Sobre «livre-arbítrio»

Qual a vossa preferida?

      Há algum problema com o livre-arbítrio? Talvez haja dois: não é raro vê-lo escrito — mesmo por professores universitários, tradutores, escritores — sem hífen. O outro problema é o da definição. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «poder de escolher ou não escolher um acto ou uma atitude, quando não se tem razão para se inclinar mais para um lado do que para o outro». Para o Dicionário Houaiss, é a «possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante». Com mais quatro caracteres, é a minha preferida. E agora leio outra, quase lapidar, com 58 caracteres, de um livro em edição: capacidade de actuar sobre as coisas do mundo por iniciativa própria. Mais breve do que esta, em inglês, do Merriam-Webster: «freedom of humans to make choices that are not determined by prior causes or by divine intervention».
[Texto 2296]

«Dedo auricular»

Onde se fala da digitoagnosia

      Ao ler, agora mesmo, a palavra «digitoagnosia» (sim, talvez demasiado técnica para estar nos dicionários comuns — mas estão lá outras igualmente técnicas), lembrei-me de outro caso recente de tradução do inglês. Havia uma personagem, e não era pirata, que tinha um diamante... onde? No auricular. Pobre leitor... «Dedo auricular, o mínimo, porque é o que acode aos ouvidos», escreveu Madureira Feijó. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, e remete para «mendinho». Como podia remeter para mínimo, mindinho, minguinho, meiminho...
[Texto 2295]

«Hiperceratose/hiperqueratose»

Essa muleta

      «Oitenta e cinco por cento dos portugueses sofre de doenças dos pés», disse o jornalista João Tomé de Carvalho na edição de ontem do Bom Dia Portugal. Não falta quem afirme que, nestes casos, é indiferente que o verbo fique no singular ou no plural. Não é assim para mim. Não está tudo no plural? Então, o predicado deve ir para o plural, concordando com o sujeito, que também está no plural. Este foi apenas o intróito para a entrada do podologista Pedro Lopes, que tinha um bordão da linguagem menos ouvido agora: usou, em dois minutos, oito «portantos». (Agora espero que, lá por ser podologista, não me queira pisar os calos...) E, por fim, usou, e bem, a palavra «hiperqueratose». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a variante «hiperceratose».
[Texto 2294]

«Raízes tuberculosas»

Rabanetes e parvoíces

      A ignorância é sempre atrevida. O autor disse que o Homem começou por se alimentar de raízes tuberculosas... «Tuberosas», julgou corrigir a virago abigodada lá ao fundo. Mas tuberculoso é o relativo a tubérculo, que é o cormo engrossado, em regra subterrâneo, com folhas reduzidas e carregadas de reservas nutritivas.

[Texto 2293]

«Topographical error»

Quase

      «In mentioning the rivers which the missionaries had lately crossed, our author has been guilty of a great topographical error in placing the river Dissennith between the Maw and Traeth Mawr, as also in placing the Arthro between the Traeth Mawr and Traeth Bychan, as a glance at a map will shew» (The Itinerary of Archibishop Baldwin through Wales, Giraldus Cambrensis. Middlesex: The Echo Library, 2007, p. 107).
      Agora imaginem que alguém traduzia topographical error por «gralha topográfica». Que pensaria o pobre leitor sem acesso ao original? Ia acontecendo...

[Texto 2292]

Léxico: «subsidência»

Nem todos faltam

      «Além do já “habitual culpado” aquecimento global, que faz subir o nível médio do mar, Veneza ainda sofre os efeitos de décadas de bombeamento de águas subterrâneas, que causaram danos significativos à frágil fundação da cidade e deram origem a um fenómeno denominado de subsidência. Este consiste no progressivo afundamento do solo devido à extração de águas subterrâneas. Ou seja, a cidade está cada vez mais “afundada” relativamente ao nível médio do mar» («Ações do homem agravam fortes inundações que alagam toda a cidade de Veneza», Ricardo Simões Ferreira, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 25).
      Está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «movimento de descida do fundo de uma bacia de sedimentação».
[Texto 2291]

Ortografia: «coro alto»

Porquê?

      «Voltaram os andaimes ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha por causa do desprendimento de um brasão de pedra de grandes dimensões, que estava desde a década de 40 do século passado no topo do coro-alto» («Engenheiros testam ‘culpa’ do som na queda de brasão», Paula Carmo, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 22).
      Por vezes, vê-se assim, com hífen, mas não vejo razões para isso. Há séculos que se usa coro alto, e é assim que continuarei a escrever.
[Texto 2290]

Sobre «bufete»

Pode não ser

      «No documento, que estabelece os alimentos a retirar dos bufetes das escolas – que o DN noticiou em setembro (ver caixa) –, a DGS enuncia um conjunto de alimentos e produtos “que contêm glúten”, e que deve ser tido em conta pelas escolas e empresas que confecionam as refeições para os alunos» («DGS previne alergias nas cantinas», P. S. T., Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 15).
      Das quatro acepções de «bufete» registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, qual é a do artigo acima? Bem, talvez nenhuma.
[Texto 2289]

Arquivo do blogue