Acordo Ortográfico

E os estrangeirismos?

      Ora bem. Exceptuando os topónimos, nada no Acordo Ortográfico de 1990 se diz sobre a substituição de estrangeirismos por formas vernáculas. Entretanto, cá e além-Atlântico, os falantes vão fazendo esse trabalho. Como estou a reler a obra Primeiro as Senhoras, de Mário Zambujal (a 3.ª edição, de 2006, publicada pela Oficina do Livro), aproveito para mostrar como este autor veste de português alguns vocábulos estrangeiros. E digam-me depois: alguém fica com dúvidas?

«Custou-me, mas perdi com ferplei.» (p. 14)

«Fez-se roda em torno do ilustre. Prossegui marginal, chupando o último cigarro do maço e atacando o quarto uísqui.» (p. 29)

«Enquanto a Bruna bulia para lá do balcão, a prima acomodou-se na mesa mais próxima, sozinha, boa perna traçada, joelho redondo, a sorver o seu coqueteile pela palhinha.» (p. 34)

«Tudo isto educadamente, o Falinhas é um gentlemane.» (p. 35)

«Alternativa, o setripetise.» (p. 36)

«Um pouco piroso, aceito, mas é preciso atender às exigências do marquetingue.» (p. 43)

«São estas aparentes minudências que me encantam no metiê.» (p. 45)

«Corri a entrepor-me enquanto a mãe arrancava um cortinado para que descesse o pano sobre o setripe.» (p. 72)

«E agora deixo-o, mergulhado nos seus dossiês.» (p. 73)

«Admitamos, inclusivamente, que o figurão do vídeo, esse que confundem comigo, foi quem fanou o automóvel e, enfim, sábado à noite, apeteceu-lhe um drinque naquele bar simpático.» (p. 111)

«Nesta altura é indispensável meter o flechebeque.» (p. 121)

«Depois, Franquefurte, Bona, Dusseldorfe.» (p. 126)

«Com o amealhado e empréstimo do banco, adquiriu o apartamento onde mora, dispondo de mansarda que funciona como ateliê musical.» (p. 126)

«Acharia atrevimento da minha parte sugerir pausa curta, para mastigação, talvez ervilhas com ovos escalfados, no seneque em frente?» (p. 127)

«Mas hoje, enfim, é esposa e mãe no seu dupléquece a oitenta quilómetros de Antuérpia, e não se entretém a atirar namorados antigos para dentro de carrinhas cor de tijolo.» (p. 138)

«Impensável era a cambalhota que riscou o epiende.» (p. 140)

«A mala tinha-a no chão, protegida entre as pernas vestidas de jines.» (p. 146)

«Apreciaria saber como vai encaixar as peças que sobram do pâzele do rapto, alegado rapto, digamos.» (p. 150)


Regência do verbo «acabar»

E a gramática?

      Título de uma notícia no Público de hoje: «Passagem da chama olímpica por Londres acaba com 35 detenções» (7.4.2008, p. 17). Se não lesse o corpo da notícia, qualquer leitor poderia suspeitar que a simples passagem da chama olímpica fizera sair das prisões 35 pessoas. À passagem da tocha por Victoria Embankment, os polícias abriam as celas, obnubilados por tão extraordinária visão. Acabar com é pôr termo a, senhor jornalista. «Acabemos com estas digressões», escreveu Garrett nas Viagens na Minha Terra. Despeço-me com amizade, até um próximo programa. Post, quero eu dizer.

Dar ou fazer erros

Erro seu

Desta vez, caro A. M. L., discordamos: «fazemos» ou «damos» erros. Cometer, só pecados. Quando contactei de perto com a comunidade goense em Lisboa, reparei, com agrado, que todos, mais ou menos instruídos, diziam «fazer um erro». Vasco Botelho de Amaral também escreveu sobre este erro, mas não tenho à mão a obra. Valha outro Vasco: «O dr. Vasco Graça Moura e outras pessoas sensatas fizeram o erro de atacar o acordo ortográfico luso-brasileiro em pormenor. A essência dessa monstruosidade acabou por se perder numa discussão técnica por que ninguém se interessa e que ninguém consegue seguir» («Muito barulho para nada», Vasco Pulido Valente, Público, 21.3.2008, p. 52).

Revisão

Pior que gralhas

Dois aspectos a reter na recensão que Pedro Aires Oliveira faz, na Ípsilon (4.4.2008), da obra Massacres em África, da jornalista Felícia Cabrita (edição de A Esfera dos Livros): «O estilo adjectivado que a autora cultiva está nos antípodas do registo sóbrio e rigoroso que associamos ao “reporting” anglo-saxónico. […] Finalmente, um trabalho de revisão mais atento poderia ter corrigido algumas inconsistências, como o facto de num capítulo o assalto às cadeias de Luanda em Fevereiro de 1961 ser atribuído a simpatizantes da UPA, e noutros a mesma acção ser imputada ao MPLA» (pp. 52-53). A cada um o seu: o estilo fica para a autora, mas as incongruências devem ser assinaladas pelo revisor.

Léxico: «junket»

Promotores de jogo

«À margem da conferência de imprensa, o vice-presidente executivo do City of Dreams, Simon Dewhurst, salientou que a empresa tem vindo a conquistar uma maior quota de mercado no sector do jogo porque “os junkets (angariadores de grandes jogadores) fixam-se no local onde têm acesso a liquidez para conceder crédito”» («Novo grande empreendimento cria mais um casino em Macau», Global, 2.4.2008, p. 15).

Acordo Ortográfico

É bom lembrar

«O escritor Vasco Graça Moura disse ontem [na Livraria Byblos em Lisboa a convite da Associação Portuguesa de Editores (APEL) e Livreiros e da União de Editores Portugueses (UEP)] que “é um acto cívico batermo-nos contra o Acordo Ortográfico”, que qualificou de “inconstitucional”. Segundo o escritor e eurodeputado, “o acordo não leva a unidade nenhuma” e antes de qualquer ratificação havia que chegar a um vocabulário técnico-científico comum» («Vasco Graça Moura diz que Acordo é “inconstitucional”», Meia Hora, 4.4.2008, p. 6).
Concordo: antes da ratificação, tínhamos de ter um vocabulário técnico-científico comum. Aliás, nos próprios termos da lei que aprovou o texto do Acordo Ortográfico de 1990: «Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas» (art. 2.º).
Ainda segundo o mesmo jornal, «a Assembleia da República vai promover segunda-feira uma conferência internacional e uma audição parlamentar para “dinamizar” o debate sobre o acordo ortográfico, com a presença de académicos, professores, escritores e outros intelectuais».

«Rails»?

Barra de protecção na ladeira do Trainel * © http://www.padrejulio.net/

Barras de protecção


«Três trabalhadores morreram e um ficou ligeiramente ferido, ontem de manhã, após terem sido colhidos por um automóvel, quando procediam à instalação de rails de protecção na A41, junto ao nó de Alfena» («Três trabalhadores mortos num acidente em nó da A41», Global/Jornal de Notícias, 2.4.2008, p. 11). E porque não «barras de protecção»? Só tem mais uma letra e é português.


* Trainel é o termo técnico para troço de estrada com inclinação longitudinal constante. De regionalismo beirão, o termo passou a ser usado de forma mais alargada. Assim, o Diário da República, a propósito das características técnicas das estradas regionais principais e das estradas regionais complementares, regista: «a) Em perfil longitudinal, as inclinações dos trainéis não deverão exceder, em regra, 9%» (art. 12.º do Decreto Legislativo Regional n.º 15/2005/M, Classificação das estradas da rede viária regional).

De novo o hífen nas águias

Escolham o melhor

Lembra-se da questão do uso do hífen nas palavras compostas, aqui recentemente tratado? Leiam esta notícia em dois jornais diferentes:

«O risco de extinção da águia-imperial levou a organização internacional de conservação da Natureza World Wide Fund for Nature (WWF) e o Sport Lisboa e Benfica a criar o Dia da Águia, que vai ser celebrado no próximo jogo entre Benfica e Académica, a 11 de Abril. Segundo a WWF esta é uma “acção de alerta” para o perigo de extinção da águia-imperial em Portugal» («Dia da Águia contra a extinção», Metro, 3.4.2008, p. 4).

«O risco de extinção da Águia Imperial levou a organização internacional de conservação da natureza WWF e o Sport Lisboa e Benfica a criar o Dia da Águia, que vai ser celebrado no Benfica-Académica. A WWF diz tratar-se de “acção de alerta” para o perigo de extinção da Águia Imperial em Portugal» («Perigo de extinção mobiliza ‘Águias’», Global, 3.4.2008, p. 6).

E então? O leitor apressado ficar-se-ia pelo óbvio e anunciado pelos outros: que o Global afirma que é «o diário de maior tiragem em Portugal», enquanto o Metro reclama ser «líder absoluto com 774 mil leitores diários». Isso não interessa para aqui.
Muito havia a dizer. Desde logo, que perigo e risco, apesar de serem conceitos estreitamente relacionados, têm significados diferentes. Perigo é uma situação que ameaça a existência de uma pessoa ou coisa, ao passo que o risco é a possibilidade realização de um perigo.
Para estar perfeito, ao texto do Metro só faltava uma vírgula. A opção pelo hífen parece-me, pese embora aquilo que afirmei no texto para que remeti mais acima, acertada. Aliás, em termos jornalísticos, é muito mais correcta do que a do outro jornal. Quanto ao texto do Global, grafar «Águia Imperial» é imperdoável.

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