Léxico: «efeito de Coriolis»

Pelo contrário


      No programa E o Resto É Ciência, na Rádio Observador, Miguel Miranda, geofísico que foi presidente do IPMA durante dez anos, no episódio de ontem mencionou o ➜ efeito de Coriolis FÍSICA desvio aparente da trajectória de um corpo em movimento quando observado num sistema em rotação; resulta da rotação desse sistema e manifesta-se perpendicularmente à direcção do movimento, sendo responsável, por exemplo, pelo desvio de ventos e correntes na Terra. 

      Até pode ser um fenómeno complexo, mas a definição não tem de ser complexa, ou intrincada, ou impenetrável para o leigo. Pelo contrário.

[Texto 22 721]

Léxico: «água mineral»

Não é o que diz a legislação


      «Mineral water is water that naturally contains dissolved minerals and trace elements. It comes from a protected underground reservoir, like a spring or aquifer, and has a specific composition of minerals. Unlike ordinary tap water, which treatment plants produce by filtering and purifying water drawn from rivers or groundwater, mineral water retains the natural minerals it has acquired from geological processes it has been a part of over years, decades or even centuries» («What is mineral water and how does it naturally contain dissolved minerals?», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 26.03.2026, p. 9). 

      Todos a bebemos, ninguém a define bem. Os dicionários não a definem bem. Para a Porto Editora, é a «água natural com elevada percentagem de substâncias minerais em dissolução, utilizada geralmente para fins terapêuticos». Seria como definir Coca-Cola como bebida terapêutica. O próprio artigo lembra que, nalguns países, a designação «água mineral» depende de critérios legais específicos. Ora, também entre nós, por via da legislação europeia, essa designação não é livre: exige origem subterrânea protegida, pureza natural e composição estável. Não basta, portanto, ter «muitos minerais», nem muito menos servir supostos «fins terapêuticos». Pelo que proponho ➜ água mineral água de origem subterrânea, proveniente de nascente natural ou captada em aquífero protegido, naturalmente pura à saída e caracterizada por uma composição mineral própria e estável ao longo do tempo, resultante da dissolução de sais minerais durante o seu percurso geológico, distinguindo-se da água potável comum por essa identidade hidroquímica.

[Texto 22 720]

Definição e etimologia: «bluetooth»

Ai esta...


      O que se me oferece dizer quanto a bluetooth, uma tecnologia fantástica? Duas coisas. Primeira, por que raio a grafam quase sempre — em livros que revejo, em livros que leio, na imprensa — com maiúscula inicial? Segunda, porque é que nos dicionários a definição é tão genérica e imprecisa, que, com pequenas alterações, se poderia aplicar a outras tecnologias sem fios? Não posso resolver tudo, mas resolvo o segundo problema propondo ➜ bluetooth INFORMÁTICA tecnologia de comunicação sem fios de curto alcance, baseada em radiofrequência na banda dos 2,4 GHz, que permite a troca de dados entre dispositivos electrónicos próximos (como telemóveis, computadores, auscultadores ou periféricos), através de ligações de baixa potência e configuração automática; suporta ligações ponto-a-ponto e a criação de pequenas redes pessoais (PAN), assegurando a interoperabilidade entre equipamentos de diferentes fabricantes. 

      E porque a etimologia indicada nos nossos dicionários é simplesmente ridícula, proponho ➜ do inglês Bluetooth, nome atribuído em 1998; inspirado em Harald “Bluetooth” Gormsson, rei da Dinamarca do século X, conhecido por unificar tribos escandinavas, em alusão à função de interligação de dispositivos; o símbolo provém da sobreposição das runas correspondentes às iniciais do seu nome.

[Texto 22 719]

Plural: «bar»

Sem medo: bares


      «Não é só a devida pasteurização: é também a fosfatase, a coagulação, o corte da coalhada, o aquecimento, os três dessoramentos, as duas agitações, a lavagem com salmoura, a moldagem e a progressiva prensagem, até à salga e a cura final. Juntem-se referências aos níveis térmicos a observar, às sucessivas etapas de compressão até 3 bar, à percentagem de salmoura, e tudo parece complicado e fatigante» («Licínia e Anselmo Ferreira: fazer 80 quilos de queijo por dia? “Vida boa”, dizem eles», Alexandra Couto, Público, 27.03.2026, 10h11).  

      Está certo: é o símbolo da unidade de medida de pressão. Num artigo de jornal, contudo, mormente num tom descritivo e narrativo, «três bares», o nome da unidade, integra-se melhor na fluidez da frase e na expectativa do leitor comum. Como o escreveram é mais de manual ou ficha de fabrico. E agora a definição no dicionário da Porto Editora. Está certíssima, descansem, mas com uma lacuna que desilude o leitor que consulta o verbete só para isto: não indica se tem ou não plural.  O nome da unidade tem; o símbolo, como é óbvio, não. Não sou eu, purista sensato, que o afirmo, mas o próprio Bureau International des Poids et Mesures (BIPM) recomenda que os nomes das unidades sejam tratados como nomes comuns. Esqueceram-se foi de enviar uma cartinha para as nossas editoras de dicionários: «Messieurs, nous sommes flattés que vous teniez tant à être aussi français que nous, mais respectez la langue portugaise, ses règles, et non pas une autre.» Caramba, é só acrescentar antes da definição «pl. bares».

[Texto 22 718]

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P. S.: Até estou grogue: então não é que «bar», no sentido de estabelecimento nocturno onde se servem bebidas, aparece como termo estrangeiro, e por isso grafado em itálico, no dicionário da Porto Editora? Vendo bem, acho que estou a precisar de um copo para esquecer isto.


Léxico: «matrofobia»

A nossa filha tem de ir ao médico


      «Il y a ce serment. Muet, solennel, prononcé quelque part entre 10 et 20 ans, dans une chambre, un couloir, un grenier: “Je ne serai jamais comme elle.” Claire Richard, journaliste et autrice française de 40 ans, l’a fait. Et les 150 femmes qui témoignent dans son livre l’ont fait aussi. Presque mot pour mot. Ce serment a un nom. La “matrophobie”. Pas la haine des mères au sens large, pas les clichés sur la belle-mère acariâtre. Non: la peur, intime et souvent inavouée, de “devenir” sa propre mère» («Pourquoi tant de filles ont peur de ressembler à leur maman», Julle Huon, 24 heures, 28.03.2026, p. 25).

      Isso mesmo, desde os anos 70, e também já com as roupagens do português como ➜ matrofobia PSICOLOGIA receio de se tornar semelhante à própria mãe, associado à rejeição do modelo materno interiorizado e a conflitos na construção da identidade feminina. 

      Quanto à etimologia, vem do inglês matrophobia, termo introduzido por Adrienne Rich na década de 1970, formado do grego μήτηρ (mḗtēr), «mãe», através do radical erudito matro-, e de -phobia, «medo, aversão».

[Texto 22 717]

Léxico: «gaivota-comum | larídeo»

O comum é sempre deixado para trás


      As gaivotas que mais vejo aqui em Cascais pertencem às espécies gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), que predomina, logo seguida da gaivota-argêntea (Larus argentatus). Mas depende da altura do ano: no Inverno, aparece muito a gaivota-comum (Larus canus). Em Lisboa, era sempre da primeira espécie que via, não nas zonas costeiras, como se lê na definição da Porto Editora, mas em meio urbano, a quilómetros da costa. Era cada vez mais frequente pousarem no pátio do meu condomínio, em Benfica. Primeiro aspecto a corrigir na definição. Mas há mais: «Para lá desse comportamento sazonal, o que muitos interpretam como agressividade é, nalguns casos, uma resposta aprendida por alguns indivíduos da população. A capacidade de aprendizagem é um traço marcante desta espécie, que pode viver 20 a 30 anos e acumular experiência ao longo da vida» («As gaivotas estão a ficar mais agressivas? Não, são é muitas», Andréia Azevedo Soares, Público, 29.03.2026, p. 17). 

      Tudo aspectos que ajudam a melhorar a definição de ➜ gaivota-de-patas-amarelas ORNITOLOGIA (Larus michahellis) ave caradriforme da família dos Larídeos, comum no litoral português e amplamente adaptada a ambientes urbanos, de grande porte (até cerca de 60 cm), com plumagem branca e cinzenta, extremidades das asas negras e bico e patas amarelos; apresenta comportamento oportunista, alimentando-se frequentemente de resíduos de origem humana; espécie longeva, podendo atingir cerca de 20 a 30 anos.

      Mas esperem, não se vão já embora: a Porto Editora nem sequer acolhe ➜ gaivota-comum ORNITOLOGIA (Larus canus) ave caradriforme da família dos Larídeos, de médio porte, menor e mais esguia do que a gaivota-de-patas-amarelas, com dorso cinzento-claro, cabeça branca e bico relativamente fino, geralmente sem manchas marcadas nas asas; ocorre em Portugal sobretudo no Inverno, frequentando zonas costeiras, estuários e áreas urbanas próximas de água.

[Texto 22 716]

As opções dos nossos jornais

Maus exemplos


      Assim? «Na efeméride de um mês desde o início dos ataques israelo-americanos contra o Irão, os hutis, do Iémen, atacaram Israel pela primeira vez, com mísseis balísticos. Noutra frente, no Sul do Líbano, os israelitas mataram ontem três jornalistas e nove socorristas» («Hutis entram na guerra e lançam mísseis contra Israel», Gabriel Hansen, Jornal de Notícias, 29.03.2026, p. 36). Ou assim? «Ao fim de um mês de guerra, a deslocação de mais tropas norte-americanas para a região do Golfo e as perspectivas de uma ofensiva terrestre, naval e aérea contra o Irão marcaram a entrada dos houthis do Iémen no conflito que se iniciou a 28 de Fevereiro, com um ataque surpresa que matou o Guia Supremo Ali Khamenei e várias outras guras do regime iraniano» («Rebeldes do Iémen lançam mísseis sobre Israel e deixam aviso aos Estados Unidos», Ana Brito, Público, 29.03.2026, p. 18).

[Texto 22 715]

Léxico: «quebra-gelo-patrulha»

A potência não é para aqui chamada


      «En una muestra de la creciente capacidad de Ucrania para alcanzar objetivos rusos, un rompehielos patrullero, el “Grupa”, resultó dañado, informó el Ejército ucraniano. Según el Estado Mayor ucraniano, que no dio más detalles sobre la operación, barcos de este tipo sirven tanto para propósitos civiles como para maniobras militares» («Ucrania humilla a Rusia al atacar un rompehielos en el Báltico», Rostyslav Averchuk, La Razón, 26.03.2026, p. 18). 

      Os nossos dicionários falam em potência e não sei que mais como características, mas não é isso que define este tipo de navio, se é que define algum. Assim, proponho ➜ quebra-gelo NÁUTICA embarcação concebida para operar em águas cobertas de gelo, dotada de casco reforçado e de proa adaptada que lhe permite subir sobre o gelo e fracturá-lo pelo peso, abrindo canais navegáveis para si e para outros navios.

      O quebra-gelo do artigo, o Grupa, é mais específico, é um ➜ quebra-gelo-patrulha NÁUTICA quebra-gelo destinado também a missões de patrulha, nomeadamente de vigilância e apoio logístico em regiões geladas.

[Texto 22 714]

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