Léxico: «ter boa/má imprensa | imprensa cor-de-rosa»

Porque será?


      «Aníbal Cavaco Silva tem má imprensa, no sentido literal de que a imprensa (ou a comunicação social) não gosta dele. Sempre foi assim: no seu tempo de primeiro-ministro, a imprensa de esquerda (naturalmente) dizia mal dele, mas a de direita, através do então fulgurante Independente, fazia gala de ostentar um anti-cavaquismo [sic] sobranceiro. E as coisas nunca mudaram» («Não dá Cavaco», Luciano Amaral, Correio da Manhã, 25.05.2026, p. 2). 

      Não é tanto ter boa/má imprensa e imprensa cor-de-rosa estarem apenas em dicionários bilingues da Porto Editora que me espanta, mas sim que acolha apenas «imprensa marrom».

[Texto 23 036]

Léxico: «síndrome aerotóxica | aerotóxico»

No sítio errado


      Ouvi na TSF que decorreu ontem em Lisboa, promovida pelo Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, uma conferência internacional dedicada à qualidade do ar nas cabines de aeronaves comerciais, conhecida no sector pelos chamados «fumes». Nas notícias, mencionarem a síndrome aerotóxica, que fui encontrar no dicionário da Porto Editora, não no verbete «síndrome», onde encontramos muitas (e deviam estar todas, ou a lógica não passará de uma palavra), mas no verbete de «aerotóxico». 

      Assim, proponho síndrome aerotóxica MEDICINA síndrome atribuída à inalação de ar contaminado nas cabinas de aeronaves, geralmente por vapores provenientes de óleos de motor ou fluidos hidráulicos introduzidos no sistema de ventilação, associada a sintomas neurológicos, respiratórios e cognitivos, como cefaleias, tonturas, fadiga, dificuldades de concentração, náuseas e perturbações visuais.

      Quanto ao adjectivo, tão carregado, coitado, submetia-o a este tratamento aerotóxico 1. MEDICINA relativo à síndrome aerotóxica ou à contaminação do ar nas cabinas de aeronaves por substâncias tóxicas; 2. diz-se do ar ou do ambiente da cabine de uma aeronave contaminado por substâncias tóxicas provenientes, geralmente, de óleos de motor ou fluidos hidráulicos.

[Texto 23 035]

Léxico: «joule-segundo»

Acabamos assim


      A correcção da definição de «quilograma» obriga-nos também, é claro, a dicionarizar joule-segundo FÍSICA unidade derivada do Sistema Internacional, de símbolo J·s, correspondente ao produto de um joule por um segundo; usada nomeadamente para exprimir a constante de Planck e outras grandezas físicas associadas à acção ou ao momento angular angularizado sem dimensão rotacional macroscópica explícita.

[Texto 23 034]

Definição: «quilograma»

Mais três que dois


      «Estas coisas topológicas começaram por volta de 1979 ou 1980. Depois, Klaus von Klitzing [Nobel da Física em 1985] descobriu, também como um resultado acidental e inesperado, o efeito quântico de Hall, que é agora a base do sistema de unidades — a medição do quilograma em Paris foi substituída, essencialmente, pelo efeito quântico de Hall [em vez de um artefacto físico como até 2018]» («“Se a inteligência artificial fizer tudo por si, não saberá nada”», Tiago Ramalho, Público, 24.05.2026, pp. 22-23).

      O que Duncan Haldane, aqui entrevistado, está a fazer é a condensar numa frase curta toda a cadeia metrológica moderna. Logo, até se poderia mencionar o efeito quântico de Hall na definição de «quilograma», mas já não seria para um dicionário geral. Seja como for, a actual definição da Porto Editora tem dois erros, qual deles o maior: por um lado, afirma que o valor da constante de Planck é aproximado, quando hoje é exacto por definição; por outro, indica erradamente «joules por segundo», quando deveria dizer «joule-segundo». É que joules por segundo corresponde a potência — isto é, à quantidade de energia transferida ou consumida por segundo — e usa-se sobretudo em contextos como a electricidade, a mecânica ou a engenharia, sendo equivalente ao watt. Na verdade, três erros: o símbolo kg não se grafa em itálico. 

      Assim, proponho quilograma FÍSICA unidade de massa do Sistema Internacional (SI), de símbolo kg; corresponde actualmente à massa definida pela fixação exacta do valor da constante de Planck em 6,62607015 × 10⁻³⁴ joule-segundo, substituindo desde 2019 a definição anterior baseada num protótipo metálico conservado em França.

[Texto 23 033]

Léxico: «farmacodependência | farmacodependente»

Mais duas peças


      «“Sucre et alcool ont une longue histoire commune en recherche”, confirme Mickael Naassila, professeur à l’Université de Picardie Jules Verne et directeur du groupe de recherche sur l’alcool et les pharmacodépendances à l’Inserm» («Le sucre est une sorte d’“alcool sans ivresse”», Soline Roy, Le Matin Dimanche, 24.05.2026, p. 45).

[Texto 23 032]

Léxico: «vender-se como canela»

Dizia-se isto


      «O transeunte que subia de S. Bento batia com os olhos naquela feira de folhetos, que se vendiam como canela» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 20).

[Texto 23 031]

Definição: «múrex | múrice»

Têm de dizer o mesmo


      «Los decretos se preocuparon, en primer lugar, de establecer y después de mantener un monopolio imperial sobre la producción de sedas destinadas al consumo cortesano, siendo las principales las sedas púrpuras teñidas con murex (un tipo de caracol)» («El poder de la seda: gusanos e imperios», Marisa Bueno, La Razón, 20.05.2026, p. 44). 

      Como é que a Porto Editora diz coisas diferentes — muito diferentes! — em «múrex» e em «múrice», dois sinónimos perfeitos, é que é espantoso. Não tenhamos dúvidas de que é a associação à púrpura imperial que torna o termo culturalmente interessante e aspecto digno de figurar na definição, mas só em «múrice», variante menos conhecida, se refere essa associação. O leitor comum dificilmente consultará «múrex» por interesse taxonómico. Consultá-lo-á por causa da púrpura de Tiro, de Bizâncio, de Roma, da Bíblia, da Antiguidade clássica, etc. Até a etimologia é em «múrice» que está mais completa. O que mais ressalta da análise dos dois verbetes é a desnecessidade de duas acepções, e pela mais óbvia das razões: se na primeira se diz que é a designação comum, na segunda afirmar-se que é «extensiva a outros moluscos gastrópodes marinhos» não faz sentido. É sobretudo uma distinção taxonómica moderna, relevante para zoologia especializada, mas pouco útil para o leitor comum. 

      Tudo visto, proponho assim múrex, múrice ZOOLOGIA designação comum de certos moluscos gastrópodes marinhos da família dos Muricídeos, geralmente de concha espinhosa e longo canal sifonal, de algumas das cujas espécies se extraía, na Antiguidade, a púrpura, valioso corante usado no tingimento de tecidos de luxo e associado ao poder imperial. 

      Quanto à etimologia, diria que vem do latim murex, ĭcis, «múrice», nome de um molusco marinho de que se extraía a púrpura.

[Texto 23 030]

Léxico: «arquetaria | arqueteiro»

Não desprezemos isto


      Não viram mal, não: é mesmo «arquetaria» que escrevi ali atrás. E há aqui uma curiosidade lexicográfica: o dicionário da Porto Editora marca «arquete» como antiquado, mas isso não impede que a família derivacional continue viva ou reactivável em contextos especializados. Acontece frequentemente nos léxicos técnicos. Acontece neste caso, já que vejo publicitados cursos de arquetaria (e até, na verdade, archetaria) no Brasil. Assim, proponho arqueteiro fabricante, reparador ou ajustador de arcos (arquetes) para instrumentos de corda friccionada, como o violino, a viola ou o violoncelo | arquetaria arte, técnica, oficina ou actividade de fabrico, reparação e ajustamento de arcos (arquetes) para instrumentos de corda friccionada.

[Texto 23 029]

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