Topónimos

No mesmo país?


      «Cerca de duas dezenas de adeptos portugueses — nalguns casos casais das duas nacionalidades — receberam ontem a selecção nacional no hotel onde a comitiva ficou instalada em Reiquiavique» («Passadeira à chegada», António Pereira, Correio da Manhã, 11.10.2010, p. 52). 
      Bem, antigamente, era Reykjavik que se escrevia no Diário de Notícias. Nunca ouvi um islandês a pronunciar a palavra (mas ali o Freitas, ao fundo da redacção, tem lá estado e terá ouvido) para saber o valor daquele j. Magnus Bergström e Neves Reis, na sebentíssima 30.ª edição que aqui temos do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, registam apenas Reiquejavique. Deveriam registar também Reiquiavique? Rebelo Gonçalves regista: «Reiquiavique, top. Equiv. vern. do din. Reykjavik. Outro equiv.: Reiquejavique» (p. 870). «Ontem, na chegada a Reiquejavique, os internacionais lusos sentiram na pele o frio que se faz sentir naquele país junto ao Círculo Polar Árctico, tendo sido recebidos por uma temperatura a rondar os cinco graus» («Cinco graus à chegada», Arnaldo Martins, «Desporto»/Jornal de Notícias, 11.10.2010, p. 2).

[Post 3957]

Léxico: «hilético»

Pouco filosófico


      Se eu fosse filósofo, ia zangar-me muito que o melhor dicionário da língua portuguesa não registasse os termos hilético e hilé. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o adjectivo «hilético» é o referente à «hilé», e esta é, em filosofia, e na obra husserliana, concretamente, a «matéria da sensação como dado puro, antes da intervenção da actividade intencional do espírito, que lhe confere um sentido». Sim, prosaicamente, matéria. Contudo, a matriz semântica do étimo da nossa «matéria» é o grego ὕλη, «madeira, a matéria de que algo é feito». Concreto, material como um tronco. (Espero que o meu amigo Marcos Cóias e Silva, consultor filosófico, não me desminta.) Esperem: o Dicionário Houaiss regista, entre outras, hílico: «pertencente à matéria; corpóreo, material». Ah, sim, e regista husserliano.

[Post 3956]

«Empregue/empregado»

Ah, isso

      Os correctores, automáticos, deram agora em expungir de todos os textos qualquer «empregue» que tenha tido a veleidade de existir. Automáticos, sem ponderação. Em vez de estudarem, põem-se, quase lúbricos, a espreitar por cima do ombro dos outros (sim: aprendemos muito com os outros, mas não assim), e depois sai asneira. «Aliás, a expressão tantas vezes empregue...».

[Post 3955]

Léxico: «planeidade»

E, no entanto...


      Planeidade. Qualidade do que é plano. Existe? Claro que sim, é vocábulo que se usa com alguma frequência. Está dicionarizado? Não está. Nada de surpreendente: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não regista «estanquidade» ou «estanqueidade». E, no entanto... E, finalmente, preocupação que só costumamos ter com neologismos: está bem formado? Bem, planidade estaria mais de acordo com a língua.

[Post 3954]

Revisão

É uma missão


      O revisor antibrasileiro mostrou, mais uma vez, como não deixa passar repetições de qualquer espécie. «Veja: “Está longe de estar”. O jornalista não conseguia dar volta a isto?!» A noite, porém, não foi marcada por estas saborosas prelecções, antes por uma queixa: «... E depois disse-me: ‘“Assim, não é de admitir, etc.”’ Para que é esta vírgula aqui a separar o sujeito do verbo?” “Assim” sujeito!» Bem, eu também fiquei abalado, um revisor experiente a dizer a outro semelhante barbaridade. Lembrei-me de outro. Da primeira vez que falámos, apesar de alguma incoerência, disse muita coisa acertada. «Por exemplo, “fazer com que”: nunca deixo passar tal disparate. Como eu costumo dizer, temos “coque”, não “com que”.» Riu-se. Da segunda vez, porém, tinha os reflexos um pouco embotados, e o nariz, qual tubérculo rugoso, purpúreo, distraía-me tanto como o entrecruzar de conversas e referências que me eram estranhas. No meio de tanta gente, ele tinha um propósito bem claro: comer o máximo de croquetes e beber tanto quanto aguentasse de portos. Deixei-o aportar na mesa das bebidas e eu naufraguei na multidão.

[Post 3953]

Como (quase) se escreve nos jornais

Passar das marcas


      O jornalista escrevera que o Futebol Clube do Porto tinha divulgado «um comunicado com dois pontos no sítio oficial do clube a desmarcar-se do sucessor de Rui Moreira no programa Trio d’Ataque, da RTPN». O plumitivo lembrava que Rui Moreira abandonara «em directo o programa da última terça-feira, após uma calorosa troca de palavras com o representante do Benfica». Alguns jornalistas são mesmo dados a estes disparates desmarcados, e, no calor da labuta, confundem «acalorado» com «caloroso». Fica tudo em família. Eu estava lá e poupei os pobres leitores, já fustigados pelo temporal.

[Post 3952]

Revisão

Solércia me parece

      Serigaita. Sirigaita. Bem, começa-se por nem sequer se saber ao certo qual o étimo de serigaita. «Talvez do asturiano xirigata “vozerio, algazarra”», avança, corajoso, o Dicionário Houaiss. «De origem obscura», assegura o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Depois, parece-me muito mais natural, mais fácil, a prolação de «serigaita», pela dissimilação introduzida. Agruras de autor? Nada disso: colegas atrevidos.
      A propósito de prolação, conhecem o Prontuário Sonoro da RTP? Não têm de quê.

[Post 3951]

Léxico: «navio cabinado»

Imagem tirada daqui

Haja pelo menos um


      «A embarcação, um barco cabinado, estava registada na Capitania do Porto da Régua, que comandou o resgate» («Barco afunda-se no Douro e o resgate gera críticas», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 6.10.2010, p. 18). Dos dicionários consultados, só o Dicionário Aulete Digital regista o adjectivo «cabinado»: «que tem cabine». Como o da imagem.

[Post 3950]

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