Frades, marifusas

É da crise

      «Alheios a essas questões, logo que surgem as primeiras chuvas de outono centenas de pessoas percorrem as florestas de Trás-os-Montes. Este ano, o “exército de apanhadores” é engrossado por muitos desempregados como Augusto Lopes 45 anos de Poiares (Peso da Régua). “Não há trabalho, temos de sobreviver e sustentar a família, por isso nesta época dedico-me à apanha de cogumelos, mas a maioria é para consumir em casa.” Confrontado com a recente morte de três conterrâneos seus por ingestão de cogumelos venenosos, foi rápido na resposta: “Sei o que apanho: primeiro só apanho ‘frades’ (nome popular da espécie Macrolepiota procera), e já o faço há mais de 20 anos, e aqueles que não conheço nem lhes toco”» («Comércio ilegal de cogumelos gera cinco milhões de euros só no Norte», José António Cardoso, Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 20).
      Vírgulas a menos, aspas a mais, parênteses errados... Mas o que me interessa agora: «frade» não é o regionalismo para «cogumelo», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas o nome comum, regionalismo, sim, da espécie Macrolepiota procera, também conhecida por marifusa.
[Texto 2288]

Léxico: «embrace»

Um abraço

      Em inglês diz-se curtain cord, eu conhecia-o apenas por cordão, mas o nome em português é embrace (por derivação regressiva de embraçar): «cordão ou faixa com que se prende um reposteiro, cortina de porta ou janela, etc.», conforme se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2287]

Tradução: «twist»

Outro golpe

      Não seria traduzir para francês, mas quase. Twist por «golpe de teatro», decalque escusado do francês coup de théâtre. Parecido, mas inteiramente português, é lance teatral. Dependendo do contexto, lance imprevisto também poderá adequar-se.
[Texto 2286]

Tradução: «bay window»

Escusadamente

      O tradutor quis que fosse «janela de bojo», mas o que me parece é que é querer inventar o que já foi inventado. Até na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira leio «janela saliente». E já li, algures, traduzido por «janela de ângulo», o que não se me afigura correcto, pois esta é a que, numa esquina, se abre nas duas paredes contíguas, muitas vezes mainelada por uma coluna ou pilar na prumada do cunhal, no que não apresenta qualquer semelhança com a bay window.
[Texto 2285]

Tradução: «knickerbockers»

Não desta vez

      Então se até o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de knickerbockers «calças à golfe» (que faz anteceder do labéu de «antiquado»...), o tradutor deixa no original? Não pode ser. «E já muda o turno, agora é um rapaz alto, de aspecto amável, calças à golfe, cabelos loiros de caracol à Tintin. O homem sorri-se, lembra-se de Óscar com seis anos ao seu colo, a ouvi-lo ler a história de Les Bijoux de la Castafiore» (Não Te Esqueças de Mim: O Pó das Palavras Mortas, Nuno de Figueiredo. Lisboa: Escritor, 2000, p. 173).
[Texto 2284]

Tradução: «doily»

Com paninhos

      Fico sempre perplexo quando alguém traduz do inglês — com termos de outra língua que não a portuguesa. Desta vez, a palavra era doily ­— paninho ornamental, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. O tradutor quis que fosse napperon. Mas até o temos aportuguesado, naperon. E é assim que ele aparece abundantemente na obra de António Lobo Antunes, talvez o autor que mais a usa.

[Texto 2283]

«Golpe de magia/passe de magia»

Não vá o Diabo tecê-las

      «Como explicar, senão por um golpe de magia, esse estranho fenómeno colectivo que varreu rotinas, sacudiu torpores, quebrou tabus e nos levou, como que tocados pela graça, ao autoconvencimento de que íamos fazer História?» (Arte de Marear, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 2.ª ed., p. 116).
      Isto não cheira logo, mesmo ao longe, a galicismo? Ora golpe, coup... Prefiro «passe de magia»: «Por um verdadeiro passe de magia, o autor, desprezando a coerência da unidade espacial, faz coincidir a localização dos dois centros de acção» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 278). Claro que, se o autor, ou alguém por ele, decide que «golpe de magia» (e, para maior francesia, «golpe de mágica» ainda era melhor: coup de magique) é que é, nada podemos fazer.

[Texto 2282]

Léxico: «lamieiro»

Isto não tem fim

      O que o homem disse, e a mulher repetiu, é que ano sim, ano não corta os lamieiros lá no terreno e os usa como estacas para o feijão. Que são plantas altas, fortes, com folha viçosa semelhante à da laranjeira. Alguém conhece o termo nesta acepção? Para todos os dicionários e enciclopédias que consultei, é apenas outro nome para o pisco-azul. Será regionalismo?
[Texto 2281]

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