Sobre/sob

Sobre erros


      Nunca li um relatório escrito por um detective privado. Na verdade, só uma vez, a pedido de um amigo, falei com um detective. E a impressão não foi a melhor. Hoje, um amigo pediu-me que o ajudasse a escolher um detective que lhe tratasse de um caso. Recorri a conhecimentos e à Internet. No sítio do detective Correia, que se diz fundador da Associação Nacional de Detectives Privados (ANDEPIP), lê-se que faz o «levantamento de bens penhoráveis e sobre hipoteca». Vendo bem, é melhor nunca ler nenhum relatório escrito por um detective.

[Post 3155]

Léxico: «cenarização»

Coisas dos políticos


      «“José Sócrates tem todas as condições internas e plena legitimidade eleitoral para exercer as funções que exerce. Não se justifica, por isso, essa cenarização.” Confrontado pelo i com a possibilidade de substituir José Sócrates no governo e no partido, António Costa, o número dois do PS, exclui-a liminarmente» («Se Sócrates se demitir, António Costa aponta para Teixeira dos Santos e Gama», Ana Sá Lopes, i, 13.2.210, p. 22).
      Os dicionários não registam a palavra cenarização, mas ela faz falta — pelo menos a quem vive de construir cenários, os conjuntos de elementos visuais que compõem o espaço onde se apresenta um espectáculo teatral, cinematográfico, televisivo, etc., não, como se diz em sentido figurado (e que talvez apenas o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe), os desenvolvimentos programados ou previstos de uma acção.

[Post 3154]

Sobre «arrasto»

Jamais

      Acho que só se fosse pescador, e certo tipo de pescador, é que usaria a palavra arrasto. Este derivado regressivo do verbo arrastar soa-me mal. Mas já vi que alguns políticos o usam, alguns até na escrita: «Por arrasto, a TTT (Terceira Travessia do Tejo) em ferrovia […]» (Mudar, Pedro Passos Coelho. Lisboa: Quetzal, 2010, revisão de Pedro Ernesto Ferreira, p. 164). A locução por arrasto, que o Dicionário Houaiss (ó vergonha!) não regista, significa como consequência.

[Post 3153]

Actualização em 9.4.2010

      De vez em quando, aparece: «A Skoda fez um “restyling” de um dos seus modelos mais carismáticos, o Fabia. Por arrasto, o Roomster recebeu igualmente a nova assinatura do fabricante checo estreada com o topo de gama Superb» («Skoda. Fabia e Roomster melhoram visual», Paulo Moutinho, Jornal de Negócios, 9.4.2010, p. 26).


Colocação pronominal

 Língua de estalo


      Na emissão de hoje do programa Antena Aberta, o fórum da Antena 1, um participante, engenheiro civil, dizia: «Deixa está-lo, porque ele rouba mas faz alguma coisa.» Teoricamente, nas locuções verbais de auxiliar + infinitivo, as possibilidades de colocação dos pronomes átonos não excluem a ênclise ao verbo principal. Contudo, por razões de eufonia, será melhor, pelo menos neste caso concreto, escrever e dizer: «Deixa-o estar.»


[Post 3152]

Escola primária

Vamos ver


      Irão passar-se anos até deixar de se dizer (se é que não se retoma, no futuro, a designação) escola primária. Na edição do último fim-de-semana do i, lia-se numa legenda da reportagem de Kátia Catulo sobre a alimentação nas escolas: «Miguel Rocha, 6 anos, Escola Primária de Gervide, Gaia» («Problema está em casa. Os papás têm de comer a sopa até ao fim», p. 34).

[Post 3151]

«Catequese» e «escola dominical» II

Já vi


      Vai fazer um ano quando aqui escrevi que nas traduções nunca vira a locução Sunday School traduzida de outra forma que não «catequese», assim como Sunday school teacher por «catequista». Bem, isso mudou: agora já vi, e o tradutor é reputadíssimo. Elas «were Presbyterians and went to Sunday School» foi vertido para «eram presbiterianas e iam à escola dominical». O objectivo é preservar a diferenciação em português, pois a catequese é habitualmente conhecida nos países anglo-saxónicos como Catechism class.

[Post 3150]

«Advanced level (A-level)»

E neste caso?


      A propósito do ensino britânico, estou a ler o livro Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, de Jeff Dyer (Porto: Civilização Editora, 2010, tradução de Maria João Andrade), e, na página 16, leio uma nota de rodapé que diz: «Advanced level (A-level), instaurado em 1951, é o nome de um grupo de graus académicos por que passam as estudantes da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte no final do ensino Secundário. (N. da R.)» Tal como no caso da junior school (sim, Francisco, também acho que escola primária é a melhor tradução), também aqui a correspondência não é perfeita. Contudo, acho discutível a explicação desta nota de rodapé (e nem me refiro, naturalmente, ao facto de nela se afirmar que são as estudantes que «passam» pelos graus académicos). Tratar-se-á mesmo de graus académicos?

[Post 3149]

Tradução: «junior school»

Como deve ser?


      Trata-se de saber como traduzir a locução inglesa junior school. A história é ambientada na Escócia da década de 1930. O tradutor optou por escola elementar. Já tenho visto traduzido por escola preparatória. Alguém sugere agora escola básica. Duas objecções em relação a esta última: na correspondência histórica, no Reino Unido havia junior schools e em Portugal, escolas primárias. Segunda: a escola básica integra três ciclos, e a antiga escola primária corresponde agora apenas ao primeiro ciclo.
      Só como curiosidade: vejo que agora no Reino Unido há primary schools. «As escolas inglesas enfrentam a maior entrada de crianças na escola primária da última década. A culpa é da crise e do baby boom de há 5, 6 anos. As escolas públicas enfrentam agora o desafio de criar mais turmas para fazer face à entrada dos novos alunos. Apesar das medidas de alargamento do número de turmas, o jornal Guardian avança que as escolas podem não conseguir dar resposta. Além do baby boom, a procura pelas escolas públicas explica-se pela crise que levou muitos pais a desistir dos colégios privados e a optar pelo ensino público. A escola de Kingston, por exemplo está a preparar para o próximo ano lectivo mais 4 turmas novas, um crescimento na ordem dos 28% em apenas dois anos» («Baby boom e crise enchem escolas primárias na Inglaterra», i, 25.1.2010).
      Como podem ver, a hiperligação é para um texto do Guardian com o título «State primary schools face biggest influx of pupils in a decade».

[Post 3148]

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