A convidada anfitriã

Vá para bordo

      «Porque da fúria ao humor a distância é curta, já estão à venda em Itália T-shirts com a frase “Capitão, volte para bordo”, usando a frase do oficial da guarda-costeira [sic] que falou com Schettino depois do naufrágio» («Tripulação do navio tentou negar naufrágio», J. A. V., i, 21.01.2012, p. 11).
      Não, não, J. A. V., a frase não é essa. «Já circulam por Itália t-shirts onde se lê a frase “Vada a bordo, cazzo!”, o que, em versão suavizada quer dizer qualquer coisa como “Regresse a bordo, porra!” Ou seja, a cobardia do comandante Francesco Schettino já entrou no anedotário nacional» («Concordia. O comandante cobarde», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 4). «Vá para bordo, caralho!» Veja aqui. O texto tem outros erros. «Ontem, [Domenica] Cemortan, anfitriã do cruzeiro, veio garantir em entrevista a um jornal moldavo que não é amante do capitão como foi sugerido.» Convidada do capitão — é anfitriã. E não é amante como foi sugerido — mas de outra forma, talvez. Enfim, assim se escreve nos nossos jornais. Cazzo.
[Texto 995]

«Megagrupamentos»!

Primeiro estranha-se,
depois detesta-se

      «Ensino profissional e alunos de risco excluídos de megagrupamentos», era o título que se podia ler na página 7 da edição de ontem do i. Verdade seja dita que no artigo, assinado por Kátia Catulo, não aparecia. Deve ter sido o «criativo» da redacção.
[Texto 994]

«Se dúvidas houvessem»!

Em breve numa livraria

      «E se dúvidas houvessem sobre a veracidade da história, o agente da PSP desfez todas e mais algumas» («A teoria do número Primo ou o estranho caso do primo invisível», Sílvia Caneco, i, 21.01.2012, p. 31).
      Quando se escrever a história da língua, dir-se-á que, no início do século XXI, a forma canónica era residual. À cabeça da contestação, estavam os jornalistas. Absolutamente lamentável.
[Texto 993]

«Espiar uma pena»!

Caem em todas

      «O rapaz, agora com 31 anos, espia uma pena de homicídio qualificado no Estabelecimento Prisional do Funchal. O Supremo Tribunal de Justiça acaba de lha baixar de 19 para 17 anos, crendo-o “arrependido”, a viver “em sofrimento”» («O psicólogo que matou a amada», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 8).
      Nas Reflexões sobre a Língua Portuguesa, de Francisco José Freire, lê-se: «Expiar e espiar têm notável diferença, e não se deve confundir a pronunciação do ex com a do es; porque expiar é reparar o desatino de um crime com acções satisfatórias. [...] Pelo contrário espiar é observar clara ou ocultamente o que se passa.» Uns anos antes, Madureira Feijó escrevera pouco mais ou menos o mesmo. Ou seja, é confusão que já vem muito de trás.
      Do Livro de Estilo do Público (que os jornalistas do Público, essa é que é essa, não lêem): «espiar / expiar — Dois verbos a não confundir: à família do primeiro pertencem espião, espia e espionagem; à do segundo, (bode) expiatório.»
[Texto 992]

Mais colocações

Mas quem fala assim?

      «Outro colega, Mario Palombo, ex-comandante do grupo Costa, admitiu por seu lado que sempre teve “algumas reservas” em relação a Schettino. “Ele sempre foi muito exuberante. Um indivíduo audacioso. Mais do que uma vez tive de o colocar no lugar dele”, explicou Palombo, recordando-se da época em que era seu superior, indica o jornal britânico Telegraph» («Concordia. O comandante cobarde», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 21.01.2012, p. 5).
[Texto 991]

«Tragédia humana»

Assim está melhor

      «Horas antes, a notícia era outra: o navio movia-se à razão de 7 a 15 milímetros por hora, o que levou à suspensão das buscas durante a noite. Aumentava o receio de que à tragédia humana que foi o naufrágio se some uma catástrofe ambiental» («Movimentos do Costa Concordia travaram operações de busca durante quase todo o dia», João Manuel Rocha, Público, 21.01.2012, p. 21).
[Texto 990]

Sobre «bonzo»

Bueno, probablemente

      «Tres licenciados marroquíes en paro tratan de quemarse a lo bonzo en Rabat», lia-se na edição de ontem do El País. Bonzo é, como sabem, o sacerdote budista. E como é isso de se queimarem a lo bonzo? «Rociándose de líquido inflamable, y prendiéndose fuego en público, en acción de protesta o solidaridad.» Neste caso, o DRAE diz que provém do japonês. Não faltam, contudo, autores espanhóis (nem portugueses) que dão como provável ou certa a etimologia portuguesa. Parece que foi S. Francisco Xavier que introduziu a palavra na Europa, e foi em Portugal, muito provavelmente, que ela ganhou a nasalização medial. Alguns dicionários também registam a variante bônzio. Dalgado, que dedica uma extensa entrada ao vocábulo no seu Glossário, regista também, como derivado, «bonzaria», a colectividade de bonzos, e, ainda mais curioso, «bonzeiro», o amigo dos bonzos.
[Texto 989]

Como se escreve nos jornais

Para o anedotário

      «Depois do almoço, há-de caminhar, com uma esfregona na mão, um balde na outra, até ao pavilhão da prisão. Faz parte da brigada hergoterapêutica, o grupo que limpa aquele espaço comum em regime de voluntariado, no pressuposto de que mata tempo, faz algo pela comunidade, ganha sentido de responsabilidade» («No Clube K», Ana Cristina Pereira, «P2»/Público, 20.01.2012, p. 4).
      Deve ter sido o recluso que aspirou — e a senhora jornalista, cheia de medo, apontou: hergoterapêutica. Na redacção, nem se lembrou de ir consultar um dicionário. Para quê, não é?

[Texto 988]

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