«Trabalhador social» ou «ongueiro»?

É fácil

Ninguém como os Brasileiros para afeiçoar a língua ao nosso particular modo de dizer. Até nós, Portugueses, o reconhecemos. «Vestidos de T-shirt encarnada e boné preto, estes “ongueiros” (trabalhadores de ONG, como lhe[s] chamam os brasileiros), [sic] começaram a retirar os habitantes de Chirembwe, no dia 14 de Janeiro» («Expulsos pelo Zambeze», Carla Alves Ribeiro, Visão, 7.2.2008, pp. 70-71).

«O Dicionário dos Dicionários»

Onde está?

Algum leitor encontrou, nas suas deambulações, O Dicionário dos Dicionários, de autoria de Dieter Messner, professor na Universidade de Salzburgo, na Áustria? O objectivo do autor é o de compilar, nos volumes que for necessário, e estão previstos 50, todos os verbetes da língua portuguesa, da maneira como cada um foi explicado nos principais dicionários da língua.

Norma-padrão e erro

Nem pensar

Há, mesmo entre professores, a crença de que a evolução da língua tudo desculpa e tudo justifica. É um erro. Enquanto houver uma norma-padrão — ainda que actualmente promanada pelo meio de difusão que é a televisão, por natureza menos cuidado —, haverá desvios e erros. Perguntaram-me recentemente se a construção «a gente vamos» não está correcta. Claro que não. «A gente vamos» está por «a gente vai». Contém um erro de concordância. Na análise de Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, este erro é «causado pela falsa impressão de que a gente é plural e pelo paralelismo com a construção nós vamos» (in Norma e Variação, colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa», Caminho, 2007, p. 41).

Relativas cortadoras (I)

Não cortes

Jornal Nacional da TVI, ontem, debate entre Bagão Félix e Carvalho da Silva. À pergunta de Manuela Moura Guedes sobre se concordava com as recentes alterações ao Código de Trabalho, de que foi o mentor, Bagão Félix respondeu: «Não tenho uma visão maniqueísta: há coisas que concordo e coisas que discordo.» A eliminação, nesta última oração — oração relativa, mais especificamente denominada relativa cortadora, aquela em que ocorre um “corte” do sintagma nominal relativizado e da preposição que precede o pronome relativo —, das preposições pode atender a um princípio de natureza pragmático-discursiva e está abundantemente estudado, sobretudo no Brasil, onde o fenómeno começou ainda no século XIX. Na oralidade, vai atingindo (?) o estatuto de regular. Na escrita, incide mais sobre outros verbos, como o verbo gostar (* Este é o livro que eu mais gosto).
Voltemos à frase de Bagão Félix. Na oralidade, a propensão para a agramaticalidade neste tipo de oração é ainda propiciado pelo facto de estarmos perante dois verbos com regência diversa: concordar rege a preposição com; discordar rege a preposição de. Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, na obra que tenho vindo a citar nos últimos dias, Norma e Variação (Caminho, 2007), escrevem: «Ora em 265 orações relativas analisadas em discursos de rádio, televisão e imprensa, 74 (portanto 28 % do total) têm supressão da preposição pedida pelo verbo. […] Esta alteração sintáctica aproxima as duas variedades do Português (Europeu e Brasileiro) numa questão que tem sido apresentada, nas gramáticas tradicionais, como uma das diferenças mais notórias entre ambas» (pp. 70-71).

Léxico: «borregar»

Abortar, pois

      «O avião já rolava na pista quando surge a ordem de “borregar”. O piloto aceita a ordem e acciona o sistema de travagem brusca, para susto dos passageiros e evidentes danos no aparelho que por ali teve de ficar, desembarcando os passageiros para uma penosa espera de 12 horas pelo avião que saído de Luanda os foi buscar a S. Tomé…» («Mandou parar avião para poder embarcar», Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 31). Neste sentido — abortar a descolagem —, nunca antes vi o verbo borregar ser usado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para o verbo borregar: «AERONÁUTICA abortar a aterragem». Num relatório de incidente do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, lê-se: «O aluno-piloto fez uma volta de pista e no momento da aterragem decidiu “borregar”.» O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, da Texto Editores, o tal que está «conforme Acordo Ortográfico», regista: «(Aeron.) corrigir uma aterragem malsucedida». Suponho que com corrigir se pretende dizer «abortar».


Léxico: «isoacrónimo»

BB, por exemplo

O leitor João P. Martins quer saber o que são isoacrónimos. São siglas dobradas e usam-se para designar pessoas famosas cujo nome e apelido têm a mesma letra inicial: BB por Brigit Bardot ou Baptista-Bastos, HH por Helenio Herrera, RR por Robert Redford, TT por Torquato Tasso, etc.

«Tombado» e «queijo-de-minas»

Bem feito

«Queijo-de-minas, gostoso e tombado» (Pedro Vieira, Jornal do Brasil, 8.5.2008, p. A6). Qual é o português que não se sente perplexo com um título destes? «Queijo-de-minas»? «Tombado»? Vá lá que, mesmo composto, o queijo é queijo: «Queijo de massa branca, crua e homogênea, baixo teor de gordura e cuja consistência varia conforme esteja mais ou menos curado, muito consumido no Brasil» (Aulete Digital). Os Brasileiros têm ainda o queijo-do-reino e, só de nome, o queijo-de-ovos, que é um doce não queijoso ou caseoso. Portugueses e Brasileiros temos os queijinhos-do-céu. E tombado não porque caiu do cincho sobre o trincho, mas porque foi «colocado sob a guarda do governo para proteção e conservação», na definição do citado dicionário.

Informação


Curso de Técnicas de Revisão

Entre 13 e 30 de Maio, vou estar novamente, ao final da tarde, na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (segundo curso de formação inicial). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

Arquivo do blogue