Assim que + conjuntivo

Agora e no futuro

«Depois de muita polêmica, o parlamento de Portugal aprovou ontem o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que unifica a forma como é escrito o idioma nos países lusófonos. Assim que obter a sanção do presidente Cavaco Silva, que já se mostrou favorável ao acordo, o país terá seis anos para se adaptar às novas normas» («Portugal aprova acordo ortográfico», Juliana Krapp, Jornal do Brasil, 17.5.2008, p. A5).
Nada vi, ao consultar gramáticas de autores brasileiros, que autorize o uso do infinitivo «obter» neste tipo de oração. Entre nós, é clarissimamente incorrecto. Com a locução conjuncional temporal assim que numa oração que se reporte ao futuro, o modo verbal exigido é o conjuntivo (subjuntivo, no Brasil). No caso, futuro do conjuntivo. A sanção do presidente Cavaco Silva não é uma eventualidade, uma possibilidade? E não é o modo conjuntivo que o expressa? Parece uma frase mal traduzida do inglês, língua em que o Simple Present é usado pelo nosso futuro do conjuntivo: When you come to my house, I’ll show you the books. Com verbos regulares, a ignorância de quem escreve nem se nota nestes casos…
Quanto ao Acordo Ortográfico, os Brasileiros terão, depois da assinatura, a 1 de Janeiro de 2009, da minuta preparada pela Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), três anos para se adaptarem. Contudo, a partir de hoje, todos os textos publicados pela Academia Brasileira de Letras já seguirão a nova norma. Até ao fim de 2008, sairá a 5.ª edição do Vocabulário da ABL, já com 8 % a 10 % das 400 mil palavras que o compõem adaptadas à nova grafia.

Senão e se não

Não há bela

      «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, senão parecidas, sempre emocionantes» («Ao computador todos temos cara de tansos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.4.2008, p. 11). Nesta frase, o se é, na verdade, conjunção subordinativa condicional que introduz uma oração na negativa, com o verbo subentendido. Logo, separada do advérbio não: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, se não parecidas, sempre emocionantes.» Frase que podia ter esta redacção: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e as histórias, se não são parecidas, são sempre emocionantes.» Ou estoutra: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, se é que não parecidas, sempre emocionantes.» O único elo entre se não e senão, tirando casos de fronteira, é a homofonia.

Regressar à Terra

Os coveiros da língua

As parangonas do Meia Hora levantaram o ânimo a toda a Oposição: «INE obriga Governo a regressar à terra». Mas será mesmo assim? Se andava na estratosfera, o Governo terá sido obrigado a regressar à… Terra. Regressar à terra não anda longe de descer à cova ou baixar à terra, que é ser enterrado. E esta foi mais uma pazada.

Milhões e biliões, outra vez

Prince Charles said

Uma notícia publicada hoje no gratuito Meia Hora deixou-me muito preocupado. Mais concretamente foi um destaque do artigo «Príncipe Carlos quer travar abate de árvores tropicais» (Margarida Caseiro, Meia Hora, 16.5.2008, p. 8) o que me deixou de rastos. Pode ler-se aí: «Tropical 1.4 [sic] biliões. Pessoas dependentes da floresta tropical, que terão de ser ajudadas se o corte de madeira for proibido.» Isso não é muita gente? Fui espreitar, aterrado, o relógio da população mundial: 6 667 997 711. Até ordem em contrário, ninguém pode morrer nos próximos tempos, até perfazer o número lançado para cima do leitor.

«The trouble is the rainforests are home to something like 1.4 billion of the poorest people in the world» (in BBC).

Intervindo

Simples, simples…


      Quando chamo a atenção para questões aparentemente tão comezinhas como esta, por algum motivo o faço. Ainda hoje revi um texto em que se podia ler: «Em Abril, a Santa Sé já tinha intervido na 30.ª Conferência Regional da FAO para a América Latina, em Brasília (Brasil).» Ora, já devia estar na cabeça de toda a gente que o verbo intervir se conjuga (exceptuando algumas particularidades que não interessam ao caso) como o verbo vir. Logo, o particípio passado é intervindo. Como vindo. Mas são coisas simples...


Pronúncia: «fretado»

Menos aberto

No noticiário da Antena 1, ao meio-dia, o jornalista, a propósito da recente polémica de membros do Governo terem fumado durante um voo para a Venezuela, disse que era um avião /frétado/. Mas não. Em «frete», já o escrevi aqui um dia, o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

Pontuação

Ah, a pontuação…

«O futebolista português Luís Figo desmentiu que tenha morto um gato preto como noticiou um diário italiano, exigindo um pedido de “desculpas”, caso contrário levará a publicação a tribunal» («Figo acusado de ter morto gato», Global, 12.5.2008, p. 3). «Como noticiou um diário italiano»: oração subordinada adverbial conformativa. Como está intercalada, a vírgula é obrigatória. Sem vírgula, seria uma oração adjectiva (em que o como seria parafraseável por «(d)o modo que») e o sentido bem diferente. Sim, uma vírgula pode ter consequências sintáctico-semânticas desta importância.

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