«Espoletar»

Não é necessário

      «O visconde, deputado nas Cortes, ter-se-á atrasado para um sessão do órgão monárquico, tendo sido censurado por um marquês, que lhe chamou “cão tinhoso”. Irritado com a situação, o visconde foi tirar satisfações com o marquês. Este último não gostou da atitude e atirou-lhe as luvas ao rosto. A reação provocatória e a ausência de desculpas espolotou um duelo» («Mudança da estátua da Justiça de Fafe não reúne consenso», Cynthia Valente, Diário de Notícias, 10.09.2012, p. 22).
      Abstraindo do erro ortográfico — é linguagem bélica, mesmo que em sentido figurado, escusada. Há alternativas.
[Texto 2074]

Jórgia, de novo

Não a inventei

      «South, cujo nome verdadeiro era Joseph Souter, morreu com um ataque cardíaco na sua casa em Buford, no Estado norte-americano da Jórgia» («Morreu o compositor de ‘Games people play’», Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 43).
      É a terceira vez que estamos a ver, aqui no Linguagista, esta forma de nos referirmos ao Estado norte-americano. (Ah, a propósito: Rebelo Gonçalves, na página 611 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista «linguagista». Não, não é a minha profissão: é o nome do blogue. Não a inventei, mas também trata de ruínas.)
[Texto 2073]

Conselho

Devia servir para toda a gente

      «Num livro escrito por Paul Fletcher, antigo dirigente do Burnley, o autor conta que o clube da II Liga inglesa, e que em 2010 jogou no escalão principal, esteve perto de ser treinado por André Villas-Boas. “O seu [de Villas-Boas] currículo e apresentação em powerpoint eram incríveis. Até pelos padrões de exigência atuais, tinha algumas coisas complicadas que eu não percebia”, refere Paul Fletcher, que tinha referências do então treinador da Académica como tendo grande potencial, embora o vocabulário que usava fosse complexo. “Tommy Docherty [antigo jogador e treinador escocês] explicava que não dizia nada aos seus jogadores que o leiteiro não percebesse. Será que os jogadores o teriam entendido se ele lhes dissesse para ‘solidificarem’, ou algo parecido?”, pergunta-se Fletcher, que ainda especula se o clube se teria mantido na Premier League ao comando do português, que acabou por rumar ao Dragão» («Vilas-Boas e o leiteiro», O. M., Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 35).
[Texto 2072]

Sobre a Wikipedia

Um novo paradigma

      «O escritor Philip Roth criticou a enciclopédia online Wikipedia por não lhe ter permitido efetuar uma emenda numa entrada sobre A Culpa Humana, um livro seu. Numa carta aberta que publicou na New Yorker, explicou que a informação na Wikipedia era baseada num texto crítico e continha informação errada» («Escritor critica Wikipedia», Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 50).
      Só me espanta — e não devia, porque já vi muita coisa — que esta enciclopédia seja citada até em trabalhos académicos, dissertações, teses.
[Texto 2071]

Ortografia: «motobomba»

Alguém nos explica?

      «O poço, onde se encontrava a nascente, tem cerca de quatro metros de profundidade e estava tapado com uma tampa em cimento, com uma abertura no meio de chapa de 70 por 70 cm. Ainda segundo a testemunha, “quando puseram a moto-bomba a trabalhar esta libertou monóxido de carbono que os vitimou de imediato”» («Limpeza de poço de água acaba com cinco mortos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 16).
      Sim, um das centenas de vocábulos que escrevem com erros. Mas pode haver aqui outro problema. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, motobomba é a «bomba eléctrica que activa a circulação de fluidos de refrigeração em máquinas e motores». Ora, uma motobomba não liberta monóxido de carbono.
[Texto 2070]

Como se escreve nos jornais

Ora, ora

      «Posteriormente foram retirados sete homens, cinco dos quais já sem vida. Outros dois, por apresentarem sinais graves de inalação de gás, foram transferidos pelo helicóptero do INEM para o hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, onde foram colocados a câmara hiperbárica» («Limpeza de poço de água acaba com cinco mortos», José António Cardoso, Diário de Notícias, 9.09.2012, p. 16).
      Quase como quem diz «postos a oxigénio». E o verbo, enfim, é agora sempre «colocar», seja qual for a frase e o sentido. Acabou-se a variedade.
[Texto 2069]

Ortografia: «asa-delta»

Não se percebe

      «Vladimir Putin irá voar de asa delta para orientar cegonhas que partem do Norte da Rússia para a Ásia Central para invernarem. A notícia foi avançada pelo diário Vedomosti e confirmada por Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, que acrescentou que o Presidente aprendeu de propósito a pilotar asa delta para participar na operação. Putin vai assim ajudar, na operação “Voo da Esperança”, as cegonhas raras a encontrarem o rumo certo» («Putin vai voar com as cegonhas», Diário de Notícias, 6.09.2012, p. 27). «Desta vez, Putin voou de asa delta para orientar bandos de cegonhas que partem do norte da Rússia para a Ásia Central para invernarem» («Putin orientou cegonhas», Diário de Notícias, 7.09.2012, p. 6).
      Com a adopção do Acordo Ortográfico, o Diário de Notícias passou a deixar de usar o hífen em palavras que continuam a ter hífen. O jornal não tem, como repetidamente se tem dito, ninguém que zele por estas e outras questões linguísticas. Falta de dinheiro?
[Texto 2068]

Alta Saboia

Segundo o AO, também

      «Tudo está assim em aberto na investigação de um crime que chocou franceses e ingleses desde que foi descoberto, na tarde de quarta-feira. Três pessoas da mesma família – pai, mãe e avó materna –, residentes num bairro de Claygate, a 30 quilómetros de Londres, estavam mortas, assassinadas a tiro, num carro de matrícula britânica, num parque de estacionamento florestal na aldeia francesa de Chevaline, perto do lago Annecy, na região da Alta Sabóia» («Pista do dinheiro seguida no massacre dos Alpes», Albano Matos, Diário de Notícias, 8.09.2012, p. 26).
      A regra é precisamente a citada no texto anterior. Só me espanta que não se aproveitem os meios de que se dispõe hoje em dia para corrigir estes erros.
[Texto 2067]

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