«Corpus» oral

Estamos quase lá

      Da entrada de hoje do Ciberdúvidas: «Já fazia falta um dicionário com entradas áudio, como o Macmillan online. Perguntas que nos chegam sobre a pronúncia em português europeu de palavras tão frequentes como rosa, prestação, rubrica, espetador, caracterizar, subsídios, icebergue, beisebol, coeficiente, enredo, retórica, etc., etc., ficavam respondidas num abrir e fechar de olhos, ou seja, num clique. Está lançado o repto ao ILTEC.»
      Já fazia falta um dicionário com entradas de áudio? Mas já tínhamos outros... Quanto ao repto ao ILTEC, bem, já tem um corpus oral, e a ferramenta, o Spock, o que no Ciberdúvidas sabem, pois a hiperligação remete para ali. Hão-de querer dizer que o ILTEC devia alargar o corpus oral. Podia. Devia. Entretanto, devia também corrigir algumas das transcrições e, quando o contexto é demasiado pequeno, alargá-lo, para tornar perceptível o vocábulo pesquisado. O conceito é muito melhor do que o da Forvo, pois são dadas pronúncias em contexto real, não condicionado.

[Texto 1042]

«Fãs incondicionais»

Não me condiciones

      Rosa Veloso, ontem, de Madrid: «José Mourinho raramente sai de casa fora das deslocações do futebol. Ontem à noite, abriu uma das poucas excepções, melhor, a única em mais de ano e meio que vive em Madrid. Ele e a mulher, fãs incondicionáveis da actriz Eunice Muñoz, foram vê-la na peça onde contracenou com Maria José Paschoal, O Cerco a Leningrado, no Teatro Belas-Artes.»
      Não é assim, cara Rosa Veloso. Incondicional, isto é, que não está sujeito a qualquer condição ou restrição. E quem diz «fã», é claro, diz «sequaz», «adepto», «partidário»: «Modesto servo de Deus, partidário incondicional do coronel, modelo de fé cristã e de civismo grapiúna, padre Afonso pecava pela gula, comia por um regimento» (Tocaia Grande, Jorge Amado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 46).

[Texto 1041]

Não lhe agradecemos

Qual o objectivo?

      «Simão é o aluno mais novo da turma. “Gosto de estudar chinês, é cansativo, requer muita paciência, mas lá se vai...”, diz descontraído ao P2. Para acrescentar: “Tem de se praticar muito. O mais difícil é escrever os caracteres.” E o que é um “caractere” (carácter)? [...] Neste caso, explica, estamos a falar de “chinês língua”, mas se pensarmos em “chinês pessoa”, então “ainda temos de juntar a esse ‘caractere’ mais um outro, o de ‘pessoa’”» («Isto para mim não é chinês», Rita Pimenta, «P2»/Público, 30.01.2012, pp. 6-7).
      Todo o empenhamento da jornalista foi reproduzir a pronúncia errónea do vocábulo, e, como não estamos na rádio, de caminho ensina a escrever mal. E, claro, também ensina a despontuar as frases.

[Texto 1040]

Os Feteiras

Ora muito bem

      «Mas não só da política se alimenta a verdadeira telenovela da vida dos Feteiras» («Lúcio Feteira. Um super-homem português esquecido», Nuno Ramos de Almeida, «Liv»/i, 28.01.2012, p. 8).

[Texto 1039]

Como se escreve nas revistas

«Caso acompanhe a queixa»?

      O empresário António Ferreira, marido da fadista Mariza, apresentou queixa-crime contra um administrador da empresa Plurijogos, da qual é sócio. «Caso o Ministério Público angolano acompanhe a queixa, está prevista uma pena de prisão entre dois a oito anos ou, em alternativa, “degredo temporário”» («Marido de Mariza apresenta queixa por falsificação», Sábado, n.º 402, p. 18).
[Texto 999]

Como falam os políticos

Nem advérbios, nem preposições...

      Guimarães, Capital Europeia da Cultura em 2012. Ontem, antes do stravinskiano O Pássaro de Fogo, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, afirmou: «A cultura, o conhecimento e a inovação não são meros adjectivos, pelo contrário, são elementos substanciais de qualquer processo de crescimento ou de relançamento económico.»
[Texto 998]

Quase Destouches

Mas bem pensado

      «Ne chassez pas la nature, elle revient au galop.» Assim acaba Vasco Pulido Valente a sua crónica de hoje, toda dedicada a Cavaco Silva, que quer ser um de nós e não é. A frase, porém, está um tudo-nada deturpada. «Chassez le naturel, il revient au galop», escreveu Destouches na peça Le Glorieux, em 1732, inspirado, diz-se, numa frase de Horácio nas epístolas: «Naturam expellas furca, tamen usque recurret.» O que conta é a intenção...
[Texto 997]

Reforma ortográfica de pantufas

Dona Aspulqueta 
e as infidelidades de Oscar

      Oscar Mascarenhas, provedor do Diário de Notícias, parece que não está nem a favor nem contra o Acordo Ortográfico. Parece, porque no meio de tantas palavras fica-se aturdido. «Ou segundo o Acordo ou segundo o desacordo. O DN que escolha. Com a brevidade que o serviço ao leitor exige.»
      «Tenho assistido – sem grande vibração, diga-se – à troca de opiniões, mais ou menos acaloradas, mais ou menos profundas sobre a questão do Acordo Ortográfico. Descaracterização da língua, submissão ao brasilês, com tudo se argumenta, até com o “matriotismo” obstinado do “foi assim que me ensinou a minha santa professora da escola primária”. [...] Pois é, não me venham com fidelidades às nossas professoras porque há muito que as traímos – eu sempre a contragosto – quando aceitámos uma outra reforma ortográfica, que veio de pantufas não sei quando e nos mandou deixar para trás o critério fonético da ortografia, partindo do princípio que “toda gente” sabe pronunciar as palavras, pelo que não é preciso estar com muitos rigores. Essa sim, foi a reforma que desfigurou a nossa ortografia – mas onde estavam os que deviam protestar e me deixaram (ainda hoje) vox clamantis in deserto?» («(Des)Acordo Ortográfico separa os “maquisards” dos vende-pátrias”?», Diário de Notícias, 21.01.2012).
      Afinal, por quantas reformas ortográficas passou Oscar Mascarenhas, que nasceu em 1949?

[Texto 996]

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