Léxico: «abeta»

«E o Luís é maçon?»

      Graças à RTP e à repórter Sandra Vindeirinho, agora já sabemos o preço de um avental maçónico de grão-mestre: 150 euros. Bordado a fio de ouro, pode custar cerca de 3000 euros. Explicou o lojista (Amigo da História, na Rua do Patrocínio, em Campo de Ourique), Luís Carlos Silva: «É um avental totalmente liso, sem qualquer [...] e o aprendiz usá-lo-á desta forma, em loja, e usa desta forma, com a abeta para cima, porque ainda está no início dos seus trabalhos, ainda suja bastante, isto simbolicamente falando, e como tal precisa de mais superfície para se proteger quando está a fazer os seus trabalhos maçónicos.»
      Pelo que vi, poucos dicionários registam o vocábulo, um diminutivo: abeta. O Dicionário Houaiss acolhe a acepção: «pequena aba que, no avental dos maçons, indica, segundo a maneira com que é usado, o grau daquele que o veste».
[Texto 946]

«Por isso, me assumo...»

Por isso

      «Sou cristão desde que me conheço. Acredito na ressurreição de Jesus Cristo, como filho de Deus. O padrão moral da sua palavra, que está nos Evangelhos, guia-me nas minhas dificuldades. Apesar das vicissitudes, algumas deploráveis, da sua história, a Igreja Católica é o meu espaço de pertença à fé cristã. Por isso, me assumo como católico» («Eu, cristão e maçon», Ricardo Sá Fernandes, Público, 12.01.2012, p. 35).
      Parece um mação brasileiro a escrever. Por isso me assumo... Por isso, assumo-me...
[Texto 945]

Explicativo, explicado, muito explicado...

À Zuca Maluca

      Hoje em dia, os livros para crianças têm de falar de bruxas — ou não prestam. É a moda, ditadora. Mais um: «O príncipe, ao ouvir a bruxinha, soltou uma estrondosa gargalhada. Desatou a rir. Ria a bom rir por ver na sua frente uma bruxinha ruiva tão explicativa e desembaraçada» (Zás Trás Pás Zuca Maluca, Vera Roquette. Com ilustrações de João Moreno e revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 20).
      «Explicativa»? Explicativo é o que significa, o que esclarece, o que serve para explicar; elucidativo. Quase exclusivamente usado na oralidade, e mais noutras partes do País do que em Lisboa, há um termo que significa o que a autora queria neste passo dizer: explicado. «E bem-falante, muito explicada, respondona como a maior das malcriadas, sempre com a palavra do Cambronne na boca, pronta para desferi-la, como se estivesse no quadrado da guarda imperial, em Waterloo [...]» (Ao Entardecer, Contos Vários, Afonso de Escragnolle Taunay. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1901, p. 42 [com actualização ortográfica]).
[Texto 944]

Sobre «thriller»

Estremecedor

      Francisco Rebelo Gonçalves, na página 182 do Vocabulário da Língua Portuguesa, regista: «brídege, s. m. Aportg. do ingl. bridge.» O pior é nos casos em que não há aportuguesamento nem palavra portuguesa correspondente. É o caso de thriller. Ainda hoje me perguntaram como verter o vocábulo. «Tenho de traduzir, ou não, thriller (referido a livros).» Só lhe ocorria suspense — e quem é que traduz um termo estrangeiro com outro termo estrangeiro? — e «mistério», que não o entusiasmava. «Alguma sugestão?», perguntava.
[Texto 943]

Sobre «banto»

Não sejam cafres

      Já o tinha referido mais de uma vez, mas um argumento de autoridade tem mais força. Rebelo Gonçalves, na página 149 do Vocabulário da Língua Portuguesa, avisa: «banto, adj. e s. m. Inexacta a forma bantu.» «Bantos, etn. m. p. Inexacta a forma Bantus
[Texto 942]

Sobre «banditismo»

Basta pensar

      «Na operação, conduzida pela Secção Regional de Combate ao Terrorismo e Banditismo da PJ, foram detidos 11 homens e uma mulher e apreendidas quase 60 armas e “milhares de munições de diversos tipos e calibres e ainda diversas armas brancas”», lia-se recentemente no Público. Não é caso único, bem pelo contrário. De bandido esperava-se — bandidismo, pois claro. Rebelo Gonçalves, na página 148 do Vocabulário da Língua Portuguesa: «bandidismo, s. m. Forma preferível a banditismo (ital.).»

[Texto 941]

Tradução: «courtier»

Por aí

      Andava de terra em terra, nas tabernas, nas estalagens, nas quintas, a vender debulhadoras. Era, lê-se no original, courtier. «Mediador», verteu o tradutor. (E já antes, para outra personagem com a mesma profissão, traduzira por «corretor».) Intermediário não seria mais adequado? Ou mesmo, ocorre-me agora, angariador. (Quanto a «corretor». Edite Estrela, na obra Dúvidas do Falar Português, escreveu: «Das várias hipóteses surgidas, a mais credível parece-me a que remete para o latim curatorem, com influência do francês courtier.»)
[Texto 940]

Sobre «bazófia»

Être bouché à l’émeri

      A moçoila tinha vindo de um «bourgade cupide et bouchée à l’émeri». «Ganancioso e pitosga», verteu o tradutor... Mas não era sobre nada disto que eu queria escrever. No verbete «bazófia» (e não corrigi eu aqui, recentemente, alguém que escrevera «basófia»?), Rebelo Gonçalves, na página 156 do monumental Vocabulário da Língua Portuguesa, anota: «Em Camilo, Bruxa do Monte Córdova, cap. IV (p. 30 da 4.ª ed.), basofeia (com s em vez de z), 3.ª pess. sing.». Num vocabulário, estranhei. Desviando-me um pouco: «bazófia» vem mesmo do italiano bazzoffia, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou terá vindo antes do castelhano?
[Texto 939]

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