O AOLP nos partidos

Ação Socialista

      «Os partidos políticos ainda não são obrigados a aplicar as novas regras e o PCP optou mesmo por só o fazer mais tarde» («Socialistas e PSD já instalaram conversores nas sedes nacionais», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 23).
      E alguma vez vão ser obrigados a fazê-lo? Claro que o ideal é os cidadãos não refilarem. «Faro foi uma das dez autarquias, entre as capitais de distrito, que aderiram. O presidente e ex-governante Macário Correia explica ao i que tem por “bom hábito cumprir as leis e as normas” e por isso cumpre “o acordo desde que entrou em vigor”» («Lisboa e Jardim resistem ao acordo ortográfico. Maioria das câmaras já o aplica», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 22). O maior dilema é no PS: «O PS – que protestou contra a decisão de Vasco Graça Moura de retirar os conversores no Centro Cultural de Belém – foi o partido que mais se aplicou em cumprir à risca as novas regras, mas, durante este processo, foi confrontado com um pequeno imbróglio: o cabeçalho do jornal oficial “Acção Socialista” deve ser alterado ou não? A decisão foi, diz o director do jornal, Marcos Sá, “não fazer [a] alteração, já que é uma marca que está registada”» («Socialistas e PSD já instalaram conversores nas sedes nacionais», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 23). Não me parece um imbróglio.
[Texto 1122]

«Evadir questões»

Eludir, evitar

      «O Presidente tornou-se alvo de chacota geral: foi mesmo criado o verbo wulffen (“wulffar”), que pode ter vários significados: “gritar enraivecido para uma caixa de mensagens de um telemóvel”, “conseguir evadir questões sem chegar necessariamente a mentir”, ou “obter algo sem pagar”» («Presidente alemão demite-se após anúncio de que ia ser investigado», Maria João Guimarães, Público, 18.02.2012, p. 16).
      Serão questões ou perguntas? Evadir ou evitar? E que alcance prático tem tentar traduzir ou adaptar o verbo à língua portuguesa?
[Texto 1121]

«Beto», «betinho»

Tipo social

      «“Os betinhos e as betinhas de Lisboa que integram este Governo talvez ainda não tenham percebido que estão a mexer com coisas muito sérias”, disse Marinho Pinto, em Castro Daire, onde, ontem à tarde, mil pessoas se manifestaram contra o encerramento do tribunal da comarca» (Público, 18.02.2012, p. 6).
      Os Brasileiros não conhecem o termo. E qual é a melhor definição? «Jovem bem-comportado, geralmente um pouco presumido», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Diz-se de ou jovem que exibe comportamento ou aparência considerado como pertencente a uma classe social elevada», lê-se no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
[Texto 1120]

«Fizeram rebentar o portão»

Ora vejamos

      «Na Nigéria, homens armados de um grupo islamita atacaram uma cadeia. Mataram um guarda e libertaram 119 prisioneiros. Os assaltantes fizeram rebentar o portão da cadeia com uma bomba. O Governo da Nigéria já ordenou uma investigação ao caso» (Bom Dia Portugal, Carla Trafaria. RTP 1, 17.02.2012, 7h14).
      «Fizeram rebentar»? Se fosse necessário, não teria usado, como é tão vulgar, o verbo «fazer». No caso, há-de querer dizer que os assaltantes contrataram alguém — talvez serralheiros — para rebentar o portão...
Quanto a islamita, está correcto. É a única forma, registada na página 575, que encontramos no Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves. Saberão isto no Público?
[Texto 1119]

Como se fala na televisão

Ficamos estafados só de ouvir


      Triplo homicídio em Beja. Helena Sousa e Silva, da RTP, junto ao Estabelecimento Prisional de Lisboa: «Bom, aquilo que foi divulgado então é que Francisco Esperança, de 60 anos, se enforcou durante esta noite. Enforcou-se na cela onde estava. Utilizou os lençóis da sua cama para colocar termo à vida, ele que tinha sido transferido aqui para o Estabelecimento Prisional de Lisboa ontem à tarde, e por questões de segurança, ou seja, ele tem estado, desde segunda-feira que estava em Beja, na prisão, mas depois as autoridades consideraram que seria perigoso ele estar ali por estar então em contacto com outros presos, e poderia haver retaliações depois daquele alegado crime, não é, que ele então era o suspeito de ter matado a mulher, a filha e uma neta de apenas 4 anos, para além de todos os animais que tinha em casa, portanto as autoridades consideraram que poderia haver ali algum perigo e transferiram-no aqui para o Estabelecimento Prisional de Lisboa, onde ironicamente foi o próprio Francisco Esperança que decidiu então pôr um termo à sua vida.»
      Penoso. Com metade das palavras (e metade dos erros e redundâncias), diria o mesmo.

[Texto 1118]

Como falam os psicólogos

O povo não percebe

      Triplo homicídio em Beja. Maria Francisca Rebocho, psicóloga forense, veio explicar tudo: «Tipicamente, este crime, estes crimes organizados estão associados a patologia mental, do tipo psicótico, patologia major, que este indivíduo não parece ter, porque, se ele estivesse sob o efeito de um delírio, não teria havido lugar àquela premeditação tão estruturada.» Hã?! Está bem, está bem.
[Texto 1117]

«Nariz saliente»

Mas todos dizem assim

      «D. João V era bastante alto, por isso descrito como tendo “uma estatura bizarra”. Contudo, era bem proporcionado e de agradável presença, com grandes olhos cinzentos e nariz saliente» (O Caminho dos Reis de Portugal, Sérgio Luís de Carvalho. Revisão de Fernanda Fonseca. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2.ª ed., 2010, p. 88).
      Ora, eu já li muitas vezes isto: «nariz saliente». Fará sentido? É que o nariz é, como se pode ler em qualquer dicionário, a parte saliente do rosto, situada acima da boca, onde se encontra a parte anterior das fossas nasais, e que constitui o órgão do olfato. O vigésimo quarto rei de Portugal não teria antes o nariz demasiado saliente?
[Texto 1116]

Sobre «gulag»

Direcção-Geral dos Campos

      Não é estranho que nunca se veja o aportuguesamento de gulag? Até porque é o acrónimo (o acróstico!, lê-se no Dicionário Houaiss em linha — sabia, caro Paulo Araujo?) de Glavnoie Upravlenie Laguerei. Gulague.

[Texto 1115]

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