Léxico: «problema de Monty Hall»

Ficamos a saber


      «Imagine um concurso televisivo em que o apresentador pede ao concorrente para escolher, aleatoriamente, uma de três opções: A, B ou C. Depois de o concorrente escolher, digamos, a opção B, o apresentador revela que uma das opções restantes (por exemplo, C) não contém o prémio. Na fase final, o concorrente é questionado se quer mudar de opinião e escolher a opção que resta, A, ou manter a sua escolha original, B. Conhecido como o problema de Monty Hall, em homenagem a um apresentador de um concurso televisivo americano, este famoso enigma tem entretido matemáticos durante décadas. Mas também pode ensinar-nos algo sobre o funcionamento da mente e do cérebro humanos» («O que acontece no cérebro quando mudamos de opinião?», The Conversation/Reuters/Rádio Renascença, 6.09.2025, 8h30). 

      Isto merecia um verbete. Assim, proponho problema de Monty Hall MATEMÁTICA, PROBABILIDADES problema clássico de probabilidade condicional, inspirado num concurso televisivo norte-americano, no qual um participante escolhe uma entre três portas, atrás de uma das quais está um prémio; após essa escolha inicial, o apresentador, que sabe o que está por trás de cada porta, abre uma das duas restantes, revelando uma porta vazia, e oferece ao concorrente a possibilidade de mudar a sua escolha inicial: contra‑intuitivamente, a probabilidade de ganhar o prémio duplica se o concorrente aceitar mudar de porta; é objecto frequente de estudo e extrapolação em contextos de teoria da decisão, psicologia cognitiva e comunicação de ciência.

[Texto 23 067]

Definição: «insumo»

Pode não servir para tudo


      «O subdirector-geral e representante regional da FAO para a América Latina e as Caraíbas, René Orellana Halkyer, salientou que a agência apoia os países na identificação de territórios prioritários, lacunas críticas e investimentos facilitadores para reduzir as vulnerabilidades, executando medidas preventivas «em conjunto com governos e parceiros em nove países da região, que beneficiaram centenas de comunidades rurais, com apoio directo, reabilitação de sistemas de água e irrigação, distribuição de insumos [isto é, sementes, fertilizantes e outros materiais agrícolas] e reforço de capacidades, protegendo meios de subsistência e aumentando em até 40 % a produção de culturas básicas» («El Niño aumenta o risco de insegurança alimentar», Jairo García, Além-Mar, Junho de 2026, p. 15). 

      Como se pode ver, o autor, ou alguém por ele (que até posso ter sido eu), viu-se na necessidade de explicar o que significa «insumo» no contexto. E digo no contexto porque não é sempre o mesmo, ao contrário do que fazem crer os nossos dicionários. Seja como for, a palavra é desconhecida do leitor médio português. Muito usada e conhecida é no Brasil, ainda que os dicionários brasileiros também não a definam bem. A definição dos dicionários é demasiado técnica e abstracta para quem encontra a palavra num contexto prático como este. 

      Assim, proponho insumo 1. ECONOMIA factor de produção utilizado na criação de bens ou serviços (matéria-prima, trabalho, capital, energia, etc.); 2. AGRICULTURA (sobretudo no plural) materiais e produtos aplicados na lavoura — sementes melhoradas, adubos, fertilizantes, agroquímicos, defensivos, etc. — com vista a aumentar a produtividade e a resiliência das culturas.

[Texto 23 066]

Léxico: «antíopa»

Também o tens em bilingues


      «É raro que na sua ara se levante chama que atraia e queime as asas de tão deslumbráveis antíopas» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 203).

[Texto 23 065]

Léxico: «rato-gigante-das-flores»

Que já foi nossa


      No episódio de segunda-feira da semana passada, «A tragédia da Ilha das Flores (e os seus muitos mistérios)», do programa E o Resto É Ciência, na Rádio Observador, falaram no rato-gigante-das-flores, endémico naquela ilha indonésia que já foi portuguesa. Convém, então, acolher este rato-gigante-das-flores ZOOLOGIA (Papagomys armandvillei) espécie de roedor murídeo endémica da ilha de Flores, na Indonésia, de grande porte (cerca de 41-45 cm de comprimento corporal), com corpo robusto, orelhas pequenas e pelagem densa escura; possui cauda longa, podendo igualar ou ultrapassar o comprimento do corpo; habita florestas tropicais, com hábitos sobretudo terrestres e alimentação maioritariamente vegetal, complementada por invertebrados; encontra-se ameaçado pela perda de habitat e pela caça.

[Texto 23 064]

Definição: «Maoris»

Falámos neles recentemente


      «Há dias, Te Arikinui Kuini NgaWai hono ite po foi recebida no palácio de Buckingham pelo rei Carlos III, no que foi o primeiro encontro entre o monarca britânico e a rainha maori desde que esta subiu ao trono em 2024. [...] Foi nessa língua que, um ano exato após a morte do pai e a sua ascensão ao trono, terminado o período oficial de luto, a rainha Te Arikinui fez o seu primeiro discurso como soberana. “Ser maori não se define por ter um inimigo ou um desafio a superar. Ser maori é falar a nossa língua. É cuidar do ambiente. É ler e aprender sobre a nossa história. É a escolha de ser chamado pelo nosso nome maori. Há muitas formas de manifestar o facto de ser maori, não apenas em momentos de protesto”, afirmou. E acrescentou: “Ser maori é para sempre, mas temos de cultivar continuamente essa expressão de ser maori para controlar o nosso próprio destino”» («A rainha que quer pôr a sabedoria maori ao serviço dos problemas do século XXI», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2026, p. 25). 

      Tudo para depois os dicionários dizerem que os Maoris são o povo indígena da Nova Zelândia, de origem polinésia. Quase serviria igualmente para definir outros povos austronésios transplantados para diferentes arquipélagos. A definição actual identifica pouco da especificidade maori.  Assim, proponho Maoris ETNOGRAFIA povo indígena da Nova Zelândia, de origem polinésia, cuja presença nas ilhas remonta a vários séculos antes da chegada dos europeus; organiza-se tradicionalmente em tribos e clãs (iwi e hapū), possui língua própria (maori) e uma cultura distinta marcada por tradições orais, tatuagem ritual (moko), danças cerimoniais como o haka e forte ligação ancestral à terra e aos antepassados.

[Texto 23 063]

Definição: «desclassificação»

Incompleto por natureza


      «O Parlamento discute esta tarde um projeto de lei do Bloco de Esquerda que pretende desclassificar informação relativa à violência política no pós-revolução. E que define também um regime especial de acesso a documentos referentes às FP 25 de Abril. O Bloco sugere a criação de uma comissão que fique incumbida de organizar a desclassificação dos documentos» (Rádio Observador, noticiário, 20.05.2026, 12h00). Em desclassificar, Porto Editora, tens esta acepção (que é a última); em desclassificação, não a tens.

[Texto 23 062]

Definição: «Magiares» Léxico: «madgiar»

Deixemo-nos de simplismos


      No episódio de quinta-feira da semana passada do programa E o Resto É História, na Rádio Observador, o historiador Rui Ramos disse a propósito dos Magiares: «Há alguns historiadores, talvez exagerando um bocadinho, que dizem que verdadeiramente os Magiares não são uma nação, são uma classe social. Isto é uma coisa muito importante para compreender a Europa Oriental. Na Europa Ocidental, basicamente, a nobreza e a população trabalhadora falam a mesma língua e são da mesma nação. Na Europa Oriental, não. As nobrezas falam uma língua diferente do resto da população. E era o que acontecia no Reino da Hungria. No Reino da Hungria, basicamente, a nobreza era magiar, os grandes e os pequenos nobres eram todos magiares. Os húngaros eram uma nobreza no Reino da Hungria, basicamente. E a população de trabalhadores eram os eslavos, eram ucranianos, eram eslovacos ou eram romenos. E depois, por exemplo, os comerciantes e os profissionais liberais nas cidades eram alemães e eram judeus. Digamos que as diferenças sociais correspondiam a diferenças de nacionalidades na Europa Oriental.»

      Claro que a formulação «os Magiares não são uma nação, são uma classe social» é provocatória e simplificadora, ele próprio o admite, mas aponta para um fenómeno real: durante séculos, no Reino da Hungria, a identidade magiar esteve fortemente ligada à nobreza; ao poder político; à administração; à cultura dominante do reino. Como é que disto se passou a considerá-los sinónimos puros? O próprio uso historiográfico mostra precisamente o contrário: «magiar» existe porque há necessidade de distinguir algo. No mínimo, e como acepção principal, tem de se acrescentar esta dimensão histórica. Ainda pensei, ingenuamente, que o Houaiss o definiria melhor. Pelo contrário. 

      Assim, proponho magiar HISTÓRIA, ETNOLOGIA indivíduo pertencente ao grupo etnolinguístico de origem fino-úgrica que se estabeleceu na bacia dos Cárpatos no final do século IX e que constituiu historicamente o grupo dominante do Reino da Hungria; húngaro etnicamente magiar.

[Texto 23 061]

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P. S.: Porque vem mesmo a pêlo, também é altamente recomendável dicionarizar e vocabularizar a variante madgiar. Até ajudaria os nossos queridos compatriotas, sobretudo os jornalistas, a pronunciar o nome do primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar. Sempre seria menos um desconchavo a perambular pelo éter já saturado.


Léxico: «microteatro»

Que nós também usamos


      Entre os novos vocábulos que incluídos recentemente no dicionário da Real Academia Espanhola está «microteatro». Ora, em Portugal e no Brasil também se usa o termo, porque esta forma de teatro também existe por cá. Assim, proponho microteatro TEATRO formato teatral constituído por peças curtas, geralmente com duração até 15 minutos, apresentadas em espaços muito pequenos, para públicos reduzidos, privilegiando a proximidade com os espectadores e a viabilidade da produção.

[Texto 23 060]


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