Como se fala na rádio

Filosofices

      «Uma semana depois de terminar o prazo dado às autarquias para apresentarem um plano de pagamento das dívidas à Águas de Portugal (AdP), o Ministério do Ambiente não divulgou quantas câmaras cumpriram as orientações da tutela» («Dívidas das câmaras à Águas de Portugal sem plano», Público, 23.02.2012, p. 7).
      Sim, subentende-se ali a palavra «empresa», mas não deixa de ser estranho. «Uma semana depois de terminar o prazo dado às autarquias para apresentarem um plano de pagamento das dívidas à empresa Águas de Portugal, etc.» «Bem vindo à Águas de Cascais», li hoje mal entrei no edifício da empresa na Avenida do Ultramar. (E na Antena 2 ouvi uma entrevista a Eduardo Lourenço em que o filósofo falava da nossa «ex-África».)
[Texto 1138]

Como se fala na rádio

Levado ao extremo

      Rui Pedro, disse Pedro Malaquias na revista de imprensa na Antena 2, hoje de manhã, «está desaparecido em parte incerta». Se estivesse desaparecido em parte certa, provavelmente já teria sido encontrado...

[Texto 1137]

«Prescindir de»

Pode acontecer

      «Bem sabemos que o país vive a hora de prescindir os anéis para salvar os dedos. Mas a pressão dos cortes não deve ser um rolo compressor que faça tábua rasa de um passado», lê-se no editorial de hoje do Público. Como pode não ser gralha, é conveniente dizer que está errado. Correcto é prescindir de.

[Texto 1136]

Como se escreve nos jornais

Chega: já sabemos

      «Paszkowski era um amigo chegado de DSK, como os franceses lhe chamam, aquele com quem ele trocava sms [sic], que no âmbito do processo são passados a pente fino, em busca de pistas. Os juízes tentam determinar se o ex-dirigente do FMI sabia ou não que as festas se faziam com prostitutas. Strauss-Kahn garante que não» («Strauss-Kahn será arguido por suspeita de cumplicidade em proxenetismo e receptação», Clara Barata, Público, 23.02.2012, p. 19).
      Depois de meses e meses a escreverem o mesmo, será necessário que à abreviatura DSK se siga sempre o apêndice «como os franceses lhe chamam»?

[Texto 1135]

Pontuação de frase

Recomendo

      Um historiador, Cristiano Pinheiro de Paula Couto, quis saber como pontuar uma frase. Vai daí, achou que o melhor era perguntar ao Ciberdúvidas: «“A história ou, mais precisamente, a historiografia tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”
      “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado desse diálogo por meio de contribuições com origem em alguns de seus ramos, como a história intelectual e a história política renovada.”
      Afinal, como devo pontuar essa frase?»
      Ao que respondeu o consultor: «Recomendo a segunda opção, visto a expressão “mais precisamente” introduzir, de forma semelhante a um aposto, a retificação ou a especificação de uma expressão imediatamente anterior no contexto frásico:
      1. “A história, ou mais precisamente a historiografia, tem participado...”
      Em expressão [sic] “ou mais precisamente” poderia também ocorrer sem a conjunção coordenativa disjuntiva ou: “A história, mais precisamente a historiografia, tem...”
      Não encontro informação em gramáticas ou prontuários que reforcem esta minha recomendação. Na falta de outras fontes normativas, a observação de corpora linguísticos pode ser útil para definir um padrão de uso. Por isso, compare-se 1 com a pontuação das frases 2 e 3, recolhidas no Corpus do Português, de Mark Davies e Michael Ferreira:
      2. “A França, mais precisamente Paris, passou a ser o centro das atividades artísticas.”
      3. “No século XV, mais precisamente em 1442, fundou-se a Gilda [sic] de São Lucas.”
      Os exemplos 2 e 3 permitem evidenciar que “mais precisamente X” se usa habitualmente entre vírgulas.»
      Sim, «mais precisamente X» usa-se habitualmente entre vírgulas, mas as expressões definidoras ou esclarecedoras, como alguns autores as designam, tais como isto é, a saber, quer dizer, ou seja, etc., não incluem a rectificação ou especificação, e, assim, a primeira opção também está correcta.

[Texto 1134]

Ortografia: «leão-marinho-da-califórnia»

Não recomendo

      «Penso que o correcto», escreve Maria Sousa, uma editora, no Ciberdúvidas, «é escrever leão-marinho-da-califórnia, ou seja, com as iniciais minúsculas. No entanto, se se pretender, para salientar o nome do animal, começar por maiúscula, devo utilizar a maiúscula para as restantes palavras que compõem o nome? Ou seja, devo escrever Leão-marinho-da-califórnia, ou Leão-Marinho-da-Califórnia?» Não percebo para quê tal realce, mas está bem. O consultor respondeu: «A palavra corresponde a substantivo comum, pelo que deve ser escrita com iniciais minúsculas: leão-marinho-da-califórnia. Sobre a possibilidade colocada, tendo em conta que preposições e contrações não têm maiúscula inicial em nome de países (p. ex., Estados Unidos da América, Costa do Marfim), recomendo a forma proposta pela consulente, só em situações excecionais: Leão-Marinho-da-Califórnia.» A possibilidade colocada... Bem, eu não recomendo.
[Texto 1133]

Como se traduz nos jornais

Ou uma prostituta vestida

      «“Nessas soirées as mulheres não tinham roupa, e desafio quem quer que seja a distinguir uma mulher nua de uma prostituta nua”, disse o seu advogado Henri Leclerc» («Strauss-Kahn permanece sob detenção numa esquadra de Lille até terminar interrogatório», Rita Siza, Público, 22.02.2012, p. 19).
      Soirée! Mas então que diremos? Serão? Sarau? Reunião nocturna? Na imprensa de língua inglesa, escreveram assim: «“At these parties, people were not necessarily dressed, and I defy you to tell the difference between a naked prostitute and any other naked woman,” he said.» Reparem também: «people were not necessarily dressed». O Libération diz o mesmo: «Selon le conseil de DSK, “dans ces soirées, on n’est pas forcément habillé. Et je vous défie de distinguer une prostituée nue d’une femme du monde nue”, avait déclaré Me Henri Leclerc.» Mal traduzido, pois.
[Texto 1132]

Como se escreve nos jornais

Da participação em rixa

      Pierre Casiraghi, o filho mais novo da princesa Carolina do Mónaco, envolveu-se numa briga num bar de Nova Iorque. É o que se lê no Público, e percebe-se («Nova Iorque. Pierre Casighari [sic] ferido em briga», «P2»/Público, 22.02.2012, p. 15). O último parágrafo, pelo estilo telegráfico, é que nos deixa um pouco atordoados: «No domingo, Pierre foi hospitalizado para tratar ferimentos e Adam Hock compareceu perante em [sic] tribunal, sendo acusado de agressões. Questionou por que não havia acusações contra Casighari [sic]. A Casa Real de Mónaco comentou.»
[Texto 1131]

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