Maiúscula inicial

Maiusculiza-me, por favor!

      «Small convidou-a a voltar a entrar e falaram acerca da condução, mas apenas durante um minuto, porque Sharon se mostrou irredutível e petulante, para além de ter a sanção do estado» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 38). Li a frase uma vez e voltei a lê-la. O segmento «para além de ter a sanção do estado» escapava à minha compreensão. Sharon sofre de Alzheimer e o marido, Randall, queixava-se da condução dela, que ele considerava perigosa, mas «ela passara recentemente o seu exame de condução, havia pouco a fazer». Ainda pensei que o «estado» se referisse à doença, e só depois compreendi que se referia à nação organizada politicamente: ao Estado.

[Post 2952]

Tradução: «lab-dab»

Irreconhecível
Coração bom-bom
Nunca faz tum-tum
como qualquer um.
Prefere outro tom:
— Fon-fon
e em toda esquina
mais alto que a rima
coração buzina.

ALMIR CORREIA. Poemas Sapecas, Rimas Traquinas 
(Belo Horizonte: Formato, 1997)

      «Segui-a até uma sala permeada por um alto e constante lab-dab, o pulsar do coração da grande máquina [aparelho de ressonância magnética] bege que estava à minha frente e na qual em breve seria enfiada» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 29). A narradora enfiou depois um par de tampões de espuma nos ouvidos e pôs um par de protectores auditivos por cima, mas: «Mesmo assim, o lab-dab prevalecia.» Que diabo é isto, «lab-dab»? Talvez o coração dos Americanos bata assim, mas o meu faz (pelo menos a maior parte do tempo, pois já sofri de arritmias graves) tum-tum. Tum-tum! Pelos vistos, o coração (mesmo que o não partilhem...) do tradutor e da revisora não é português. E ainda dizem que somos todos iguais.

[Post 2951]

Remédio, medicamento e mezinha

Confusão

      «O único remédio eficaz para evitar a ressaca é não beber de todo ou beber moderadamente. O conselho, dado com humor, é do médico Martins Baptista, que todos os anos recebe vários casos de intoxicação nas urgências do hospital Pulido Valente, em Lisboa, devido aos excessos de fim de ano. É que os outros remédios, medicamentos ou tradicionais, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante» («Remédios não são capazes de evitar nem curar ressaca», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 28.12.2009, p. 13).
      Sim, senhor: remédio é hiperónimo de medicamento, ou seja, o seu significado é mais abrangente do que o do vocábulo «medicamento», seu hipónimo. Vale a pena demorarmo-nos nesta questão, porque há muita gente a afirmar o contrário. Já Fr. Domingos Vieira, no seu Grande Dicionário Português ou Tesouro da Língua Portuguesa, escreveu que «remédio tem um sentido mais amplo que medicamento. O remédio compreende tudo que é empregado para a cura de uma doença. […] O exercício pode ser um remédio, porém nunca é um medicamento». O problema no artigo do Diário de Notícias é que usa a mesma palavra (elidida!) para o hiperónimo e para o hipónimo: «remédio» e «(remédio) tradicional». Como ao remédio caseiro (mais que tradicional) se dá o nome de mezinha, era de todo conveniente que a jornalista tivesse escrito da seguinte forma: «É que os outros remédios, medicamentos ou mezinhas, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante.»

[Post 2950]

Tradução: «answerer»

Malcriados

      «De acordo com um inquérito, conduzido em 2002 para a Associação do Alzheimer, 95% dos respondedorespraticamente toda a gente — disseram que consideravam a doença de Alzheimer um problema sério e bem mais de metade — 64% — daqueles com idades entre os trinta e cinco e os quarenta e nove, os baby boomers, a minha geração, observaram que estavam preocupados em eles próprios virem a padecer de Alzheimer» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 20). Em inglês já sabemos como é: answerer. E em português? Estamos habituados a ver nos dicionários que respondedor é aquele que costuma responder grosseiramente. O respingão. O respondão. Respondente é que é aquele que responde. O Dicionário Houaiss, porém, regista, para «respondedor», a acepção de aquele que responde. Uma solução é traduzirmos por inquirido. De contrário, temos esta coisa abstrusa: «De modo semelhante, quando a Fundação MetLife, em 2006, perguntou aos respondendores qual era a doença que tinham mais receio de vir a contrair, o cancro foi a primeira e a doença de Alzheimer, a segunda» (pp. 20-21).
[Post 2949]

Actualização em 24.1.2010

      «Contudo, em 7 de Abril último o Jornal de Negócios noticiava que 44% dos respondentes a um inquérito do IEFP dirigido aos utentes deste Instituto, [sic] declarou que a formação recebida “não contribuiu em nada para a obtenção do seu emprego”» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 89).


Pronúncia: «exogamia»

Mais uma silabada académica

      Mário Crespo, no Jornal das 9 da Sic Notícias, entrevistou longamente Duarte Santos, docente na Faculdade de Direito da Universidade de Macau e autor, e por este motivo foi entrevistado, da obra Mudam-se os Tempos, Mudam-se os Casamentos?, publicado pela Coimbra Editora, que é a versão publicada de uma tese de mestrado. A determinada altura, usou, por duas vezes, a palavra «exogamia» (casamento entre membros de diferentes grupos), pronunciando /egzogamia/. Errado. Tão errado como vimos, aqui, em relação a «exógeno».
[Texto 2948]

Homófonas

Mais uma acha


      As autoridades norte-americanas contam que Abdul Mutallab tinha aparentemente um pacote de 15 centímetros de pó explosivo e uma seringa cozidos às cuecas, quando entrou no avião em Amesterdão, aonde chegara em trânsito a partir de Lagos» («Barack Obama vai rever regras para identificar suspeitos», Jorge Heitor, Público, 28.12.2009, p. 12). O pó, pentaeritritol ou outro qualquer, decerto que se pode cozer, já sobre a seringa tenho sérias dúvidas. Das cuecas não digo nada. Agora a sério: não parece uma gralha, é mais um erro muito comum. Homófonas, cozer e coser, podem deslustrar o melhor texto. Distracção? Nem sempre.


[Post 2947]

Ortografia: «bem-vestido»

Comparando


      «Antero Flores admite que, após as conversas com os três funcionários — “bem-vestidos e bem-falantes” — aceitou comprar acções do BCP. O que ficou registado na sua cabeça, e que é corroborado por familiares presentes no encontro, é que ele entrava com algum dinheiro (165 mil euros em saldo na sua conta à altura) e o banco entrava com outra parte» («Emigrante na África do Sul enfrenta BCP na justiça e ganha», Rosa Soares, Público, 28.12.2009, p. 14). Que eu saiba, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista bem-vestido. Também me parecer constituir uma unidade, daí o uso do hífen.


[Post 2946]

Sobre o Oeste

É menos vasto

     «Cinco dias depois do temporal que assolou o Oeste, a EDP ainda não tinha conseguido restabelecer a energia eléctrica em toda a região» («Cinco dias depois do temporal ainda havia casas sem electricidade no Oeste», A. H./T. N. com Lusa, Público, 28.12.2009, p. 19). Na Antena 1, já ouvi mais do que uma vez «no Oeste do País» querendo o jornalista referir-se ao Oeste. Ora, aquele é mais vasto do que este. Oeste é a designação que se costuma dar à região a poucos quilómetros da Grande Lisboa, constituída por doze municípios situados entre o oceano Atlântico e o maciço que se estende para norte a partir da serra de Montejunto. Quando ouço «no Oeste do País», não penso em Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço ou Torres Vedras — penso em toda a costa ocidental.

[Post 2945]

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