Felicitas Philippi

Por um p

      «Filipe II chegou a pensar em transferir a capital de Espanha para Lisboa. A cidade passaria a chamar-se Felicitas Philipi» (O Caminho dos Reis de Portugal, Sérgio Luís de Carvalho. Revisão de Fernanda Fonseca. Lisboa: Planeta Manuscrito, 2.ª ed., 2010, p. 72).
      Só o refiro porque poucos portugueses (e nenhum espanhol?) o saberão. Quase acertaram, o autor e a revisora. Felicitas Philippi. «Houve mesmo o projecto de estabelecer a capital da Hespanha em Lisboa, a que chamavam Felicitas Philippi; a morte do monarcha, acontecida a 13 de março de 1621, impediu, talvez, de realizar-se a mudança», escreveu Teixeira de Aragão em 1875.
[Texto 1114]

«Último/mais recente»

Tu quoque, Antoni

      Na Antena 1, estavam a oferecer bilhetes para o concerto de Sara Tavares no Centro Cultural de Belém. Os ouvintes só tinham de saber o nome do último disco (Xinti) da artista. «Último não», corrige-se a si próprio António Macedo. «O mais recente trabalho. Último será daqui a muitos anos.» Não é assim, caro António Macedo, pois «último» também significa mais recente, mais novo. Nunca teve curiosidade de consultar um dicionário para ver? Quis dizer-lhe, mas: «A caixa de correio do destinatário está cheia e não pode aceitar mais mensagens.»
[Texto 1113]

«Força Armada»

Também não percebi

      Um oficial da Armada, Rui Amaral, nas «Cartas à Directora» do Público: «Li com bastante atenção o artigo de Vasco Pulido Valente (V.P.V.) de 10/02, “A insubmissão militar”. Entre outras coisas, escreve V.P.V. “Para que precisa a Força Armada de privilégios, que só faz sentido conceder em tempo de guerra? Como de costume, os militares começaram agora com exigências de puro carácter corporativo: promoções (sempre essa velha questão), saúde, equiparação de facto ao funcionalismo civil e outras queixas do mesmo teor....” Quanto à “Força Armada”, interrogo-me porque não usou V.P.V. a expressão correcta “Forças Armadas”. Terá querido usar um termo depreciativo para se referir a uma organização secular e estruturante do país ou ao invés tratou-se somente de um engano?»
      Também me interroguei sobre este singular tão singular. Não é raro que tais subtilezas, se o são, se percam completamente. É, convenhamos, um castigo justo.
[Texto 1112]

Diferença e discriminação

Não se percebe a intenção

      «“A paz vai tardar” na comunidade de Beja, antecipa João Gregório, que diz ter andado “à escola” na primária com Francisco Esperança» («Prisão preventiva para alegado autor de triplo homicídio», Carlos Dias, Público, 16.02.2012, p. 10).
      Não sei se gosto de ver os jornalistas, habitualmente tão desleixados quanto ao resto, tão atentos a estas diferenças linguísticas. Está a fazer um ano que a jornalista Catarina Pires tentou reproduzir o sotaque de uma imigrante chinesa: «Estudantes do 9.º e 6.º anos da Escola Selecta, em Lisboa, estão entre os melhores alunos e, quando não estão nas aulas, estão em casa a estudar. “Acho que aquela é muito regulosa. Eu também sou, mas ainda não cheguei ao nível dela. Ela é mais exigente”, observa Inga, a rir» («Mães tigre em Portugal», Catarina Pires, Notícias Magazine, 6.03.2011, p. 69).
      «Nega, contrafeito, e informa-me que é de Évora. Digo-lhe de onde sou. Servido o brande, com mão de alentejano para alentejano, a conversa adianta-se, fluente e íntima como se nos conhecêssemos de andar à escola» (Crónicas Algarvias, Manuel da Fonseca. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, p. 72).

[Texto 1111]

Como se fala na televisão

Exagerado

      Triplo homicídio em Beja. O repórter Paulo Nobre, da RTP, em directo: «Não, não se percebeu o que precedeu este massacre e porque é que ele aconteceu. E é isso que tem intrigado aqui as pessoas e que as tem movido, quer ontem à porta da casa do alegado homicida e daquela família, quer hoje aqui frente ao Tribunal de Beja.»
      Felizmente o tribunal fechou à hora de almoço, e as pessoas lá puderam ir para casa... «Massacre», Paulo Nobre? Não estará a confundir o alegado homicida, «pessoa afável, simpática, de fino trato», com Pol Pot? Massacre, mortandade, carnificina...
[Texto 1110]

AOLP90, um purgante?

Agora vamos ver

      O Acordo Ortográfico de 1990 voltou a ser tema do editorial do Público: «De repente, parece que a contestação ao Acordo Ortográfico (AO) deixou o aparente silêncio onde se movia para ressurgir, com estrondo, na opinião pública. Artigos em jornais e revistas, actos públicos, iniciativas coordenadas ou isoladas insinuam-se como se de uma campanha se tratasse. Há uma explicação para isso: a profusão de textos escritos (e muitos deles mal escritos) seguindo, ou pretendendo seguir, o AO (alguns com disparates de monta, como escrevendo “fato” em lugar de facto, quando este é um dos muitíssimos casos onde se fixou dupla grafia, “fato” para o Brasil e “facto” para Portugal — já que os africanos têm sido marginalizados em tal “partilha”) faz com que as reacções aumentem. É como o óleo de rícino: ninguém diz mal dele até começar a tomá-lo. O Acordo Ortográfico, cuja aplicação forçada e nada consensual vai revelando cada vez mais as suas muitas fragilidades e incongruências, apela a que, de uma vez por todas, se olhe para o amontoado de erros que ele contém e se decida o seu destino, a bem da língua portuguesa, onde quer que ela se fale e escreva. E é em nome do futuro e não do passado que falamos, ao renovar tal apelo» («Língua, ortografia e óleo de rícino», Público, 15.02.2012, p. 30).
[Texto 1109]

«Lacuna/laguna/lagoa»

Tudo passa

      «La extensa biografía que Walter Isaacson escribió sobre el co-fundador de Apple no se detenía demasiado en su faceta zen, laguna que ahora pretende cubrir The Zen of Steve Jobs, novela gráfica que explora la relación de Jobs con el sacerdote budista Kobun Chino Otogawa», acabei de ler no blogue Papeles Perdidos, do El País.
      Em castelhano, laguna tanto é bacia litoral de água paradas como omissão. Nós divergimos — e ainda bem. Para a bacia litoral, temos laguna e para a omissão temos lacuna, que foi, outrora, um cultismo. Tudo passa. «En los manuscritos o impresos, omisión o hueco en que se dejó de poner algo o en que algo ha desaparecido por la acción del tiempo o por otra causa.» E até divergimos mais, pois também temos, por via popular, lagoa.
[Texto 1108]

Quem tuteamos

Detido e tuteado

      Acesa altercação. Já sabem onde. O inspector tratou o detido por tu. O advogado deste não gostou e disse-o. Que era falta de respeito. Que não, não era, respondeu o inspector. Eu só desabafei com um audível «Valha-me Deus!», mas apetecia-me afirmar em voz alta, se fosse ali chamado, que era falta de respeito, sem dúvida. «Só o fez porque o meu cliente é negro.» Isso é que já não sei, senhor Dr.

[Texto 1107]

Arquivo do blogue