Sobre «optimismo»

Deixem-nos trabalhar

      Numa introspecção breve, vejo, com algum alarme, que uma mudança fundamental se operou em mim nos últimos tempos. Operou, digo bem. Antes era pessimista e, para disfarçar, porque talvez me desagradasse, negava e dizia que era realista; agora, sou um optimista despreocupado. O que ouvi hoje no programa Pessoal... e Transmissível, na TSF, descansou-me. Carlos Vaz Marques entrevistou o psiquiatra e escritor argentino Jorge Bucay, que se afirmou um optimista incurável e lembrou que o vocábulo «optimismo» está ligado ao termo latino opus, «obra», «trabalho». De facto, provém da raiz latina op, a mesma de opus, que é partilhada por palavras como «opulento», «opíparo», «óptimo» e «optimismo». Moral da história: é preciso é trabalhar.
[Texto 290]

«Acampada»

«Acampada», arruada...

      «“Este é um encontro de pessoas que estão mais indignadas do que nunca”, disse Paulo Cardoso, do Inter-nacional, um dos grupos nascidos na “acampada” do Rossio e que agora lançou o convite a outros colectivos para um debate além-fronteiras, inédito em Portugal e que ontem foi transmitido para várias praças europeias através da Internet» («‘Indignação’ europeia esteve sediada em Lisboa», Ana Fonseca Pereira, Público, 11.07.2011, p. 16).
      Nos jornais ainda temos o asseio das aspas (embora, no caso particular do Público, o mau uso e a banalização deste sinal gráfico tenha levado ao esvaziamento do seu significado), mas na rádio nem isso temos. Nas últimas semanas, tem sido raro o dia em que não ouço nos noticiários da Antena 1 alguém usar a palavra. Mais um castelhanismo: «acción y efecto de acampar».
[Texto 289]

Como se escreve nos jornais

Só dois

      Na edição de ontem do Público, Nuno Pacheco lembrou a morte de um fotojornalista, Joaquim Lobo, e de um jornalista, António Jorge Branco. Em relação a este, escreve: «E lá trocávamos ideias, impressões, histórias maiores e menores (odiava as gralhas dos jornais, assim como o mau uso do português, de que era um dedicado conhecedor)» («O adeus a um mestre», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 11.07.2011, p. 3).
Devia então odiar o Público actual. (E outros jornais, claro, mas com o mal dos outros, etc.) Respigo só dois erros — erros, não gralhas — da edição de ontem, e da mesma notícia.
      «“Não basta um copo para se ficar doente”, alerta [Helena Rebelo, coordenadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge], notando ainda que os organismos não reagem da mesma forma e que crianças ou pessoas com doenças pré-existentes e com o sistema imunitário mais vulnerável podem estar propensas a complicações. A “contaminação microbiológica de origem fecal”, que foi encontrada em 87,8 por cento das análises afectadas [sic], incluindo a presença da agora famosa bactéria Escherichia coli, tem como complicação mais comum a gastreenterite, com sintomas como febre, diarreia e vómitos» («“Maioria dos fontanários do país não possui água própria para consumo”, diz estudo», Catarina Gomes, Público, 11.07.2011, p. 6).
      Preexistente. Já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir. Não vale a pena inventar. «Gastreenterite» é confusão que advém de o termo ter duas variantes: gastrenterite e gastroenterite.
[Texto 288]

Léxico: «arraiar»

Nada de emitir raios de luz

      Fala Francisco Araújo, o antigo mecânico do ciclista Joaquim Agostinho: «Agora os mecânicos quase não têm de fazer nada na bicicleta, o material já vem todo preparado. Nós é que tínhamos de montar as bicicletas, de arraiar as rodas, fazer o conserto de quadros» («O passado e o presente, segundo o mecânico de Agostinho», Ana Marques Gonçalves, Público, 11.07.2011, p. 26).
      Os dicionários que consultei remetem todos para «raiar», e neste verbete não registam a acepção empregada no excerto citado.
[Texto 287]

Léxico: «pipolização»

Ah...

      Quase todos os dias sou surpreendido por neologismos — alguns, concluo depois, já com alguns anos de curso... Não se riam. Já conhecem o vocábulo «pipolização», por exemplo? Cá está. Há leitores, bem sei, que não conhecem nem querem conhecer, mas nós é que não podemos ter essa atitude assim tão descomprometida e alheada. É mera cópia, parece, do neologismo francês pipolization — que é a idolatria de celebridades ligadas à televisão, à música, ao futebol e mesmo à política, termo forjado a partir do nome da revista People.
[Texto 286]

Inglês



Vejam melhor

      A propósito do erro na grafia de «maldisposto», comentava aqui Montexto: «Mas veja lá se os apanha com facilidade em falta na grafia das inúmeras palavras e expressões inglesas com que julgam enfeitar a sua prosa a propósito de tudo e de nada. Veja lá.» Bem, descortino, pelo menos, duas razões para isso não acontecer: eles escrevem, apesar de tudo, menos em inglês do que em português, e eu percebo menos de inglês do que de português. Ainda assim, alguns erros se vão vendo. Por exemplo, acabo agora mesmo de ler aqui num texto, do qual não posso identificar o autor, *Finantial Times, erro muito frequente.

[Texto 285]

Tradução

Um achado, acho

      Encontrar a correspondência adequada de frases feitas, provérbios e idiomatismos entre duas línguas nem sempre é fácil ou possível. Acabo agora de ler esta frase numa obra em inglês: «They’ll put two and two together and get five.» O tradutor, que ainda não sei quem é, e logo que saiba prestar-lhe-ei aqui a devida homenagem, verteu assim: «São capazes de dizer que Deus não é Deus...»
[Texto 284]

Ortografia: «maldisposto»

Nem a copiar, caramba

      «O dicionário de Inglês-Português reza assim: “Taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal-disposto, sorumbático.” Enfim, mal-humorado. Diz também que é um adjectivo. A expressão inglesa “to be moody” vem descodificada como “ter caprichos de comportamento. Por exemplo, apetecer a alguém atirar com tudo para o lixo. Se falarmos no nome próprio Moody’s (bastante adequado ao desempenho), percebe-se imediatamente a má disposição generalizada dos portugueses por estes dias. Alguns até padeceram de problema de estômago. Para “mal-humorado”, o dicionário de Português-Português regista as seguintes explicações: “Que tem humores mórbidos”, “agressivo”, “intratável”. Os “mal-dispostos” de que aqui se fala já em Abril tinham atirado para o “lixo” (grau de investimento equivalente a junk bonds) a Parpública, a Refer, a RTP e a CP» («Palavras. Moody», Rita Pimenta, Pública, 10.07.2011, p. 11).
      Que bons dicionários que a jornalista anda a consultar e que bem que ela conhece a ortografia da língua portuguesa.
      A propósito de maldispor e de dislates. Ainda na sexta-feira passada li uma convocatória redigida por uma professora de Português e um derivado de «pôr» tinha o infinitivo com acento circunflexo. Uma professora de Português! Quando é que aprendem de uma vez por todas, professores, jornalistas, tradutores, revisores, toda a agente, que, no infinitivo, o verbo pôr é acentuado, porque se convencionou distingui-lo da preposição por, mas os derivados de pôr já não são marcados com acento? Antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, maldispor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.
[Texto 283]

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