«De encontro a/ao encontro de»

Pois é, mais uma vez

      Anne Sinclair vai dirigir a edição francesa do sítio de informação norte-americano The Huffington Post. Vai daí... «O regresso de Anne Sinclair começa a levantar celeuma, sobretudo porque, em França, diz a regra de que um jornalista deve deixar de exercer a profissão enquanto mantiver um relacionamento com um político» («Anne Sinclair deixa figura de ‘boa esposa’ para voltar ao jornalismo», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 53). 
      Talvez lapso... mas: «O regresso de Sinclair à atividade profissional vai de encontro às apreciações dos franceses que, no final de 2011, a elegeram como a mulher francesa mais marcante do ano.» Não, Carla Bernardino, vai é de encontro às apreciações dos franceses que não a elegeram «como a mulher mais marcante do ano».
[Texto 970]

 

«Ao nível dos joelhos»

E o resto...

      «A decisão de vender [o veleiro Bribón] prende-se com o facto de o monarca ter decidido abandonar este desporto, devido aos graves problemas de saúde de que padece, especialmente ao nível dos joelhos, aos quais já foi operado duas vezes» («Veleiro do Rei Juan Carlos está à venda», Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 53).
[Texto 969]

Nomenclatura científica

Não é por eu não dizer

      «Quando Lineu classifica um bicho com um nome repetido (o pargo legítimo é pagrus pagrus) é porque não tem dúvidas. Ao chicharro, comparado com outros carapaus, chamou ele, em 1758, trachurus trachurus. Como quem diz duh...» («Bendito chicharro», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.01.2012, p. 29).
      Não, nada disso: o pargo legítimo é Pagrus pagrus, e o chicharro é Trachurus trachurus.

[Texto 968]

«Sobre/sob»

Outras tantas

      «“Se há uma situação mais grave, o comandante terá de ter tudo sobre controlo, estar lá onde é preciso”, afirmou [Francesco Schettino, comandante do Costa Concordia] na altura» («Itália teme nova tragédia por causa de derrame de combustível», Susana Salvador, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 23).

[Texto 967]

«Mandato/mandado»

Escreva 50 vezes

      «Se após a fase de recursos Pedro Medeiros continuar em parte incerta, poderá ser emitido um mandato para a sua captura» («Ex-comerciante condenado a dez anos de prisão por matar assaltante», Paulo Faustino, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 19).
[Texto 966]

«Gerrymandering»

Era escusado

      «“O mapa dos distritos eleitorais pode ser considerado antidemocrático. As suspeitas de gerrymandering são elevadas”, diz Róbert Laszló, especialista em sistemas eleitorais do think tank Political Capital, em Budapeste. Este curioso termo, de origem anglo-saxónica, refere-se à manipulação das fronteiras dos círculos eleitorais para obter vantagens para um dos lados em disputa – e é disso que é acusado o Fidesz de Viktor Orbán» («Uma lei eleitoral desenhada à medida do Fidesz», C. B., Público, 16.01.2012, p. 18).
      Será mesmo necessário o termo inglês? Não é habitual, para exprimir o mesmo, falar-se de engenharia eleitoral? E lá está, no título, outro anglicismo semântico, carinhosamente adoptado pela comunicação social: «desenhada».
[Texto 965]

Léxico: «portilha»

Novidade

      O homem levava para casa tudo o que podia — até cacaréus inúteis como potes e portilhas de ferro. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, portilha é apenas «seteira». Ora, uma seteira é uma fresta aberta numa parede. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, é termo desusado e designa uma «grande abertura na parede; seteira». Para o Dicionário Houaiss, é termo obsoleto sinónimo de «seteira». Talvez venha do castelhano portilla.
[Texto 964]

Sobre «água-de-colónia»

Não percebo

      «Nas locuções de qualquer tipo», lê-se na Base XV, 6.º, do Acordo Ortográfico de 1990, «sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).»
      Perfeitamente claro. Consultemos agora o Vocabulário Ortográfico do Português (VOC), onde podemos ler que se escreve «água de Colónia». «Apenas em Portugal», lê-se. Com a variante «água-de-colónia». (E «água de Colônia (apenas em Brasil)», mas esqueçamos o Brasil.) Podemos concluir que o vocábulo tem as grafias água-de-colónia e água de Colónia? Mas se o texto do acordo o inclui entre os que não perdem o hífen, por estarem já consagrados pelo uso!
[Texto 963]

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