo, lia-se, entre outras coisas: «No target dos 15 aos 34 anos conquistou um share médio de 4,3% e, de acordo com dados da Marktest, entre Julho de 2003 e Junho de 2004, cresceu 50%, transformando-se num case-study de sucesso para a MTV Networks Europe.» Ou seja, o título usa um vocábulo que é a tradução de um estrangeirismo usado no corpo da notícia. Não será isto um pouco confuso? Primeiro, há muito que se usa «estudo de caso». Segundo, nunca vi senão case study, uma expressão, e não um vocábulo justaposto, «case-study». Neste caso, o revisor só tinha uma coisa a fazer, sem medo nem remorsos: emendar.

Comunidade de leitores

Com olhos de ler

Na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana, reúne-se a comunidade de leitores Com Olhos de Ler (pode ver aqui o blogue). No próximo dia 25 de Julho, das 21 horas às 23 horas, estará em destaque a obra O Amante, de Marguerite Duras, e poesia de David Mourão-Ferreira. No dia 29 de Agosto, a obra em análise será Fogo na Noite Escura, de Fernando Namora, e poesia de Manuel da Fonseca. O núcleo dinamizador é composto por Manuel Nunes, Maria da Graça, João Pequenão, Paula Martins e Cristina Carvalho. Informações pelo telefone 214 481 971, extensão 4403. Porque é que isto me interessa? Afinal sou munícipe de Cascais, não de Lisboa. Além disso, sempre as comunidades, a começar pela de Luiz Pacheco, me interessaram. Piscatória, científica, internacional, cigana, muçulmana, católica, educativa, médica, judaica, protestante…

Tradução do espanhol

Pouco científico
     

      A propósito da campanha pelo Manifesto para a Língua Comum que decorre em Espanha, promovida pelo jornal El Mundo, o Diário de Notícias escreve: «Em defesa do castelhano encontram-se figuras dos mais diversos sectores da sociedade: o escritor Miguel Delibes, o tenor Plácido Domingo, o ex-seleccionador nacional de futebol Luis Aragonés, o poeta Antonio Gamoneda, o toureiro Cayetano Riviera Ordóñez, o científico, [sic] César Nombeia [sic]» («Mais de cem mil espanhóis a favor do Manifesto», Diário de Notícias, 6.7.2008, p. 37). Científico: «Que se dedica a una o más ciencias», regista o Diccionario de la Real Academia. A escrever assim, até parece que o autor do texto é subscritor do Manifesto para a Língua Comum. Manifiesto por la lengua común, dirá ele.


Topónimo: «Nebrasca»

EUA

Mesmo que venhamos a ter a letra k no alfabeto português, é muito mais natural que se escreva este topónimo com c: «“Velhos são os trapos” é a expressão que a norte-americana Dara Torres podia ter dito, ontem, depois de se ter apurado para os Jogos Olímpicos de Pequim, nos 100 metros livres, em Omaha, Nebrasca, nos Estados Unidos» («Quarentona Dara Torres vai nadar em Pequim», Tiago Guilherme, Diário de Notícias, 6.7.2008, p. 53).

«Citomegalovírus» e «citopático»

Dos Gregos

Uma leitora pergunta-me como se deve escrever: «vírus citomegálico humano» ou «vírus citomegalo»; «efeito citopático» ou «efeito citopatogénico». O Dicionário Médico, de L. Manuila et alii, adaptado e revisto para português por João Alves Falcato (Climepsi Editores, 2.ª ed., 2001), regista na página 140: «citomegalovírus, s. m. (fr. cytomégalovirus; ing. cytomegalovirus), Sin. usual do herpesvírus humano 5. V. doença por citomegalovírus, síndrome Torch. Abrev.: CMV.» Em contrapartida, não regista «citopatogénico» nem «citopático», apenas «citopatologia». Contudo, ambas as formas estão correctas e bem formadas. Se me inclino para alguma, é para a última, «citopático», porque é, de longe, mais comum em português. Cit- ou cito- é um prefixo de origem grega que exprime uma relação com as células. Pat-, pato- são prefixos (a que devemos acrescentar o sufixo -patia) de origem grega que exprimem uma relação com a doença ou com um estado anormal.

Solarengo ≠ soalheiro


Já que pedem


      A pedido de várias pessoas, retomo então a famigerada questão do «solarengo». O que até apetece, pois amanheceu chuvoso aqui em Lisboa. Uma vez que estamos no Verão, esperemos que ainda venha aí um dia soalheiro. Ou ensolarado. País de anglófonos proficientíssimos, toda a gente sabe que em inglês é «sunny». Só ignoram como é em português, língua e cultura em que tiveram (ou tivemos) a desdita de terem nascido.
      Quanto a «solarengo», eis um contexto em que é usado com propriedade: «As casas solarengas de traça setecentista [isto é, as moradias de famílias nobres ou importantes], as quintas ladeadas de cerejeiras e arvoredo de Anreade, S. Martinho de Mouros ou Resende permanecem hoje quase inalteráveis, evocando a época em que Eça de Queirós as descreveu, habitadas pelas personagens dos enredos da Ilustre Casa de Ramires» (Douronet, Portal Turístico do Douro).

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