Portatilidade

Portátil… idade

A leitora Ana Martins pretende saber se deve continuar a usar o termo «portatilidade», tal como lhe foi aconselhado oportunamente pelo Ciberdúvidas, ou se deve optar por «portabilidade». No fundo, dá a resposta à própria pergunta, pois para usar o termo «portatilidade» encontra uma razão, que é a «lógica» na formação da palavra (portátil+idade), e para não usar apenas acha o «fazer alguma confusão» entre os colegas. Entre a resposta dada pelo consultor do Ciberdúvidas, José Neves Henriques, em 1999, e a actualidade algo aconteceu: temos, pelo menos, o Dicionário Houaiss a acolher a forma «portabilidade», cópia servil do inglês portability. Mas é como diz o Prof. Cláudio Moreno: «Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade.» É verdade que no âmbito da informática, das telecomunicações e até mesmo da gestão («portabilidade dos benefícios») o termo largamente usado é «portabilidade», mas só nos fica bem continuar a utilizar o ainda residual mas vernáculo portatilidade e a forma haplológica portalidade.

Léxico: «tiralô»


¡Tíralo fuera!

«Até agora, já usufruíram gratuitamente do “Praia Acessível a Todos” 552 banhistas, que puderam banhar-se com a ajuda dos tiralôs — as cadeiras de rodas de praia que possibilitam a deslocação na areia e o acesso ao mar, sempre com o acompanhamento de monitores» («Duas praias mais acessíveis», Global/Diário de Notícias, 18.6.2008, p. 4). Aí está o vocábulo e a definição. Já tinha visto, é verdade, e não sabia o nome. Só não publico a fotografia de um tiralô (mas vejam aqui) porque algo mais importante está em causa. Numa pesquisa na Internet, ocorre muito mais vezes a variante «tiraló». Ora, neste cartaz o ô aparece graficamente realçado. Até prova em contrário, para mim, que ignoro a etimologia, é tiralô.

Recursos

Desta é que é

VIH, VIH+, VIH–, VIH–1, VIH–2… Parece que foi ontem, tão célere corre o tempo, a discussão sobre se deveríamos usar «sidótico» ou «aidético». O tempo mostrou que, pelo menos para nós, eram ambas desnecessárias. Muita coisa, entretanto, há a fazer. Por exemplo, ainda não entrou na cabeça de toda a gente que a sigla de vírus da imunodeficiência humana é VIH e não HIV (que é a sigla de Human Immunodeficiency Virus). Que já não se tem de usar como acrónimo, SIDA, nem é um nome próprio, Sida, nem é do género masculino, o sida. Está substantivado, deve usar-se apenas sida. E VIH/sida. Não vou aqui historiar o uso do acrónimo SIDA e sucessivas metamorfoses, até porque esse trabalho já está feito e bem por Cristina Ponte em «A cobertura de epidemias na imprensa portuguesa. O caso da Sida» (ver aqui, na Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação). O que eu queria divulgar, contudo, é a Terminologia de la sida en línia, uma recolha de mais de 500 termos relativos à sida, em catalão, espanhol, francês e inglês.

Pronúncia: «estádio»

Por exemplo

Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina, talvez por ter sido ministra da Saúde, deturpa algumas palavras como os médicos. Diz, por exemplo, «estadio» em vez de «estádio», como ainda hoje de manhã fez aos microfones da TSF. «Estadio» simplesmente não existe. Se eu fosse dialogue coach dela (o profissional que ajuda actores a treinar a dicção e as inflexões adequadas à personagem que desempenham), dir-lhe-ia que é um erro. Como não sou, digo-lho na mesma. Sem cobrar honorários.

Género de «tesão»


Palavras erectas


      Esta noite sonhei com Veronica Lake. Como este não é, contudo, um blogue confessional, género de que nem sou leitor, quanto mais fazedor, não vou avançar nem mais um milímetro na narração onírica. Em vez disso, vou centrar-me noutra questão. Mas também mete, animem-se!, sexo — o sexo das palavras, o género. Não há praticamente semana em que não leia a palavra «ênfase» usada como se fosse do género masculino. Para aquelas criaturas permissivas que falam da legitimidade trazida pelo uso, breve ou longo, localizado ou estendido, a palavra já há-de ser de ambos os géneros, aposto. Não para mim. Nos últimos tempos, outra palavra me tem aparecido travestida: «tesão». Com vossa licença. É comprovadamente de um só género, e não é o feminino, mas sim masculino. É, com a palavra «tensão», divergente do latim tensiōne. Duplamente divergente: na acepção e no género. O tesão, pois.

Recursos

Siglas médicas

Sobretudo para tradutores, está disponível em espanhol o Diccionario de siglas médicas y otras abreviaturas, epónimos y términos médicos relacionados con la codificación de las altas hospitalarias. Pode descarregar o PDF aqui. Sabe-se lá quando pode vir a ser útil, não é?

Léxico: «fedora»

Imagem: http://images.usatoday.com/

Há muitos


No regresso triunfal de Sarah Bernhardt aos palcos de Paris, a actriz desempenhou o papel de princesa Fedora Romazoff no drama Fédora, escrito em 1882, propositadamente para ela, pelo dramaturgo Victorien Sardou (1831-1908). Nesta peça, a actriz usava um chapéu de feltro com concavidades na parte superior e na frente. Nascia o chapéu fedora. Mais tarde, este modelo de chapéu seria usado tanto por homens como por mulheres. Eduardo VIII, Humphrey Bogart, Indiana Jones, Frank Sinatra, Dick Tracy, Clark Kent… Assim, se no original inglês aparece «he wore a fedora», quero, como leitor, que a tradução não fique por «usava um chapéu».

Pronúncia: «Saragoça»

Ouçam e falem depois

       Tem sido notícia nos últimos dias que os Portugueses que irão visitar a Expo 2008, em Saragoça, a decorrer entre 13 de Junho e 14 de Setembro, não serão muitos. Andamos distraídos, preocupados, absorvidos por outros assuntos. A vantagem (há sempre vantagens e desvantagens) é que não vamos ouvir tantas vezes na rádio e na televisão, e por aí, nas ruas, o topónimo mal pronunciado: /Saragóça/. Há mais de trinta anos que eu ouço pronunciar, e bem, /Saragôça/. Vá lá, não inventem o que já foi inventado. O meu avô Manuel Maria, que não era filósofo mas feitor e comerciante, usava calças de saragoça (ora aqui está mais um exemplo de derivação imprópria, senhores professores), um tecido grosso de lã escura.

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