Tradução: «usher»

Muito medieval

      «She was being a bridesmaid and he an usher at a wedding there...» «Ela fora dama de honor e ele escudeiro num casamento que se realizara lá...» «Escudeiro» não me soa. «The role of the usher», leio aqui, «was traditionally given to a family member of the groom but in these modern times ushers have also been members of the brides family or close friends. To every 50 guests there should be an usher.» Não será mais adequado traduzir por «mestre-de-cerimónias»? Por outro lado, se dama de honor nos remete de imediato para casamento, também é verdade que começou por ser a dama que assistia, junto da rainha ou princesa, a certas solenidades e recepções da corte.
[Texto 370]

Pensilvânia Holandesa

Não sabem o que perdem

      Isto fez-me lembrar o que escrevi aqui sobre a Batalha de Waterloo (quanto à polémica de Camilo, ainda não reencontrei, e será difícil por enquanto, nada). A região de Lancaster, a 120 quilómetros de Filadélfia, é conhecida como Pensilvânia Holandesa pela grande concentração de residentes de ascendência alemã. Muitos pertencem à seita religiosa Amish, que evita usar a tecnologia moderna e todas as facilidades actuais. Logo, não deveria ser Pensilvânia Alemã? Mas não, não é.
[Texto 369]

Léxico: «vomição»

Eriça-se, brava

      Lia-se no original: «There were innumerable vomitings, more or less disastrous.» E agora, como traduzir «vomitings»? Como verteu o tradutor? Simples: «Houvera um número incalculável de vomições, mais ou menos desastrosas.» Mas é vocábulo quase remetido ao silêncio dos dicionários. «A terminologia científica eriça-se brava: “ex-abrupta vomição do seu hidropírico Antisana”, “campos em clorido diaphonorama”...» (Crônicas inéditas: 1930-1944, Manuel Bandeira. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 97).
[Texto 368]

Acordo Ortográfico

O vocalismo átono

      No Público, prossegue o debate em torno do Acordo Ortográfico de 1990. Do texto de Francisco Miguel Valada de hoje, extracto o que me parece mais relevante.
      «Lendo o texto de Jorge Miranda (escrito segundo o AO90), reparo que, relativamente às constituições americana e brasileira e para indicar os artigos correspondentes, utiliza o advérbio de modo “respetivamente”, sem C. Partindo do princípio de que o Diário da República a partir de 1.1.2012 utilizará esta grafia, convido Jorge Miranda a ler atentamente o Diário Oficial da União (o homólogo brasileiro do DR) e a verificar que “respectivamente”, com C, é a forma usada. A partir de 1.12.2012, teremos “respetivamente” no DR e “respectivamente” no DOU. Actualmente, temos “respectivamente” em ambos. A divergência entre grafias é criada pelo instrumento que Jorge Miranda imagina como a concretização de “ortografia com um mínimo de diferenças”.
      Espero que Jorge Miranda se tenha dado conta da simultaneidade da discrepância criada pelo AO90. Seria desnecessário repetir, mas por vezes é necessário: esta discrepância não existia antes do AO90. Além de “respectivamente” e “respetivamente”, temos também “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil, “aspeto” em Portugal e “aspecto” no Brasil, “conceção” em Portugal e “concepção” no Brasil. Reparará que, actualmente e em ambas as costas atlânticas, se escreve “recepção”, “concepção”, “respectivamente” e “aspecto”. Estas divergências gráficas (fiquemo-nos por este aspecto e nem entremos no carácter irrestrito do conceito “facultatividade”) são criadas pelo AO90.
      Seguindo o raciocínio de Jorge Miranda, verifica-se que a aplicação do AO90 nos dois jornais oficiais conduzirá à situação contrária da por si defendida. Algo de errado se passa no raciocínio? Não. Algo de errado se passa no AO90. Entre a realidade das duplas grafias criadas pelo AO90 e o desiderato de Jorge Miranda “uma ortografia com um mínimo de diferenças revela-se indispensável” o fosso é enorme. Este fosso leva-me a partir do princípio de que a função de papel para forrar gavetas dos pareceres científicos solicitados pelo poder político foi devidamente cumprida: não foram lidos.
      Pergunta Jorge Miranda: “Por que razão havia de ser o português europeu a determinar a língua escrita em confronto com o português do Brasil, usado por quase 200 milhões de pessoas?”. O português europeu não deve determinar a forma escrita de qualquer outra das normas, nem qualquer dessas normas deve determinar a norma escrita do português europeu. Isto, em termos programáticos. Agora, quanto ao resto, no que diz respeito ao português europeu, já aqui se referiu o processo do vocalismo átono, factor importante e diferenciador de realidades da língua portuguesa.
      Para que Jorge Miranda perceba o que é o processo do vocalismo átono, convido-o a fazer como na Idade Média: em vez de ler silenciosamente este texto, leia-o em voz alta e verifique que as sílabas na sua maioria são átonas e que, dessas átonas, praticamente todas são reduzidas. Praticamente. Porque há excepções que podem ser marcadas por, imagine-se só, uma consoante não pronunciada. Como esta palavra que acabo de escrever: “excepções”. A palavra “excepções” constitui uma excepção à regra, tal como a palavra excepção. Parece complicado, mas não é. Agora, se Jorge Miranda convidar um falante de português do Brasil a ler este texto em voz alta, descobrirá um admirável mundo novo. E descobrirá o porquê de “exceção” no Brasil e de “excepção” em Portugal.
      Após nove anos de itinerância pela Europa institucional, confesso não ter percebido como é que através do AO90 se poderá “afirmar o português, o português internacional, na União Europeia”, como refere Jorge Miranda. Através da introdução de “aspetos” e “conceções” que eram “aspectos” e “concepções” em Portugal e no Brasil e que agora só são “aspectos” e “concepções” no Brasil? Confesso que não percebo e admito que gostaria imenso de perceber» («Aspectos & aspetos: a simultaneidade da discrepância», Francisco Miguel Valada, Público, 2.08.2011, p. 28).

[Texto 367]

Tradução: «test drive»

Fica a demonstração

      Sobre low cost já estamos conversados. Agora em relação a test drive, o que podemos fazer? Vejam esta frase: «It was a demonstrator, and would be driven by ***, the Cadillac distributor.» O tradutor verteu assim: «Era um carro que se usava para fazer demonstrações, e devia ser conduzido por ***, o agente da Cadillac.» Isto, porém, foi há cinco décadas, agora não resistiram a traduzir com recurso a... test drive! Fica a proposta: traduzir test drive por «demonstração». O contexto quase sempre guia o leitor para o sentido.
[Texto 366]

«Bem», adjectivo invariável

O desgosto do vilegiaturista

      Agora que Montexto está em vilegiatura, aproveitemos para falar desta questão. Lê-se no original: «Pretty soon there would be a whole colony of Jews in the neighborhood, and the *** children and all the other nice children in the neighborhood would grow up with Jewish accents.» A tradução, que data de 1963, diz o seguinte: «Muito em breve haveria, na vizinhança, uma autêntica colónia de judeus, e os filhos dos *** e as demais crianças bem adquiririam o acento semita.»
      Esta acepção do adjectivo invariável «bem» («criança bem»/crianças bem») ainda não estaria, certamente, registada no início da década de 1960, mas ei-la a ser usada numa tradução literária. «Bem»: conveniente; socialmente irrepreensível. Espero que a famigerada 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe a acepção.
[Texto 365]

Pronome de tratamento

Oh, Senhor!

      O Frente-a-Frente de terça-feira passada, entre o senhor Alfredo Barroso e a senhora Teresa Caeiro, na SIC Notícias, aqueceu, tudo porque estes senhores se ofendem se alguém os trata por senhor. Oh, Senhor! «Eu não fui indelicado. A senhora já foi indelicada comigo. Já me começou a tratar por senhor Alfredo» (Jornal das 9, SIC Notícias, 28.07.2011). Estas altas personagens ficam ofendidas com um pronome de tratamento que indica delicadeza!
[Texto 364]

 

Linguagem

Assim fala Passos Coelho

      «Por momentos, ontem, o Parlamento entrou num pronto-a-vestir, pela voz do cantor de fado, como em tempos lhe chamou a revista brasileira Veja. “Fiquei satisfeito de saber que a Europa se estava a vestir de mecanismos mais eficientes contra o risco sistémico.” Os deputados entreolharam-se a pensar que estranha marca de vestuário seria aquela, mas logo tiveram uma possível resposta. É roupa preparada para o Outono/Inverno: “Hoje, a Europa está em condições de se resguardar melhor”, explicou Passos Coelho. As metáforas com roupa atraem o primeiro-ministro. Antes de o ser, em Março, já dizia que “se fosse primeiro-ministro, não estávamos hoje com as calças na mão, a impor mais um plano de austeridade porque o Estado não cortou onde era necessário”. O imposto extraordinário é outro retalho, está visto» («O pronto-a-vestir da Europa para não ficar de calças na mão», Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 13).

[Texto 363]

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