Tradução: «coroner»

A mesma dúvida

      «Demitiu-se a médica legista [sic] que investigou a causa de morte da cantora britânica Amy Winehouse, em Julho, porque não tinha a experiência necessária para exercer as funções. Suzanne Greenaway tinha sido nomeada pelo marido, anunciou a família da cantora» (Público, 2.02.2012, p. 25).
      Lê-se no The Sun: «The coroner who oversaw the inquest into Amy Winehouse’s death has resigned after it was revealed that she was not technically qualified to take on the role.» Coroner, então. A tradução deste vocábulo já nos ocupou mais de uma vez no Assim Mesmo. Continua o The Sun: «Rules state she could only be appointed if she had been in the Law Society as a solicitor for at least five years. But she only joined two-and-a-half years ago. The law also requires her to have five years as a “qualified medical practitioner”. But she only qualified only as a nurse in her native Australia and worked as a lawyer there. Potentially, every one of the 30 or so inquests she presided over could be declared illegal.»

[Texto 1050]

Tradução: «en faire des tonnes»

Toneladas

      Lê-se no original: «On pourrait croire que Serge en fait des tonnes mais pas du tout, c’est quasiment son style ordinaire.» Foi traduzido assim: «Poderíamos pensar que Serge faz demasiado, mas não, é quase o seu estilo normal.» Acontece que, vertido desta forma, não significa nada. Só num dicionário, e consultei quatro, é que encontrei esta tradução. Na internet, porém, encontrei: faire des tonnes é exagerar. Assim, sim. Alguém conhece?
[Texto 1049]

Tradução: «combinaison»

Que mariquice

      E então lá apareceram os técnicos forenses «avec des combinaisons de cosmonautes». Não é preciso consultar Paulo Rónai para sabermos que os técnicos vieram vestidos com fatos-macaco. Mas aqui leio que vieram com «combinações», a peça de roupa interior do vestuário feminino. O inspector não os deixaria trabalhar em tais preparos. Acho eu.
[Texto 1048]

«Guia Prático de Tradução Inglesa»

Falta para o francês

      «Tractor de obra», lia-se na tradução. «Tracteur de chantier», lia-se no original. Embora não se trate de falsos cognatos, mas de mera tradução literal, lembrei-me de uma obra quase monumental sobre falsas semelhanças na tradução do inglês: Guia Prático de Tradução Inglesa, de Agenor Soares dos Santos. Mais do que recomendável. Infelizmente, não está à venda nas nossas livrarias; felizmente, podemos comprá-la, por exemplo, na Wook. Em pouco mais de uma semana, temos os CTT Expresso a tocar-nos à campainha.

[Texto 1047]

Tradução: «agent en faction»

Sr. agente

      Uma mulher foi raptada numa rua de Paris. A guardar a cena do crime, fica, durante toda a noite, um agent en faction. «Agente de vigia», verteu o tradutor. Não diríamos melhor de plantão, porque estar de plantão é estar de vigia? Ou só na esquadra é que um agente está de plantão?
      «A porta da antecâmara abre-se e o agente de plantão acode, espavorido» (Uma Aventura Inquietante, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1981, p. 78).
[Texto 1046]

«Five-dollar words»

Caro Paulo Rangel, se nos lê

      «Costumo ler», escreve-me Francisco Agarez, «com atenção os artigos de Paulo Rangel no Público, às terças-feiras. Acho-os inteligentes, estimulantes e globalmente bem escritos, pese embora alguma propensão para o “falar caro”. É rara a semana em que não tropeço num sinal dessa propensão. Hoje, por exemplo, escreve o articulista no parágrafo 2. do seu artigo [«Em defesa de mais liberdade para os deputados», p. 28]: “Alguns, mais maquiavélicos, chegaram a insinuar que se curava de uma manobra de facção, industriada por nostálgicos de Sócrates, que querem atrapalhar a liderança de Seguro.” É da minha vista ou nada autoriza esta utilização de “se curava” em vez de “se tratava”?»
      Eu não usaria, é o que posso dizer. E também noto essa escusada propensão — que tem cura. Faz-me lembrar uma personagem de um livro de um autor norte-americano que estou a ler: He also used the big words, the five-dollar words...
[Texto 1045]

Léxico: «ângelus»

Porque não?

      «O Papa Bento XVI libertou ontem duas pompas [sic] brancas perfeitas, símbolos da paz, após o Angelus — mas as pombas, talvez num mau presságio, recusavam-se a deixar a janela do Papa e partir para os céus de Roma levando a esperança da paz» («Vaticano. Pombas da Paz não queriam deixar o Papa», Público, 30.01.2012, p. 16).
      Também esta, reparem, está aportuguesada, ou semiaportuguesada: ângelus, como se lê no Dicionário Houaiss.
[Texto 1044]

«Vala comum»

Na fossa

      Rosa Veloso, anteontem, de Madrid: «Familiares dos vencidos sabem apenas que estão por recuperar mais de 100 mil corpos sepultados em fossas comuns de toda a Espanha, isto com base numa lista fornecida pelas câmaras municipais e outras organizações públicas consultadas pelo juiz Garzón quando em 2008 decidiu investigar os crimes do regime fascista.» E, qual causídica, mas aqui está correcto: «Contudo, duas associações de extrema-direita decidiram processar o conhecido juiz, acusando-o de prevaricação por vulnerar a lei de amnistia de 1977, aprovada durante a transição para a democracia, isto é, pré-constitucional.» Uma escolha de palavras que não seria a minha: «organizações públicas» e «associações de extrema-direita».
      Vala comum: sepultura onde se enterram em conjunto muitos cadáveres. Também há fossas sépticas.

[Texto 1043]

Arquivo do blogue