Sobre «nortenho»

Não para mim

      «Respondo por todos: sim, trabalhamos pouco. Também ganhamos pouco. E o nosso clima é muito bom — não apenas muito melhor do que o vosso, que é pobre. Daí que haja dias bonitos — ou apenas sem frio, chuva ou falta de céu azul — em que apeteça menos trabalhar para ocupar o tempo. Também vocês, nortenhos e trabalhadores, com climas sem tentações, quando cá vêm, pouco trabalham e muito desfrutam. Ponham-se no nosso lugar. Sempre que puderem. Ou tenham essa sorte. Que não é a vossa, senão quando cá vêm. Que é sempre que podem. Sempre bem-vindos» («Então está bem», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.08.2011, p. 53).
      Talvez apenas em dicionários brasileiros e nos mais antigos portugueses se encontre actualmente a definição de que «nortenho» é o relativo (ou natural ou habitante) ao Norte de Portugal. A maioria dos dicionários da língua portuguesa editados neste lado do Atlântico regista somente que diz respeito ao Norte; alguns, poucos, registam que diz respeito em especial ao Norte de Portugal.
[Texto 395]

Linguagem

Nada de gralhas, mais uma vez

      «Não consigo é parar de ler quando estou enlevado. Nem sou capaz de abandonar um livro para fazê-lo durar mais tempo. É a única regra. Mas é raro o romance que não tenha longueurs. Por outro lado, há livros menos bons que são viciantes e que nos obrigam a lê-los até ao fim, sejam mais curtos (The Small Hand, de Susan Hill) ou mais compridos (The Stranger’s Child, de Alan Hollinghurst)» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Prefiro, e não sou o único, colocar o pronome antes do verbo («fazer», no caso), visto este estar no infinitivo precedido de «para». (E, desta vez, não será um anglicismo a empecer a leitura do texto, mas um galicismo.)
[Texto 394]

Acordo Ortográfico

Logomaquias

      «No PÚBLICO de 9 de Agosto, Fernando dos Santos Neves apresenta “onze teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico”. Vendo bem, não são onze teses. Fernando dos Santos Neves limita-se a contabilizar os parágrafos do seu texto e nem todos são teses. Alguns parágrafos repetem, por outras palavras, o que é dito em parágrafos anteriores; outros limitam-se a insultar quem está contra o Acordo Ortográfico.
      Na verdade, o texto de Fernando dos Santos Neves assenta em dois ou três pressupostos que já foram por diversas vezes rebatidos, inclusivamente neste jornal, mas que, aparentemente, teremos de continuar a rebater.
      Diz Fernando dos Santos Neves que o Acordo Ortográfico é apenas um Acordo sobre a ortografia “e não um Acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto”. Não é um Acordo sobre o vocabulário?! Não prevê o AO “um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível” — o qual, diga-se de passagem, ainda não existe?» («Acordo Ortográfico: o que importa, agora, é rejeitá-lo de vez», Rui Valente, Público, 13.08.2011, p. 36).
      Estarão Fernando dos Santos Neves e Rui Valente, que se apresenta como subscritor da Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do AO90, a falar do mesmo?

[Texto 393]

Caracteres especiais

É diferente

      Na obra pergunta-se se será significativo, patético ou irrisório «que, numa casa romena, os retratos detestados de Ceausescu tenham sido substituídos por fotografias, recortadas de revistas, das personagens da série televisiva Dallas». No original lê-se Ceauşescu, com o carácter especial ş, que equivale a um dígrafo. Ninguém, contudo, mudará a grafia — porque não é costume entre nós grafar esse nome com os caracteres originais. Mas também aparecia o nome Raphael Confiant e alguém emendou para Raphaël.

[Texto 392]

Concordância

Aprender com os melhores

      «Esta gafanhotice literária só é possível com e-livros, seja qual for o e-leitor. Com uma pilha de livros, mesmo sendo-se afoito, dá um certo trabalho mudar de comboio. Então numa esplanada. Não: as voltas do Kindle sou eu quem as dou» («O vira dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.08.2011, p. 39).
      Fosse a frase analisada por Mimi Costa, que provavelmente não liga a gralhas, no Algodres Online e a sentença seria breve: «[...] o pronome relativo “quem” (que é um pronome da 3. ª pessoa do singular e significa “a pessoa que”), obriga a utilizar sempre essa 3.ª pessoa do verbo (fez). Assim, evite dizer: “sou eu quem escrevo” ou “são eles quem resolvem”». Quase desapareceu da escrita literária, mas a verdade é que é absolutamente correcta esta concordância com o pronome relativo quem. Nestes casos, citam-se exemplos de Fernando Pessoa («Sou eu quem descrevo»), Jorge Amado («Eram os filhos, estudantes nas Faculdades da Baía, quem os obrigavam a abandonar os hábitos frugais») e, para os mais exigentes, Rui Barbosa («Sou eu quem perco») ou Gonçalves Dias («Sou eu quem prendo aos céus a terra»).
[Texto 391]

Ensino

Sabe ele o seu português?

      Se bem que afirme que os professores são «sobretudo vítimas e não tanto responsáveis», Carlos Reis não deixa de fazer a pergunta retórica: «Quando isso acontecer, talvez se atente na relevância de componentes tão decisivos como os professores e a sua formação — uma outra formação, aliviada do peso atrofiante das ciências da educação, que disso temos que sobre. Com o devido respeito, formulo uma pergunta que talvez pareça provocatória: os professores de Português sabem português com a profundidade que se exige a quem ensina? Estudaram devidamente o idioma, a sua história, os seus cambiantes socioletais e as suas variações geolinguísticas? Dominam a gramática da língua e a sua terminologia? Conhecem os escritores que têm feito do português um grande idioma de cultura? Leram Sá de Miranda, Herculano, Camilo, Cesário Verde, Machado de Assis, Carlos de Oliveira, Agustina ou Luandino Vieira? Distinguem-nos dos pífios escritores da moda “consagrados” em livros escolares pouco criteriosos? Dispõem de instrumentos e de disposição para indagações linguísticas e literárias que vão além das banais ferramentas da Internet? As perguntas são embaraçosas, mas têm que ser feitas, mesmo sabendo-se que há exceções ao que temo seja a regra» («Sabe ele o seu português?», Carlos Reis, Público, 12.08.2011, p. 30).
[Texto 390]

Acordo Ortográfico

Genocídio cultural, estético, racional e político

      Miguel Esteves Cardoso escreveu mais uma vez (e, com sorte, não será a última) sobre o Acordo Ortográfico na sua crónica no Público: «Muitas coisas pedimos ao Verão e a Agosto, que o Acordo Ortográfico (AO) já despromoveu para verão e agosto. Para tomarmos banho, exigimos calor, sol e mar manso. É uma coincidência muito rara e uma desculpa muito boa para ficar na esplanada, a beber Água das Pedras ou, se calhar, na volta, água das pedras.
      Foto-reportagem passa a ser fotorreportagem (com um érre a mais, que não pertence nem a “fotor” nem a “rreportagem”) e mini-saia exige, pela perda do hífen, um ésse a mais: minissaia. Que artigo de vestuário é que é mini? É a “ssaia”, pois claro. Embora defenda o hífen, não sou totalmente sectário. Escrevemos “hás-de” e o AO manda, com razão, esquecer o hífen. “Hás de” é mais bem grafado do que “hás-de” e, na volta, é capaz de remover o incentivo analfabeto para dizer “há-des”.
      Mesmo assim, apesar de menos de uma mão-cheia de mudanças que fazem sentido, o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político. O AO é como querermos unir, à força, os verões e os climas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos, procurando semelhanças superficiais e despromovendo diferenças profundas, só para chegarmos à conclusão que todos sentimos frio e calor e que todos somos molhados pela chuva.
      Por muito que aceditemos [sic] no contrário, os nossos tempos, como as nossas línguas — e as maneiras como as escrevemos graficamente — são parecidos de mais para fingirmos que somos diferentes. Mergulhamos no conhecido e aprendemos como deve ser» («Calor e mar bravo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.08.2011, p. 33).
      É impressão minha ou o último parágrafo também poderia rematar qualquer texto de um paladino (ou fanático, segundo outros) do Acordo Ortográfico como Fernando dos Santos Neves? Que acha, Fernando Venâncio?
[Texto 389]

Regência: «precisar»

Apesar de Camilo e de Bocage

      A autora quis que a frase ficasse sem a preposição, porque, alegava, com preposição era, tinha aprendido, errado se se lhe seguia um verbo no infinitivo, mas já não quando seguido de substantivo ou pronome. «E então, *** despediu-se com o pretexto de que precisava urgentemente beber água.» O Dicionário Houaiss resume bem, creio, a questão: «Na actual norma portuguesa da língua, este verbo, quando na acep. de ‘ter necessidade de’, pede objecto indirecto; há, porém, bom número de abonações de autores portugueses clássicos, como Camilo e Bocage, que o empregaram com transitividade directa; na verdade, na língua, a regência deste verbo oscila entre uma coisa e outra, com peso maior para o objecto indirecto, tanto no Brasil como em Portugal, excepto quando a ele se segue outro verbo no infinitivo, caso em que, em Portugal, se usa sempre seguido de preposição (preciso de fazer, precisava de sair, precisou de se explicar), enquanto, no Brasil, tal emprego tem vindo a rarear (preciso fazer, precisava sair, precisou explicar-se).»
[Texto 388]

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