Revisão

Há sempre uma primeira

      Com os anos que já levo de revisor, nunca tinha sido referido, num contrato (das raríssimas vezes em que há contrato) por «criador intelectual». E também nunca me tinha acontecido que, numa tradução, uma personagem secundária aparecesse no início como radiologista e mais para o fim como psiquiatra. Autor, revisor e tradutor não viram o erro. Tenho outras histórias bem interessantes (algumas só posso contar nas minhas memórias), mas esta talvez as supere na cegueira que revela.
[Texto 379]

Linguagem

Ainda bem que fala nisso

      «Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário — ou de outra coisa facilmente aprendida pela educação. A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo» («A devida educação», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.08.2011, p. 33).
      «Uma das que mais custa»? E o vocabulário aprende-se através da educação ou da instrução?

[Texto 378]

«Mau como as cobras»

É sempre bom ver

      Mais uma daquelas expressões que se repetem em diversas línguas: «He was brilliant in battle and mean as a snake to everyone around him.» «Era um guerreiro brilhante, e mau como as cobras para todos os que o rodeavam.»
      «Fartavam-se, por exemplo, de esperar aqueles monarcas antigos, maus como as cobras, mas que deixaram tantas rasas de dobrões à Igreja que fechar-lhes a porta equivaleria a deitar abaixo todos os estatutos do penitológio romano» (Humildade Gloriosa, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1954, p. 307). (Ah, sim, e «penitológio», que os dicionários também não registam, é termo muito da predilecção de mestre Aquilino, ou não fosse ele ex-seminarista.)

[Texto 377]

Tradução: «mantelpiece»

[Mantelpiece.jpg]

Outra solução

      «On the mantelpiece is a photograph in Lucite of two old people I don’t know.» «Por cima da lareira...», verteu o tradutor. É outra solução, em vez de cornija ou lintel da lareira. Bem melhor, na verdade, que «prateleira da lareira» ou, abrenúncio!, «escarpa da lareira».
[Texto 376]

Tradução: «tilt-a-whirl»

Maluca é, de certeza

      «The big round cars for the Tilt-a-Whirl…» «As cabines enormes e redondas do Tilt-a-Whirl…» Hã? Este divertimento de feira não tem nome em português? Estou mesmo a ouvir um miudito alentejano a dizer à mãe que quer andar no tilt-a-whirl... No ProZ, sugerem «xícara maluca» (já ouviu, caro Paulo Araujo?) ou, para Portugal, «cadeira maluca».

[Texto 375]

Léxico: «rami»

Afinal, não é chinês

      A minha mulher veio agora mostrar-me uma camisola muito bonita. Pôs-se a ler a etiqueta, o que nela é quase um ritual. Deixo-me sempre rir. «Tem ramie, diz aqui. O que é?» Pois, também não sei. Cá está: é uma fibra natural. «A mais longa, resistente e sedosa das fibras vegetais», lê-se no Dicionário Houaiss. Claro, a etiqueta não está em português. Em português escreve-se «rami» (Boehmeria nivea), o arbusto, a fibra e, por metonímia, o tecido fabricado com essa fibra. A etimologia, segundo aquele dicionário, é malgaxe. Corre mundo, como seria de prever, a forma anglicizada ramie.
[Texto 374]

Dicionários

Dicionários...

      Há dias perguntaram-me se o vocábulo «porcalhice» era regionalismo. Não compreendo porque não está dicionarizado. Vejam, por exemplo, os vocábulos relacionados com «pátria» e «patriota». Num breve périplo pela obra de Eça de Queirós, Rui Barbosa ou Fialho de Almeida, podemos encontrar os derivados «patriotaça», «patriotada», «patriotador», «patriotagem», «patriotarreca», «patriotasno», «patrioteiramente», «patrioteiro», «patriotice», «patriotinheiro», «patriotista»... Quantos destes podemos ver acolhidos nos principais dicionários? E os que não estão deviam estar?
[Texto 373]

«Empregue/empregado»

O horror! O horror!

      «O meu amigo Pedro Ayres vinha a Colares e sugeriu que nos encontrássemos no Café da Várzea, para nos cumprimentarmos. Há décadas que não ouvia este verbo — cumprimentar — bem empregue. Mas foi o que fizemos. Bebemos e comemos cafés e queijadas; falámos disto e daquilo — enfim, cumprimentámo-nos bem cumprimentados» («A chuva dos patos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 3.08.2011, p. 31).
      É, no mínimo, estranho, parece-me, dizer-se «bebemos e comemos cafés e queijadas». E no máximo, pergunta o leitor? Errado. Quanto ao «empregue», já estou a ouvir Montexto exclamar, escamado: «O horror! O horror!» E podia ou não fazer o favor de nos dizer que citava Kurtz. Remataria: «Grassam grossas e grosseiras as formas “foi empregue, foi encarregue”.»
[Texto 372]

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