Léxico: «estrangeirinha»

Ficam algumas

      «Não é só no reino animal que a fronteira entre a vida e a morte pode ser assim tão lenta e porosa. No final do séc. XVI, no triste e breve reinado de D. Sebastião, o Império Português já estava morto, mas os seus inimigos ainda não tinham reparado e receavam-no ao ponto de lhe terem oferecido Larache (a praça que ele queria conquistar quando foi travado em Alcácer Quibir). O palerma não quis, achou que oferecida não tinha piada nenhum, e armou a estrangeirinha que se conhece» («O PSD e o caso da galinha decapitada», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 7).
      Paula Moura Pinheiro diria que é refrescante. Também o digo: é refrescante, nestes tempos de discurso vigiado, ler vocábulos como este, estrangeirinha, expressão de toda a difidência pelo que é estranho, estrangeiro. É isso mesmo, arguto leitor: os vocábulos estranho e estrangeiro têm o mesmo étimo latino: extranĕus,a,um, «que é de fora». Não, calma!, que acolha na minha alma qualquer sentimento xenófobo (mas não contem que vos revele a minha vida), mas porque não devemos descartar vocábulos só por causa dessas remotas associações. Ah, sim: estrangeirinha é a artimanha para enganar alguém, a falcatrua, mesmo a velhacaria. Eu nunca aqui referi alguns dos substantivos ligados ao engano? Devia tê-lo feito, mencionando termos como aldrabice, alicantina, ardil, artimanha, baldoméria, cambalacho, cambão, cilada, codilho, combine (que li pela primeira vez em 1983 numa obra de Jorge de Sena), comedela, conchavo, conluio, embuste, engrimança, escatima, falcatrua, galazia, garatusa, guilha, magicatura, marosca, moscambilha (que li pela primeira vez numa crónica de Miguel Esteves Cardoso), rusto (um brasileirismo para homenagear os meus leitores brasileiros), sofisma, tramóia, trica e muitas, muitas outras. Mas não tive tempo, nem o tenho agora.

[Post 3258]

Léxico: «nomofobia»

Venha de lá


      Não digo que o seja já, mas dentro de pouco o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa será o equivalente do Aulete Digital: o maior repositório lexical da língua portuguesa. Hoje, por mero acaso, vi que a palavra do dia deste dicionário é nomofobia. A palavra já corre por aí, em blogues, jornais e revistas. Em Janeiro, um artigo do Diário de Notícias debruçava-se sobre esta (com sua licença, caro Franco e Silva) quase-fobia. Nomofobia: Medo causado pela possibilidade de ficar sem contacto através do telemóvel. Do inglês nomophobia, de no mo[bile], sem telemóvel + phobia, fobia, regista o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

[Post 3257]

Léxico: «demótico»

Também aceitamos


      «O Uruguai, a minha terra nativa, surge na minha mente de forma tão fugaz quanto o espanhol demótico que falei outrora, de forma inconsciente» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      Só o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que regista a acepção de demótico usada no texto: «popular». Entre as três acepções registas pelo Dicionário Houaiss não se encontra esta, que constitui uma extensão de sentido. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3257]

Léxico: «cepe»

Aceitamos


      «Apanhámos uma bela cesta de cepes e de cantarelos. Esta noite, vou quebrar os meus hábitos e fazer uma omeleta de cogumelos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 426).
      Nenhum dicionário da língua portuguesa regista cepe. Temos cepeiras — mas dão uvas. Estes foram apanhados por Logan Gonzago Mountstuart e Lucien Gorce nos bosques da comuna de Sainte-Sabine, na Borgonha, e aí está a pista: é o aportuguesamento da palavra francesa cèpe (por sua vez proveniente do gascão cep, e este do latim cippus). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista como tradução de cèpe «boleto», mas boleto (e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção do vocábulo) tanto pode designar cogumelos comestíveis como altamente venenosos — e os cèpes são comestíveis.

[Post 3256]

Léxico: «flósculo»

Aqui não há erros


      «Guardo a imagem de um rio largo e castanho com árvores aglomeradas na margem mais distante, tão densas como flósculos de brócolos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      O étimo do vocábulo flósculo significa «florzinha». A comparação é original: compara-se a vegetação da costa com os pequenos botões florais, os flósculos, muito próximos dos brócolos.

[Post 3255]

Tradução: «capacity»

É da casa

      «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 401).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora até regista «in his capacity as prime minister na sua qualidade de primeiro-ministro», mas alguns tradutores, seguríssimos de si, não consultam dicionários.
      Ontem, um leitor chamou-me a atenção para o título que a obra The God Delusion, de Richard Dawkins, teve na tradução portuguesa (também da Casa das Letras): A Desilusão de Deus. Distracção das tradutoras ou imposição da editora?
[Post 3254]

Aportuguesamentos

Falta de memória


      «Em Battersea, encontrei a cratera feita pelo V-2. O final de uma fila de casas geminadas desaparecido, uma vedação de tábuas à volta do enorme buraco. Deve ter sido súbito. O foguete a cair silenciosamente do céu enquanto as duas caminhavam, de mãos dadas, em direcção a casa, vindas da escola. Apenas o flache, o barulho e depois o oblívio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 271).
      Ferreira Fernando tinha razão, e eu reconheci-o na altura: V-2 é do género feminino. Vergeltungswaffe 2 (arma de retaliação 2). O aportuguesamento de flash é assustador — pelo menos até nos habituarmos. Flache. Há propostas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa que só tiveram eco em meia dúzia de pessoas. Parece-me ser o caso de flache. Mas é de saudar. Quanto ao uso de palavras aportuguesadas nesta obra, é, não apenas abundante, mas incongruente. Se se lê sempre uísque (e há editoras, já aqui o escrevi uma vez, que distribuem a revisores e tradutores algumas regras, e entre elas a proibição de usar o vocábulo «uísque») e coquetel, ora se lê Cornwall ora Cornualha. Se se lê Reiquiavique, também se lê Bahamas. Se se lê búnquer, também se pode ler bunker. Se... Depois de se ter tomado a decisão de escrever búnquer (na página 276), como é que menos de vinte páginas à frente (na página 293) se escreve, e com referência ao mesmo espaço, bunker? Não compreendo.
      Quanto a fila de casas geminadas,aqui vimos que não é a melhor tradução. E também já falámos de oblívio.

[Post 3253]

«Dormir sobre os louros»

Ó Títiro!


      «— Em breve estaremos no continente europeu — disse. — Não podemos simplesmente dormir sobre os nossos louros» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 240).
      Pois é, mas vê-se também: dormir sob os louros e dormir à sombra dos louros. Esta acepção de louro deriva por metonímia do sentido original. Refere-se, como se sabe, às glórias, aos triunfos alcançados, lembra o Dicionário Houaiss, especialmente nas armas e/ou nas artes. Infelizmente, este dicionário não regista a frase feita (ao contrário, por exemplo, do Michaelis, que regista a última variante). Dormir à sombra dos louros pode ter sofrido contaminação de uma frase feita com um sentido aproximado: dormir à sombra da bananeira. E como à sombra é, parcialmente, sinónimo de sob (Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi), passou a dormir sob os louros. Em francês diz-se s’endormir sur ses lauriers¸ e em espanhol, dormirse sobre (ou en los) laureles.

[Post 3252]

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