Ortografia: «biossegurança»

Um passo para trás

      «Os avanços no campo da biologia sintética justificam a criação de uma comissão de bio-segurança encarregada de controlo, supervisão e seguimento das actividades relacionadas com as biotecnologias emergentes. Esta é uma das conclusões do parecer de especialistas em bioética de Espanha e Portugal que se debruçaram sobre esta “nova biologia” em que o cientista arrisca na recriação de novos organismos, sintetizando e manipulando ADN» («Portugal e Espanha pedem comissão de bio-segurança», Andrea Cunha Freitas, Público, 8.11.2011, p. 11).
     Cuidava eu que estava completamente assente que os vocábulos com o prefixo bio- não levam hífen: biossatélite, biossegurança, biossíntese...
[Texto 644]

Como se escreve nos jornais

Respigado do Público de hoje

      «Quando Passos Coelho anunciou que a Cultura seria tutelada por si próprio, primeiro-ministro, delegando competências governativas a uma secretaria de Estado, argumentou com a transversalidade dos assuntos da cultura, alegou mecanismos acrescidos de eficácia e poupança de custos para benefício da Cultura, fazendo crer que uma secretaria de Estado, em vez de ministério, seria uma forma de favorecer a acção do Estado neste domínio e obter vantagens que um ministério autónomo não poderia oferecer» («Foi você que pediu uma Secretaria de Estado da Cultura?», Gabriela Canavilhas, Público, 7.11.2011, p. 31).
      E na capa da «P2»: «Cardeal Tettamanzi pede aos cristãos para que sujem as mãos».

[Texto 643]

Léxico: «moiral»

Ou maioral

      Cavaco evocou «figura lendária» (!), refere a imprensa. «Para esse moiral, que conduzia ao longo dos séculos os seus rebanhos para as terras altas, não havia fim-de-semana, não havia férias, não havia feriados, não havia tão-pouco pontes em nenhumas circunstâncias», disse o Presidente da República. O moiral das ovelhas, o moiral dos porcos, o moiral das mulas... Talvez por ser regionalismo, nem todos os dicionários o registam.
      «Quem vinha à frente das ovelhas era o pai do Albano, desse que aí anda agora a coxear co’o rèmático. Era o moiral do rebanho» (Crónicas da Serra, Irene Lisboa. Lisboa: Bertrand Editora, 1960, p. 74).

[Texto 642]

Faixa piritosa

Menos respeitinho

      O Governo prepara-se para lançar no mercado internacional três concessões para prospecção de minério na Faixa Piritosa, localizada na região Sul de Portugal, onde se concentram os mais importantes jazigos nacionais de minério de cobre, zinco, chumbo, mas também de ouro e prata. Este concurso, a lançar muito brevemente pela Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), é uma iniciativa inédita no país e é um exemplo da atitude proactiva do Governo face ao relançamento da exploração mineira em Portugal» («Portugal agarra-se à sua riqueza mineira e procura mais investidores», Luís Francisco e Rosa Soares, Público, 6.11.2011, p. 8).
      Vão lá ler, por exemplo, os boletins da Sociedade Geológica de Portugal: nada de letra grelada.

[Texto 641]

Milhões e biliões

1 000 000 000

      Disse-se na RTP, e escreveu-se em várias publicações, que o antigo presidente líbio Muammar Kadhafi tinha vários investimentos imobiliários de luxo no Reino Unido no valor de mais de — ora vejam — 1,1 milhões de euros. E citava-se o Sunday Times, em que se lê «Gadaffi’s £1bn properties». Os números... Esse valor, 1,1 milhões de euros, era o que os rebeldes davam (e deram?) pela cabeça de Kadhafi. A imprensa espanhola, por sua vez, noticiava que Kadhafi «tenía un imperio inmobiliario por valor de 1.000 millones de libras (unos 1.160 millones de euros)» (El Mundo).
[Texto 640]

«Enxugar/enxaguar»

Parecido

      «O electrodoméstico mais novo é o desumidificador (240W, dois anos de vida), o qual necessita de muitas horas diárias para conseguir enxaguar a humidade do ar de 80% para 79%» («Idade das coisas», Ricardo Garcia, «Pública»/Público, 6.11.2011, p. 55).
      Em ambos os casos está em causa água, sim senhor, ou pelo menos humidade: enxugar e enxaguar. Na oralidade, já tinha ouvido a confusão. Claro, o texto não foi revisto, mas a confusão é do jornalista.

[Texto 639]

Léxico: «bateia»

Cinco vezes

      «Manuel Ribeiro Gonçalves avança pelas pedras com a segurança de quem já as pisa sem ver. “Aqui não se apanha nada, se fosse lá mais abaixo...”, avisa, como que para arrefecer os ânimos. Mas não vale a pena ir mais para baixo, onde as margens do rio se tornam escarpadas e complicam o acesso à água. Serve mesmo aqui, mostre lá então como se faz. E ele mostra. Cava o areão, lava-o vigorosa mas meticulosamente na sua velha bateira. No meio do resíduo final, há alguns pontinhos que soltam lampejos amarelos à luz do sol. Ouro!» («O último garimpeiro da Foz do Cobrão», Luís Francisco, Público, 6.11.2011, p. 13).
      Talvez o jornalista ouvisse mal: para a gamela em que se lavam os minérios, nunca vi que lhe dessem outro nome que não bateia. Parecido, sim. Em castelhano é batea, de onde provém o nosso vocábulo. O jornalista descreve bem o objecto: «Agita suavemente a bateira, bacia côncava escavada numa peça única de um tronco de árvore, fazendo rodar o conteúdo em círculos que de vez em quando ganham balanço para se juntarem à corrente.» «Bateira», tanto quanto sei, é a designação dada a uma embarcação sem quilha.
[Texto 638]

Léxico: «hidroponia»

Ainda não viram

      «A 3 de Junho, um grupo de seis homens de várias nacionalidades entrou para um módulo subterrâneo, onde não entrava luz do Sol. Só consumiram comida de astronauta (com alguns alimentos frescos cultivados sem solo, através de técnicas de hidroponia, como tomates e rabanetes)» («Astronautas que simularam missão a Marte saíram da toca», Clara Barata, Público, 5.11.2011, p. 22).
      Temos de consultar um dicionário de espanhol, o DRAE, para saber o que é a hidroponia»: «Cultivo de plantas en soluciones acuosas, por lo general con algún soporte de arena, grava, etc.»
[Texto 637]

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