Mudar de nome

Foto do jornal A Bola

Onomástica


      É o jornal Destak de hoje que o garante: Abel Xavier, antigo internacional português, «converteu-se ao islamismo, recebendo como novo nome Faissal» («Abel Xavier adopta nome islâmico de Faissal», Destak, 25.1.2010, p. 8). Já para A Bola, o jogador foi «baptizado com o nome muçulmano Faisal». Em primeiro lugar, os jornalistas ainda não sabem distinguir islâmico de muçulmano. Em segundo lugar, é irrelevante, face à lei portuguesa, que o jogador «mude» de nome.
      Nos controlos alfandegários, o que conta é o documento de identidade em que surja o nome Abel Luís da Silva Costa Xavier. Se renunciar à nacionalidade portuguesa, e para isso tem de ter outra nacionalidade (art. 8.º da Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro), não sei como será, mas, se acaso pudesse mudar de nome, e não pode, seria mais provável que a grafia do nome fosse Faiçal (e nenhum, Faisal, Faissal e Faiçal, consta da lista de nomes admitidos). É como o futebolista afirma: «Estamos a falar de uma situação a nível interior.»

[Post 3063]

Grafia dos prosónimos II

Leiam o que escrevem


      «Em 1831 o autor francês Alexis de Tocqueville escreveu um famosíssimo livro sobre a América: Da Democracia na América. De visita ao novo mundo, foi ele o primeiro a registar as pulsões particulares que comandavam os americanos» («A América e a Europa», Pedro Lomba, Público, 25.1.2010, p. 32).
      Pois é, mas o próprio Livro de Estilo do Público, na secção relativa ao uso de maiúsculas e minúsculas, no ponto 5, recomenda e bem que se empregue a maiúscula inicial nos «nomes geográficos: Alto Alentejo, Ásia Menor, Extremo Oriente, Brasil, Novo Mundo, Outra Banda, Pirenéus». Já não sabem as regras que se impuseram? Quanto ao cronista, não lhe ficava mal aprender.

[Post 3062]

Léxico: «novilíngua»

Meia aula


      «“Todos os anos, dedico meia aula no curso de ciências da comunicação ao livro [1984], sobretudo por causa da ‘novilíngua’”, conta [Miguel Morgado, professor na Universidade Católica, em Lisboa], ao i. “O impacto que tem nos estudantes é incrível”» («Orwell 60 anos depois. O Big Brother continua de olho em todos nós», Bruno Faria Lopes, i, 21.1.2010, p. 38).
      O termo novilíngua não precisa de estar entre aspas, apesar de não estar (nem, porventura, dever estar) dicionarizado e ser usado com grande frequência. Terá sido o primeiro tradutor da obra para português a optar, perante o vocábulo newspeak (que, na obra, era uma das formas de o Partido controlar e limitar o pensamento humano), forjado por George Orwell, pelo neologismo novilíngua.

[Post 3061]

«Melhor»: advérbio ou adjectivo?

E agora?


      Boa questão, cara Luísa Pinto: ainda recentemente li uma frase semelhante no Público: «O que nós deveríamos fazer era usá-los para tirar partido do efeito placebo. É que o efeito placebo existe. Os doentes sentem-se mesmo melhores. E é isso que interessa» («Operação dos teatros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.12.2009, p. 31).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, melhor, na acepção de menos doente, é um adjectivo uniforme (não admite contraste de género). Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está correcta. Para o Dicionário Houaiss, porém, melhor, na acepção de mais bem; em condições físicas e/ou psicológicas mais saudáveis, é advérbio. Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está incorrecta.

[Post 3060]

Adjectivos relacionais

Mas não


      Já tenho lido e ouvido que os adjectivos qualificam o nome. Ora, essa é uma afirmação incorrecta. Se há adjectivos que qualificam — «afirmações estúpidas» —, também há os que estabelecem com o nome uma relação muito diferente. E se há falantes que não sabem quando podem antepor um adjectivo qualificativo ao nome, também há os que julgam, e são jornalistas, poder usar adjectivos relacionais discricionariamente. Eis um exemplo lido no jornal i: «A agenda democrata complica-se, mas a reforma sanitária ainda respira», título de um artigo assinado por Enrique Pinto-Coelho (21.1.2010, p. 33).

[Post 3059]

Opções linguísticas

É esse o objectivo?


      «Como corolário, a verdade é que a Finlândia foi considerada pelo Worl [sic] Economic Forum, em 2003, 2004 e 2005, a economia mais competitiva do mundo» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 98).
      Porque havemos de escrever — mesmo que bem — World Economic Forum se podemos escrever, e toda a gente perceberá, Fórum Económico Mundial? Ou escrevemos para poucos entenderem? Outro mundo é possível.

[Post 3058]

Revisão

Vão mas é trabalhar

      «Aliás, o índice a longo prazo estabelecido pela consultora Ernst & Young para a generalidade dos países considerados confere grande importância, comparativa, ao investimento na energia eólica (85%) e, menos, ao investimento na energia solar (5%) e noutras energias renováveis (10%)» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 88).
      Os nomes das empresas, se estrangeiras, grafam-se em itálico, é isso? Parece-se que sim: «No mesmo mês em que um estudo do Deutsche Bank previa que o nível de vida espanhol alcance o alemão em 2008, o Governo de José Luís Zapatero assinava — na presença dos secretários-gerais das duas centrais sindicais, a CCOO e a UGT e dos residentes das confederações empregadoras CEOE e CEPYME — um histórico acordo laboral e anunciava a reforma do sistema público de Segurança Social» (idem, ibidem, p. 102). Umas páginas à frente, porém, a regra muda: «E, curiosamente, a semana passada a Bloomberg, citando o South China Morning Post anunciava que o Grupo Santander, o BBVA, a General Electric Capital, entre outros, manifestam interesse em participar no capital do banco chinês China Citic Bank» (idem, ibidem, p. 135). Mais exemplos: «Não obstante, ao longo de 2006 muitas empresas internacionais procuraram Portugal como destino de investimento: Ikea, Repsol, Abertis, Advansa, Netjet e os grupos turísticos Aman Resorts, Starwood e Hilton» (idem, ibidem, p. 170).
      Alguém podia alegar a génese, a origem da obra, para explicar estas incongruências, mas esse seria um argumento supinamente desonesto. A obra reúne cem artigos de opinião publicados pela autora no Jornal de Negócios e no Expresso. Para efeitos de publicação em livro, porém, devia ser, para a editora, como se tivesse saído da gaveta ou do disco rígido da autora. O trabalho de harmonização, de uniformização tem sempre de ser feito. E feito por quem sabe, não pelo sobrinho por ser sobrinho ou por curiosos porque estão desempregados.

[Post 3057]

Léxico: «monossémico»

Univocação


      Se os dicionários registam polissemia e polissémico, não deveriam registar monossémico, já que registam monossemia? Na verdade, o Dicionário Houaiss não regista (!) nem monossemia nem monossémico, o que não deixa de surpreender num dicionário como este. (Caro Paulo Araujo, por favor, trate do caso.)
      Há vocábulos monossémicos, isto é, que têm uma única significação, e a designação é usada em algumas gramáticas. No domínio da ciência e da técnica, por exemplo, há — e é uma garantia da necessária univocidade — muitos termos monossémicos.

[Post 3056]

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