Sem medo: bares
«Não é só a devida pasteurização: é também a fosfatase, a coagulação, o corte da coalhada, o aquecimento, os três dessoramentos, as duas agitações, a lavagem com salmoura, a moldagem e a progressiva prensagem, até à salga e a cura final. Juntem-se referências aos níveis térmicos a observar, às sucessivas etapas de compressão até 3 bar, à percentagem de salmoura, e tudo parece complicado e fatigante» («Licínia e Anselmo Ferreira: fazer 80 quilos de queijo por dia? “Vida boa”, dizem eles», Alexandra Couto, Público, 27.03.2026, 10h11).
Está certo: é o símbolo da unidade de medida de pressão. Num artigo de jornal, contudo, mormente num tom descritivo e narrativo, «três bares», o nome da unidade, integra-se melhor na fluidez da frase e na expectativa do leitor comum. Como o escreveram é mais de manual ou ficha de fabrico. E agora a definição no dicionário da Porto Editora. Está certíssima, descansem, mas com uma lacuna que desilude o leitor que consulta o verbete só para isto: não indica se tem ou não plural. O nome da unidade tem; o símbolo, como é óbvio, não. Não sou eu, purista sensato, que o afirmo, mas o próprio Bureau International des Poids et Mesures (BIPM) recomenda que os nomes das unidades sejam tratados como nomes comuns. Esqueceram-se foi de enviar uma cartinha para as nossas editoras de dicionários: «Messieurs, nous sommes flattés que vous teniez tant à être aussi français que nous, mais respectez la langue portugaise, ses règles, et non pas une autre.» Caramba, é só acrescentar antes da definição «pl. bares».
[Texto 22 718]
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P. S.: Até estou grogue: então não é que «bar», no sentido de estabelecimento nocturno onde se servem bebidas, aparece como termo estrangeiro, e por isso grafado em itálico, no dicionário da Porto Editora? Vendo bem, acho que estou a precisar de um copo para esquecer isto.