Definição: «moa | maori»

Centenas, não milhões


      «Según la empresa [Colossal Biosciences], esta novedosa tecnología supone “un gran avance” para su programa de desextinción de aves, especialmente para devolver a la vida al moa gigante de la Isla Sur (Nueva Zelanda), un ave no voladora desaparecida hace 600 años tras la llegada de los maoríes de la Polinesia, que la cazaron sin tregua, y la desaparición de su hábitat natural» («Un huevo artificial acelera la vuelta a la vida de especies extintas», Judith de Jorge, ABC, 20.05.2026, p. 56). 

      É pelo menos isto que se tem de dizer na definição, ou quem consulta o dicionário vai pensar que desapareceu há milhões de anos. Assim, proponho moa ORNITOLOGIA designação comum de várias aves não voadoras da família dos Dinornitídeos, outrora endémicas da Nova Zelândia e desaparecidas há cerca de 600 anos, caracterizadas pelo grande porte, patas traseiras robustas e corpo desprovido de asas; algumas espécies ultrapassavam os 3 metros de altura.

[Texto 23 022]

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P. S.: E há toda a vantagem em definir melhor a língua de que provém a palavra «moa», o maori LINGUÍSTICA língua polinésia oriental da família austronésia, falada pelos Maoris da Nova Zelândia, caracterizada pela distinção entre vogais breves e longas; é uma das línguas oficiais do país.


Outro P. S.: A referência à «ausência total de asas» merece talvez alguma cautela, ou uma bicada: os moas conservavam ainda um pequeno escápulo-coracóide vestigial, associado aos membros anteriores, pelo que, em rigor anatómico, Porto Editora, não se tratava de uma ausência absoluta de asas, mas antes de uma redução extrema dessas estruturas. Ou acham que precisamos de consultar o Dr. Vasco Leitão, já que «ele até sabe o que é o mastóideo»?



Como se traduz por aí

É como se vê


      Na quarta-feira vi, na RTP2, o primeiro episódio da série italiana Um Tempo Após Outro (Un’Estate Fa, 2023), de Davide Marengo e Marta Savina. Como envolve linguagem e conceitos jurídicos, a probabilidade de haver erros na tradução era muito alta. Como de facto. Quando Elio Santamaria está na iminência de levar um murro bem assente, de que será salvo in extremis pela intervenção de um traficante de droga, diz: «Articolo 582, percosse volontarie.» Nas legendas, da responsabilidade de Florinda Lopes (assim como a tradução), aparece isto: «Art. 582.: agressões voluntárias.» Não significa rigorosamente nada para o espectador português, não temos tal figura. É verdade, mas irrelevante para a tradução, que a personagem mistura duas figuras penais próximas do direito italiano. Ao citar o artigo 582.º do Código Penal, refere-se na realidade ao crime de lesões pessoais («lesioni personali»), isto é, à produção de danos físicos ou psíquicos noutra pessoa. Contudo, usa a expressão «percosse volontarie», que remete antes para o crime de «percosse» (artigo 581.º), correspondente grosso modo às vias de facto ou agressões sem lesão relevante. A confusão é plausível numa personagem jovem e sob tensão, sobretudo porque ambas as figuras pertencem ao mesmo campo semântico da agressão física. De volta à tradução, havia duas opções: «Artigo 582.º, ofensas à integridade física dolosas.» Ou, mais verosímil perante a situação de tensão e a condição de caloiro de Direito que a personagem seria, assim: «Artigo 582.º, agressão dolosa.» A tradução correcta exige reconhecer que o italiano está a assinalar o dolo e depois encontrar a categoria equivalente no nosso ordenamento, não apenas o correspondente vocabular.

[Texto 23 021]

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P. S.: Mas encontrei mais erros. Como este, ainda menos desculpável: «O fato, inspetor, é que não me lembro de nada daquele verão», diz Elio Santamaria ao inspector Zancan, à saída da missa. Um dia, só semialfabetizados saberão, sem qualquer espécie de hesitação, que se escreve «facto», porque tradutores, jornalistas e outros que ganham a vida a escrever é o que se vê. Mais uma coisa: escreve-se 581.º, não 581., assim amputado. Para onde mando a factura?


Ortografia: «bruaá»

Nós é que ficamos


      «Paulo Pedroso e Francisco Assis, que são do PS, concordam com Rangel e os seus argumentos são claros. Assis insurgiu-se contra uma “retórica infantil e extremista”, enquanto Paulo Pedroso lembrou que Portugal “sempre deu grande latitude” aos EUA na utilização das Lajes, mesmo no tempo dos vários governos do PS (a diferença está no “bruá” e no “alarido” de cada Administração norte-americana no poder, sublinhou o ex-ministro)» («Rangel e a base das Lajes no meio do “bruá”», Helena Pereira, Público, 19.05.2026, p. 6). 

      E logo no editorial... Helena Pereira, consulte dicionários e vocabulários, não vai ficar mais cansada ao fim do dia. Nós é que ficamos quando lemos estes erros. Em português é bruaá, com dois aa, o que se explica pelo étimo, francês, que é brouhaha.

[Texto 23 020]

Léxico: «empoado | empoador»

Porque depois aparecem em livros


      «Luísa abre o leque diante do rosto empoado, desejosa de esconder o rubor das faces.» E que utensílio usou Luísa para empoar o rosto? Ora, um empoador. Para isso, convém termos o instrumento e o adjectivo nos dicionários.

[Texto 23 019]

Definição: «magnetosfera»

E para que serve? Pois


      «Elle visualisera les défenses de la Terre. La mission Smile dont le lancement est prévu ce mardi à 5h52 depuis le centre spatial de Kourou à bord d’une fusée Vega-Cest dédiée à l’étude de la magnétosphère, le puissant bouclier magnétique qui défend notre planète contre les fureurs du Soleil» («Smile, une mission pour filmer le bouclier magnétique de la Terre», Vahé Ter Minassian, Le Temps, 19.05.2026, p. 9). 

      Ora aí está, é precisamente deste aspecto nuclear que a definição da Porto Editora se esquece: «região que envolve um planeta, como é o caso da Terra, em que o seu campo magnético exerce uma influência dominante no controlo dos processos físicos que aí acontecem». Diz apenas que o campo magnético domina os processos físicos «que aí acontecem», mas não explica que processos são esses nem porque existe uma magnetosfera. Assim, proponho magnetosfera ASTRONOMIA região do Espaço em torno de um planeta ou outro corpo celeste em que o campo magnético desse astro domina o comportamento das partículas carregadas, desviando ou aprisionando o vento solar e outras radiações cósmicas.

[Texto 23 018]

Léxico: «ratinho-africano-espinhoso»

Talvez seja hoje


      «Em fevereiro de 2022, um artigo publicado na revista científica “Developmental Cell” apontava para uma descoberta capaz de mudar o paradigma da biologia. “Por acaso e com muita sorte, descobrimos que o ratinho espinhoso africano (Acomys dimidiatus) é capaz de regenerar espontaneamente o sistema nervoso central”, esclarece Mónica Sousa» («Cientistas com “mente e olhos abertos” para criar impacto a partir do Porto», Rita Neves Costa, Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 18). 

      A jornalista Rita Neves Costa, infelizmente, ainda não teve oportunidade de entrar no conhecimento desta regra do Acordo Ortográfico de 1990. Talvez hoje. Assim, proponho ratinho-africano-espinhoso ZOOLOGIA (Acomys dimidiatus) espécie de pequeno roedor da família dos Murídeos, distribuída pelo Nordeste de África e pelo Médio Oriente, sobretudo em regiões áridas, semiáridas e rochosas; apresenta dorso coberto por pêlos rígidos e espinhosos, ventre claro, orelhas grandes e cauda relativamente comprida; de hábitos nocturnos e crepusculares, alimenta-se principalmente de sementes e outros materiais vegetais, podendo também consumir pequenos invertebrados; pertence a um género conhecido pela invulgar capacidade de regeneração de tecidos cutâneos e cartilaginosos.

[Texto 23 017]

Etimologia: «montra»

Porque mostra


      «La mise en vente d’une montre exceptionnelle a provoqué ce week-end des débordements dans certains magasins. Le mot vient du latin populaire monstrare, qui signifie désigner, indiquer. C’est pourquoi on a ainsi qualifié le cadran: il montre l’heure» («Montre», Étienne de Montety, Le Figaro, 19.05.2026, p. 32). 

      É como se Étienne de Montety nos estivesse a incentivar a completarmos, finalmente, a nota etimológica de «montra», Porto Editora, não achas? É o que nós fazemos assim do francês montre, «vitrina», do francês antigo mostre, derivado do latim vulgar monstrare, «mostrar, indicar». 

      A «montre exceptionnelle» não é um relógio excepcional no sentido relojoeiro estrito, como seria um Patek Philippe Grand Complication ou um Audemars Piguet de alta complicação, mas antes um objecto de desejo produzido em série limitada, com enorme carga simbólica e mediática. O texto explora precisamente isso: a peça torna-se uma montra social.

[Texto 23 016]

Léxico: «neuroterapia»

No sítio certo e actualizado


      Já ouviram falar no Centro de Neuroterapias Digitais da Fundação Champalimaud? Com todo o avanço dos últimos tempos, a definição nos nossos dicionários (onde aparece, em poucos) está claramente ultrapassada, pelo que proponho neuroterapia MEDICINA intervenção terapêutica destinada ao tratamento, reabilitação ou modulação de funções do sistema nervoso, especialmente em doentes com perturbações neurológicas, neurodegenerativas, neuropsiquiátricas ou sequelas de lesões cerebrais, podendo recorrer a técnicas farmacológicas, comportamentais, físicas, cirúrgicas ou digitais.

[Texto 23 015]

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