Ascendente e descendente

Altos e baixos

      Todos conhecemos colegas na escola que confundiam direita com esquerda. De alguma maneira, também parece ser dislexia o que levava outros colegas a confundirem ascendente com descendente. Nada de muito grave quando se tem 8 ou 10 anos. Era até divertido. Grave é que jornalistas confundam os conceitos, como se vê neste excerto de um artigo: «Espécie de enfant terrible da vida pública britânica da última década e meia, as raízes de Boris [Johnson, recém-eleito mayor da cidade de Londres] estão na Turquia. Basta recuar até final do século XIX para encontrar descendentes turcos na sua genealogia, membros da administração de um império otomano crepuscular» («O jornalista que quer chegar ao topo do mundo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 37). Descendentes turcos de Boris Johnson? O homem tem decerto algo de muito especial, mas ainda não consegue fazer tal. Digo eu. De resto, o artigo a que pertence o excerto tem erros crassíssimos de pontuação. Está a fazer falta um curso somente sobre pontuação, não acham?

Disjunção da preposição e do artigo

Será, será

«Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois do filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980» («Alemã confessa ter morto três filhos», Global/24 Horas, 6.5.2008, p. 14).
A frase acima está correcta? Para o falante comum da língua, sim. Para as autoridades da língua, do ponto de vista da norma-padrão, não. Ou, pelo menos, oferecer-lhe-á matéria para alguma reflexão. Melhor: vou incluir-me, por um momento, nesse círculo restrito de falantes e antes direi: oferecer-nos-á.
Determina a Base XXXIV do Acordo Ortográfico de 1945: «Abolição do apóstrofo nas dissoluções gráficas de combinações da preposição de com formas do artigo definido, pronomes e advérbios, quando estas formas estão ligadas a uma construção de infinitivo. (Exemplo: Em virtude de os nossos pais serem bondosos.)» Logo, face à norma actual, a notícia acima devia estar redigida assim: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980.» O falante médio fala e escreve desta maneira, com esta correcção? Na verdade, não, o que nos obriga a aprofundar mais a questão.
A este propósito, escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral: «Disciplinadamente, ao anotar a base XXXIV do Acordo, exemplifiquei [em editorial de A Voz, n.º de 21 de Julho de 1945, quando se estava a preparar a Conferência Ortográfica]: “De e o ligam-se em do. Porém, se o artigo ou o pronome o se referem a um infinitivo seguinte, a regra actual manda separar a preposição do artigo ou do pronome. Portanto: 1. O livro do rapaz estragou-se com a chuva. 2. O prejuízo de o livro do rapaz se estragar com a chuva é grande.”
Isto, repito, expliquei eu disciplinadamente. Mas o que posso agora dizer, com objectividade de crítico, é diferente.
Na verdade, continua a ser obrigatório grafar:
“Em virtude de os nossos pais serem bondosos.”
Gramaticalmente, a disjunção do de e do os, em duas palavras, é compreensível. Mas na expressão natural há muita coisa que, não sendo gramatical, é idiomático.
A maior parte das pessoas cultas, tanto a falar como a escrever, ligam de os em dos, e escrevem: “Em virtude dos nossos pais serem bondosos.”
Ora, esta habitual ligação devia ser considerada correcta, pois, além de constituir uma irreprimível tendência de ligação fonética, é paralela, até, a um jeito tradicional (clássico e popular). Reparem os filólogos nisto:
Os clássicos, em vez de por o ver, escreviam “pelo ver”, apesar de hoje se ter por mais canónica a disjunção — por o ver. O povo dos nossos dias faz o mesmo. Paralelamente, quase toda a gente, apesar do que estipula a Lei (e eu afianço que tenho lido até em artigos de professores a infracção), liga a preposição de ao artigo o, a, os, as, mesmo naquelas frases em que a legal grafia (aliás, a legal sintaxe) determina de o, de a, de os, de as.
Erro! exclama-se… Será, será; mas é um erro tão frequente, tão teimoso, tão espontâneo, que amanhã a cláusula ortográfica abrigadora desta fusão será bem recebida por todos. É que o hábito está a forjar uma invencível forma de dicção e, consequentemente, de escrita social» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 381-382).
Ficaria a nossa autoridade satisfeita com a correcção introduzida na frase? Não. Segundo a norma-padrão, usa-se a forma regular (ou fraca) dos particípios duplos na constituição dos tempos compostos da voz activa, ou seja, acompanhada dos auxiliares ter ou haver. Logo, a nossa autoridade exigiria ainda outra emenda: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter matado em três ocasiões separadas na década de 1980.» Mais uma vez, contudo, se verifica que a tendência é contrária à norma, estando a cair em desuso a forma regular dos particípios de certos verbos, em que se incluir o verbo matar, acompanhada do verbo ter. Assim, é frequentíssimo ver ter pago, ter gasto, ter limpo, ter ganho, ter entregue, ter salvo, ter morto, ter aceite, etc. Todavia, como afirmam Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira na obra Norma e Variação, da colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa» (Caminho, 2007), a norma linguística não é democrática.

Fluído e fluido, outra vez

E porquê?


      «O vírus é transmitido por contacto directo com secreções do nariz e boca, saliva, fluídos e bolhas, além de fezes de infectados» («País em alerta por vírus que mata sobretudo crianças», Meia Hora, 5.5.2008, p. 8). Nem o substantivo, como é o caso, nem o adjectivo levam acento agudo. Como a vogal tónica é o u, o i não leva acento. Já a forma com acento agudo, «fluído», é o particípio passado do verbo «fluir» (como puído, saído, caído, etc.) Como é óbvio, a prosódia destas formas (nominal e verbal) é diferente. Um exemplo em que se usa, respectivamente, o substantivo e o particípio passado: «O azeite, o precioso fluido mediterrâneo, tem fluído bem, apesar de um pouco coalhado por causa do frio.»



Suma ≠ súmula

Os melhores

Bem sumulado, o caso conta-se assim: dois alunos de Engenharia Informática da Universidade de Évora foram escolhidos para participar no Google Summer of Code 2008, uma iniciativa da Google para estimular o desenvolvimento do software livre. Um deles, Luís Rodrigues, que participa pela segunda vez, vai desenvolver novas funcionalidades para o Moodle, uma plataforma de apoio à aprendizagem, e afirmou ao Público: «É de súmula importância, uma vez que nos abre muitas portas.» Com este domínio do português, só nos resta ter esperança de que o seu trabalho não passe da programação informática.

Léxico: «oráculo»

Mais uma revelação

«Às vezes, pergunto-me se quem escreve os oráculos (as barras em movimento) dos noticiários tem a noção do que está a escrever e para quem» («O oráculo da cultura», Jorge Mourinha, Público/P2, 4.5.2008, p. 18). Numa deliberação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), leio o seguinte: «Durante o lançamento realizado pelo pivô do jornal, lê-se no oráculo que acompanha a emissão da peça o seguinte texto: “Luís Marques Mendes desmente Agostinho Branquinho”» (deliberação 1/DR-TV/2007).

Pontuação nas subordinadas

Vá lá, revejam

«Quando Sócrates começou o seu programa de “reformas” seduziu e comoveu a direita» («Cair pelo buraco», Vasco Pulido Valente, Público, 2.5.2008, p. 48). O leitor minimamente atento sabe que este é um erro muito comum, tanto nos livros como nos jornais: pontuação errada em algumas orações subordinadas adverbiais. Na frase de Vasco Pulido Valente, que começa com uma oração subordinada adverbial temporal, a vírgula é necessária depois do vocábulo «reformas». Porque não emendam os revisores? Porque estão inseguros, porque é um autor conhecido, porque já souberam o ano passado, mas hoje estão esquecidos.

Toscana

Não, não

      Desta vez, foi Eduardo Pitta que escreveu «Toscânia». Topónimo mal traduzido, já aqui o vimos várias vezes, do inglês Tuscany. Em português é Toscana. «É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da “pasta”), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro» («O escravo», Eduardo Pitta, Público/Ípsilon, 2.5.2008, pp. 40-42).

Uso dos parênteses

De outiva não vamos lá


      Há algum tempo, escrevia um anónimo o seguinte comentário: «Invoco, outra vez, o lema deste sítio e a condição de simples “tocador de ouvido” para dizer que não parece correcto fazer de um parêntesis um período. Ele há-de pertencer ao período cujos termos são clarificados pelo que for dito no parêntesis.» A frase era minha e o contexto era o seguinte: «Muito estranho, cara Luísa Pinto, que a professora de Português do seu filho tenha dito que a frase estava incorrecta. (Ou não estranho nada, isto é uma figura de retórica.)» O leitor já antes tinha deixado, noutro post, um comentário semelhante a uma frase estruturalmente igual. Claro que eu sabia que era correcto, e por isso assim escrevera. Sabia, até, que o consultor do Ciberdúvidas D’Silvas Filho era da mesma opinião. Ainda assim, consultei a Academia Brasileira de Letras, que ontem me respondeu: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.» Conselho que passo, inteirinho, e legitimamente, para o leitor anónimo. E da próxima vez, já sabe: estude e depois diga qualquer coisa.

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