Iliteracias

Tantas mortes

No Metro, dois homens falavam dos dez anos da morte de Francisco Lucas Pires, esse homem admirável e político como poucos.
— De que é que ele morreu mesmo?
— Acho que foi de morte natural.
— Morte natural? Mas não foi doença?
— Há aí uma conjunção a mais. De morte natural. Mais concretamente, ataque cardíaco.

Iliteracias

Disparates transpirenaicos

Em reportagem, ontem, Daniel Ribeiro, o correspondente da Antena 1 em França, falava, a propósito da greve convocada pelos sindicatos, de se ter aberto a «caixa de Pandorra». Não acredito que tenha sido um lapsus linguæ.
Pandora (Πανδώρα, em grego), a que tem todos os dons, foi a primeira mulher criada por Zeus, que a ofereceu em casamento a Epimeteu. Pandora levou, como presente de Zeus, uma caixa (segundo outras versões, uma jarra ou ânfora). Epimeteu, apesar de avisado pelo irmão, Prometeu, de que não devia aceitar nenhum presente de Zeus, aceita que Pandora abra ou abre ele mesmo a caixa, saindo dela os males que ainda hoje atingem a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira, o vício, o crime e a paixão.
Enfim, assim já temos mais uma rima para Andorra e modorra e *orra. Mais a sério: é imperdoável que um jornalista profira um disparate deste calibre.

Selecção vocabular

Síndrome de Fritzl

É verdade: o verbo ter já teve mais cotação. Agora, a esmagadora maioria de quem escreve prefere o verbo possuir. Dizia o original: «They are the most likely to have a mother with a master’s degree and a father with a doctorate degree.» O tradutor quis que fosse: «São os que mais probabilidades têm de possuir uma mãe com um mestrado ou um pai doutorado.» «Possuir uma mãe»? Tenham dó!

Ortografia: «malvisto»

Com os erros aprende-se

      «Com os erros aprende-se. O problema é que em Portugal o erro é mal visto» («PSD: Experiência governativa», Joaquim Jorge, Meia Hora, 20.5.2008, p. 9). Com os erros aprende-se: deve escrever-se «malvisto», como recentemente aqui escrevi. Até no âmbito da nova ortografia: «Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado), bem-ditoso (cf. malditoso), bem-falante (cf. malfalante), bem-mandado (cf. malmandado), bem-nascido (cf. malnascido), bem-soante (cf. malsoante), bem-visto (cf. malvisto)» (Artigo 4.º, Base XV (Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares) do Acordo Ortográfico de 1990).

Dicionário de Calão

Valha-me Deus

      Onde tinha a cabeça a equipa que fez o Dicionário de Calão do Instituto da Droga e Toxicodependência? Até um leigo sabe que, dado o público-alvo, nunca poderia escrever coisas tão ineptamente estúpidas como definir como «betinho», «cocó» ou «careta» «aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante». Assim se gastam os dinheiros públicos.

«Colóquio/Letras» em linha

Colóquio/Letras

A revista literária Colóquio/Letras, que publicou até agora cerca de 24 mil páginas e contou com o contributo de 1100 colaboradores, editada desde 1971 pela Fundação Gulbenkian, terá a partir de hoje as suas edições publicadas até ao ano 2000 disponíveis para consulta na Internet.

Pontuação

Nem meio mas

Para um trabalho que estou a fazer, tenho estado a ler vinte obras infanto-juvenis. Muita coisa me surpreende, e desde logo o desleixo com que são escritas, traduzidas e revistas. É, contudo, uma surpresa relativa, pois sabia, temia, que não fossem mais bem revistas, traduzidas ou escritas que todas as outras obras. Numa que estou a ler agora, Henrique, o Terrível, de Francesca Simon (tradução e adaptação de Rómina Laranjeira, publicada pela Gailivro, Vila Nova de Gaia, 2.ª edição, 2007), o uso da pontuação em orações em que está presente a conjunção coordenativa adversativa mas é completamente errada. O erro parece dever-se, em parte, à ideia ainda persistente de que a vírgula corresponde a uma pausa. Dez exemplos:
  1. «Mas, Henrique, o Terrível, pensou: “E se eu fosse perfeito? Como seria?”» (p. 10).
  2. «— Mas, eu estou sentado correctamente — respondeu o Henrique» (p. 18).
  3. «O pé do Henrique queria acertar no Pedro. Mas, lembrou-se que devia ser perfeito e continuou a comer» (p. 20).
  4. «Mas, o Henrique baixou a cabeça» (p. 23).
  5. «Mas, o Henrique não obedeceu» (p. 25).
  6. «— Mas, já fui para lá umas catorze vezes — lamentou-se o Pedro. — Por favor, posso ser o Capitão Gancho?» (p. 50).
  7. «Mas, o pai não parou…» (p. 77).
  8. «— É um bocadinho distante… — disse o Pedro. — Mas, não me estou a queixar… — acrescentou, de imediato» (p. 81).
  9. «Mas, os chuviscos transformaram-se em aguaceiros e começou a soprar um vento mesmo forte» (p. 88).
  10. «— Mas, está a chover torrencialmente — constatou o Henrique» (p. 90).


Antropónimos

Fiquei profundamente decepcionado.
Sempre achei que os comunistas eram excelentes pedreiros.
Como é que eles chegaram ao poder?

Millôr Fernandes sobre a queda do Muro de Berlim

Melhor assim, Millôr


As vicissitudes das palavras, dos substantivos comuns, são desconcertantes. As dos nomes próprios, ainda mais. Pela entrevista que Millôr Fernandes (jornalista, escritor, humorista, dramaturgo, artista gráfico, desenhador e tradutor autodidacta de Shakespeare e Molière) dá hoje ao Jornal do Brasil, ficamos a saber que o nome que a família lhe destinara era outro: Milton. «O escrivão se atrapalhou no momento de redigir a certidão de nascimento do filho dos Fernandes. E o nome Milton ­— desejado pela mãe —­ ganhou estranhos contornos na grafia confusa do funcionário público. O traço de corte ficou além do T ­— que virou um L ­— e se transformou num acento circunflexo. O N quadrado ficou parecendo um R. E assim eternizou-se a variação esdrúxula que, de acordo com o próprio, foi decisiva para a sua formação. Adotado definitivamente desde os 17 anos, o nome resume, por seu exotismo e singularidade, a obra de um dos artistas mais desconcertantes do país» («Um nome a zelar. Millôr… e suas várias assinaturas», Jornal do Brasil, 18.5.2008, p. B8).

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