Isso pergunta-se?

Anda cá que eu já te conto

      E a criatura perguntou-me então, olhos nos olhos, se isso dos audiolivros era ainda literatura. Ah, depende! Acabei de comprar na Boca o audiolivro Memórias de Um Craque, de Fernando Assis Pacheco. Da Boca para o ouvido.

[Texto 1163]

Sobre «fumo»

Já não se vê

      Ontem ouvi na Antena 1 que não sei que jogadores iam usar, num certo jogo, fumo em sinal de luto pela morte do treinador. Há muito que não ouvia a palavra, e há mais ainda que não vejo a «faixa, tarja de tecido preto liso, geralmente baço, que se usa na cobertura da cabeça, na lapela, no braço esquerdo, em sinal de luto» (como o define a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).
      «Quando apareceu assassinado na Poça das Feiticeiras tinha um fumo preto no chapéu e usava gravata preta» (Eugénia e Silvina, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 1989, p. 134).

[Texto 1162]

Pedro Lomba e o AOLP90

Tem razão

      «Nunca alinhei especialmente nas brigadas pró ou contra a unificação da ortografia. Por falta de competência não iria acrescentar nada ao debate», escreve Pedro Lomba na sua crónica de hoje. Muitos leitores julgarão que isto é modéstia ou falsa modéstia, e bem pode ser, mas o diagnóstico está perfeito, como se comprova pelo que escreveu antes: «Como foi que surgiram entre nós os vocábulos ‘autoclismo’ e ‘retrete’, enquanto os brasileiros escolheram os termos ‘bombeiro’ e ‘privada’? Eu sei que a troika não trata destas coisas. Etimologicamente, aprendo no Houiass [sic], autós significa em grego “por si mesmo” e klusmós “acção de lavar”. Privada entrou mais tarde e sem este amparo clássico. É produto duma outra civilização» («Eterno desacordo», p. 40). Sobre bombeiro/canalizador, descarga/autoclismo, alvitra como o homem da rua: «O que posso dizer é que nenhum acordo de escrita entre Brasil, Portugal e a África lusófona irá erradicar estas diferenças de vocabulário. E muitas outras existem, como toda a gente sabe.» Pois é, mas como se trata de um acordo ortográfico, isso não interessa.

[Texto 1161]

O VOP e o «tato»

Sic, sic, sic

      Só um parágrafo do texto de Francisco Miguel Valada no Público de ontem: «A propósito, se para este desfecho me tivesse alicerçado na plataforma adoptada pelo Governo português, o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), desenvolvido pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), a “base de legitimação científica” (p. 11) das Autoras, ter-me-ia deparado com mais uma das disparidades entre português europeu e português do Brasil criadas pelo AO90. Contudo, o que se passa é bem mais grave. Diz-nos o VOP do ILTEC que tacto e olfacto apenas se escrevem com cê no Brasil. Isto é francamente estranho. Olfacto e tacto não surgem no Dicionário Houaiss (edição de 2009) e no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001), organizado por Malaca Casteleiro, co-autor do AO90, aparece a pronunciação do cê no olfacto do português europeu. As Autoras podem repetir até à exaustão que “a aproximação [?] ortográfica não interfere com (...) a ortoépia” (p. 13), mas, a partir de olfato [sic] AO90, quem tira legitimidade à pronunciação daquele cê? Um vocabulário ortográfico» («Dermatologia e resistência silenciosa», p. 39).

[Texto 1160]

Sobre «crítico»

Falta pouco

      «Quantas vezes já lhe aconteceu estar a usar o computador e, por alguma razão, a ligação sem fios à Internet se perder? Se o sistema estiver bem montado, isto é raro acontecer. E, em princípio, as consequências não serão graves, pelo que podemos lidar com estas falhas ocasionais. Mas se tecnologia de transmissão sem fios for usada em sistemas críticos, estas falhas não podem acontecer» («Travões sem fios», João Pedro Pereira, «P2»/Público, 29.02.2012, p. 3).
      Nesta acepção, é anglicismo semântico ainda não acolhido por todos os dicionários. É só esperarmos.

[Texto 1159]

Léxico: «fita do tempo»

Ora esta

      Estamos sempre — qual é a dúvida? — a aprender. Numa mensagem de correio electrónico, um militar fala-me da «fita do tempo» de certas actividades. Nunca tinha lido ou ouvido tal expressão. Distraí-me em algum momento, pois Boaventura de Sousa Santos tem, sei-o agora, uma obra com o título A Fita do Tempo da Revolução (Edições Afrontamento). Na sinopse, pode ler-se: «O texto que vos apresento tem um nome estranho, Fita do Tempo. Não é uma metáfora poética sobre o passar do tempo. É o nome militar do registo de operações. Tal como na Marinha há o diário de bordo, no Exército há a fita do tempo. Trata-se do registo das operações que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 derrubaram a ditadura...»

[Texto 1158]

A abreviatura: FFAA

Abreviaturas

      «As FAA deverão dispor de estruturas, dispositivos e forças em condições de, etc.» E por ali abaixo, dezenas de vezes, FAA. Não pode ser: se dobra o A, de «Armadas», também tem de dobrar o F, de «Força». FFAA. Claro que nunca mais ouvi ou li a expressão «Forças Armadas» que não me lembrasse da «Força Armada» do preclaro VPV.
      «O objectivo era, creio bem, sair das FFAA logo que pudessem» (Os Anos Decisivos: Portugal 1962-1985. Um Testemunho, César de Oliveira. Lisboa: Editorial Presença, 1993, p. 124).

[Texto 1157]

«8 p. 100»

Esta é nova

      Comecei a ler Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, na 6.ª edição, de 1991, da Livraria Sá da Costa Editora. Lembrei-me do que escreveu aqui Montexto sobre o géografo: «Aproveitemos igualmente nós pelos cabelos esta oportunidade, mas de dizer bem — tão difícil, de rara, — para saudar em Orlando Ribeiro um cientista que era também um óptimo escritor, que se lê melhor e com mais proveito do que muitos da chamada literatura amena. Um prazer lembrar aqui o título Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico.» Logo nas primeiras vinte linhas, vi algo que nunca antes vira: «A sua gente representa cerca de 250 milhões, apenas 8 p. 100 da humanidade em 1,5 p. 100 da superfície emersa do Globo» (p. 1). Caro Fernando Ferreira, já conhecia esta notação?

[Texto 1156]

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