Anglicismo

Estamos apresentados

      «O termo “cicerone”, enquanto guia, virá de este introduzir ao mundo latino o pensamento dos Gregos e ainda também pelo facto de no fim da vida Cícero ter escrito uma série de obras sobre eloquência e a arte da oratória, livros esses que serviram de autênticos guias para os políticos da Roma antiga» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 12.04.2011).
      «Introduzir ao mundo», cara Mafalda Lopes da Costa? Está mesmo a ver-se que em português decente é impossível expressar a mesma ideia do anglicismo semântico.
      A propósito de anglicismo: hoje o revisor antibrasileiro telefonou-me porque queria saber se há forma de evitar o anglicismo «não governamental». Hã?! Como disse? «A expressão mostra a confusão que vai nessas cabecinhas entre Estado e governo.» Sabiam disto?   

[Post 4681]


URL e ponto final

De Nuiorca a Bosta

      Lembram-se de ter aqui perguntado porque é que Miguel Esteves Cardoso, à semelhança de muitos outros, não tinha posto ponto final depois de um URL que encerrava frase? Pois bem, homem inteligente, agora já sabe, e na crónica de hoje, quase toda à volta da proverbial ineptidão dos Espanhóis para as línguas estrangeiras, pode ler-se isto: «A prova que1 não há em Espanha quem leia a Nuiorca2 é que hoje, segunda, sete dias depois, o site da Rail Europe ainda não corrigiu a indesejada alusão ao Santo Ofício. É provável que nem sequer leia o PÚBLICO e que hoje até possa apanhar a espectacularmente insensível tradução aqui: http://bit.ly/ihj6X9.» («Um pouco de Inquisição», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.04.2010, p. 35). Leio o Público em PDF, e facilmente segui a hiperligação. Mas ainda na semana passada, numas provas, o paginador, em relação à minha emenda para que se pusesse o ponto final numa frase que acabava com um URL, deixou a nota marginal peremptória3: «Não funciona.» Não funciona? Em papel?


[Post 4680]

      1 Mas não se exige aqui a preposição? «O primeiro foral de Melgaço de 1181 mostra-nos evidentemente que era concedido a uma povoação de jugadeiros, e, posto que o de 1258 pertença ao typo de Salamanca, a prova de que a villa ficou sendo um gremio de peões está nas disposições que o restringem ou modificam» (História de Portugal, tomo quarto, Alexandre Herculano. Lisboa: em casa da viúva Bertrand e Filhos, 1853, p. 168).

      2 Suponho que Miguel Esteves Cardoso esteja aqui a usar o nome aportuguesado de New York (que faz parte do título da publicação) no discurso do emigrante nos EUA, como se lê na obra de Eduardo Mayone Dias Falares Emigreses: Uma Abordagem ao Seu Estudo (Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989, p. 61). New York é Nuiorca; Providence é Providência; Newark é Nuarca; Boston é Bosta; Rhode Island é Roda Além; Pawtucket é Pataca...

      3 Que, na nova ortografia, será «perentória». A propósito, ainda hoje recebi uma mensagem de correio electrónico, que circula sobretudo entre professores, em que se dizia que está a decorrer uma iniciativa legislativa de cidadãos para impedir que o Acordo Ortográfico de 1990 seja aplicado. Ei-la aqui.

Ortografia: «subamostra»

Estes dicionários

      Eis aqui a explicação para o sôtor, reputadíssimo1 especialista em sondagens, escrever «sub-amostra». No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, escrevemos a palavra e a máquina acha que queremos escrever ou «subam ostra» ou «suba mostra». Diacho, não é nada disso! O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista o vocábulo. Registam ambos «subabdominal», por exemplo, e por analogia chegava-se à grafia correcta. O problema é que o falante médio não é muito bom em analogias, pensa pouco e mal. E agora digam-me cá: acham natural que os dicionários acolham, por exemplo, «subaéreo» (para não falar de «subalado»!) e não registem «subamostra»? Qual será mais usada?


[Post 4679]

1 O meu professor de Latim, padre, Deus lhe fale na alma, é que costumava contar o que ele tinha por pilhéria: «Eram duas senhoras muito, mas muito reputadas: eram reputíssimas...»



«Portas travessas»

É o que se diz

      «Portas travessas e por portas e travessas. “Fazer algo por portas travessas” significa fazer as coisas de forma pouco clara, às escondidas, socorrendo-se de esquemas, subterfúgios ou ainda fugindo à lei. Apesar de a expressão correcta ser “por portas travessas”, com o tempo, a frase tem vindo a ser modificada, e hoje é comum ouvir-se dizer “por portas e travessas”. O problema é que com esta alteração perde-se o sentido original da expressão, já que esta nada tem a ver com portas ou travessas enquanto vielas, ruas estreitas, mas sim com as portas travessas, ou seja, com as portas secundárias, laterais de uma casa, as chamadas portas de serviço, as entradas não principais» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 11.04.2011).
      Será mesmo assim? Hum... É o que se diz por aí, mas... Consultamos, por exemplo, o verbete do adjectivo «travesso» no Dicionário Houaiss e a primeira acepção é, como seria de esperar, «disposto transversalmente; atravessado». A segunda acepção é «disposto ao lado, em direcção paralela ou quase; lateral, colateral». A terceira e última acepção (estou a consultar a versão electrónica) é «situado defronte a; fronteiro, oposto». Ora, será mais crível que porta travessa designa uma porta das traseiras de uma casa, por ser, justamente, mais oculta, mais discreta. E porta traseira era o nome que antigamente se dava à porta falsa em certas casas, e que ficava por detrás da casa — e não ao lado. E mais: bacorejando-lhe baixeza, o P. António Vieira usou, em vez de “porta traseira”, “porta travessa”. Fica o palpite.

[Post 4678]


Sobre «pedofilia»

Tome um lenço, vá

      Por vezes, ouço o Jogo da Língua, na Antena 1, ultimamente com a participação de Sandra Duarte Tavares, professora de Língua Portuguesa no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC) e consultora do Ciberdúvidas. Dirigido ao ouvinte comum, com escassos conhecimentos linguísticos, umas vezes com erros, quase sempre com inanidades, o programinha lá vai dando a conhecer um pouco melhor a língua. A emissão de hoje era sobre o elemento de composição filo-. «Vou falar só… vou terminar, fazer um remate com uma palavra que eu detesto, e que possivelmente a maiori… toda a gente detesta, que é o substantivo “pedofilia” ou “pedófilo”, são ambos substantivos, e que o seu… cujo significado original era “amigo da criança”. [...] Convém esclarecer também, acerca desta palavra, que nós não gostamos.»
      Tanta emoção e tanta confusão... Pois eu gosto das palavras «pedofilia» e «pedófilo», são eruditismos que honram a matriz da língua.

[Post 4677]

«Para além de»

Também tu

      «Acontece que a assinatura Kindle do FT, para além de não ter contrapartida impressa, em papel cor-de-rosa e bem ilustrado, só nos deixa as últimas sete edições no disco. Depois, somem. As edições do FT são-nos emprestadas. Podemos guardá-las, se quisermos, mas dá trabalho. É como assinar um jornal e entregar-lhes a chave de casa para virem buscar os exemplares antigos. Poupa árvores e reconhece que a inércia da papelada é um vício que nos prejudica mais do que nos dá prazer» («Como assinar?», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.04.2010, p. 31).
      Nem Miguel Esteves Cardoso evita estas perluxidades na escrita. Caro Miguel, alivie-se do para, basta escrever além de. «Acontece que a assinatura Kindle do FT, além de não ter contrapartida impressa, etc.»


[Post 4676]



«Enformar/informar»

Dar forma a

      «É evidente que dentro de um critério estritamente formal é isto um pecado contra a economia que deve enformar qualquer sequência narrativa e a fluência do plano que esta pressupõe» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme de Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 234). «Ferrerinha, primeira vinicultora do Alto Douro, dera o nome à firma, e assim se chamava desde longe e se chama ainda. A designação, pelo feminino, participava ao tempo do espírito que enformava as coisas inglesas sob o signo da rainha Vitória» (O Romance de Camilo, II, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 271).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, enformar é «dar forma a» — e só se pode, nesta acepção, escrever assim, ficando o parónimo informar reservado para outras acepções. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esta acepção é partilhada por ambos os verbos, ou seja, «dar forma a» é indiferentemente «informar» e «enformar». Nesta acepção, sempre usei somente o verbo «enformar». E os meus leitores?

[Post 4675]



«Considerar como»

E em Camilo?

      «A humanidade, que toma cada dia consciência da unidade dos valores humanos, considera-os como um património comum e, face às gerações futuras, reconhece-se solidariamente responsável pela sua salvaguarda.» É um excerto da Carta Internacional sobre a Conservação e o Restauro dos Monumentos e dos Sítios, de 1964.
      Intuitivamente, omitiria a partícula «como». Consultemos, agora que está tão à mão, a Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Augusto da Silva Dias. (Actualizarei sempre a ortografia.) «Imitando a sintaxe francesa, o português moderno constrói frequentemente o verbo considerar com a partícula como:
      o numeroso clero das paróquias vizinhas considerava-o como o mais venerável entre os seus irmãos no sacerdócio (Herc. Eurico, 18)» (p. 38). 
      Estará legitimado e explicado, mas pergunto-me se Camilo também usou a partícula nesta construção.

[Post 4674]

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