«De resto»

Atirado ao muladar

      Já aqui agitou um pouco os ânimos: «— De resto — Eis aí uma locução que se atirou para o muladar das coisas inúteis por cheirar a francês. Mas milheiros de exemplos clássicos há que a absolvem da pecha que lhe assacam. Vou citar dois apenas e de mestres de polpa, que valem por todos os demais: “De resto, a agitação é sinal de vida”. (Machado de Assis: A Semana, 181). — “De resto, é uma circunstância esta pouco importante”. (Castilho: Obras, 55.º, 130)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 65).
[Texto 1760]

«Gigaelectrãovolt»?

Agora é tudo pegadinho?

      «Os dados de dezembro da ATLAS e CMS mostraram pela primeira vez “um excesso de eventos” nas colisões de partículas realizadas a níveis de energia da ordem dos 126 gigaelectrãovolt (GeV) – a ATLAS – e 124 GeV (a CMS), o que poderia ser um sinal da presença do bosão Higgs naquelas zona de energia. [...] Nos últimos meses de trabalho, desde então, as equipas das duas experiências conseguiram duplicar os dados de dezembro, e a energia das colisões passou de 7 TeV (teraeletrãovolt) para 8 Tev» («O ‘dia D’ da ‘partícula de Deus’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 27).
      Deve haver alguma convicção da jornalista nisto, pois mais abaixo, num texto de apoio, lê-se: «É no Large Hadron Collider (LHC), que faz colidir protões (partículas que integram o núcleo dos átomos) a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina na Terra – 7 teraelectrãovolt (TeV) no ano passado, e 8 TeV já este ano –, que os físicos tentam descortinar o famoso bosão, que foi previsto em 1964 pelo físico Peter Higgs, que hoje estará presente na conferência no CERN.»
[Texto 1759]

Para maior confusão

Nem todos os santinhos

      E por Vaticano, lembrei-me do programa Quinta Essência, de João Almeida, que ontem de manhã ouvi durante escassos minutos. O entrevistado era Alberto Júlio Silva, autor de Os Nossos Santos e Beatos e Outros Que Portugal Adotou. «Se calhar», disse João Almeida, «[o povo] é humilde e sabe que não tem via directa para Deus, então pede a intercepção, pede um intermediário [...].» Agora, sim, agora é que são elas: interceção, intercepção, intercessão, intersecção, interseção... No caso vertente, impropriamente se diria que é conhecimento de outiva, porquanto o que mais falta é ouvido.
[Texto 1599]

«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]

Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

       O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.
[Texto 1546]

Léxico: «cantonamento»

Tomem lá esta

      «Segundo o DN soube, no local onde, cerca das 13.55, o choque aconteceu existe uma curva que também terá dificultado a visão do maquinista. “Como vinha de um sinal de cantonamento, que apesar de estar fechado tinha um “P” branco em fundo azul, dizem as regras que deveria circular até aos 30 quilómetros/hora e pelos dados já conhecidos ele estaria a cumprir essa regra”, avançou a fonte» («Maquinistas da Linha de Cascais não comunicam», Carlos Diogo Santos, Diário de Notícias, 4.05.2012, p. 21).
       Esta não está em nenhum dicionário, nem no mais arteiro. Num léxico de termos ferroviários da página da Refer, lá está: «Sistema de controlo da distância de separação entre comboios, dividindo a linha-férrea em secções que, normalmente, não consintam mais do que um comboio em cada secção. Um cantão pode ser fixo ou móvel.»
[Texto 1467]

Tradução: «associé»

Associados e sócios

      «Quando começou a trabalhar como advogada, depois de se ter formado na Universidade de Paris, a situação não melhorou: “Ninguém queria ter uma associada chamada Le Pen”, escreveu na autobiografia que lançou em 2006, À Contre Flots (Contra a Corrente)» («Herdeira da extrema-direita francesa tem a chave do Eliseu na mão», Catarina Reis da Fonseca e Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 27.04.2012, p. 25).
      Eu sei que se diz assim, mas faz algum sentido distinguir, numa sociedade de advocacia, entre sócios e associados? Em França, tanto quanto pude ver, os cabinets d’advocats têm apenas associés, que eu não hesitaria em traduzir por «sócios». Voilà.
[Texto 1438]

Léxico: «desdiabolizar»

Mas registam «diabolizar»

      «“O mais importante é sair do euro”, considera Tourteau Gerome, que apoia uma das ideias mais polémicas – e que mais credibilidade retira à candidatura de Marine Le Pen, que tentou desdiabolizar o partido, investindo no programa económico. “É um veneno que vai acabar por nos matar”» («Marine, a redentora», Clara Barata, Público, 19.04.2012, p. 23).
      Alguns dicionários ainda registam «desdemonizar», mas não chegam a «desdiabolizar».

[Texto 1399]

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