Elemento de composição supra-

Supra-sensível


      «O porta-voz do Exército explicou que o inquérito aberto pela PJ Militar visa apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou na altura de verificar se a câmara da pistola ainda tinha munições. “A ocorrência é estranha e anormal, mas tudo indica que seja acidental. Ainda assim, é importante que a situação seja averiguada por uma instituição independente e supra Exército como é a Polícia Judiciária Militar.”» («Polícia Judiciária Militar investiga morte de cadete», Romana Borja-Santos, Público, 16.2.2010, p. 6).
      Mesmo num dicionário como o Houaiss, supra aparece apenas como advérbio a significar acima, «usado para indicar trecho da mesma página, mais acima, ou de página(s) anterior(es)». Supra- é um elemento de formação de palavras e liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supra-Exército. Por outro lado, que é isso de o inquérito visar «apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou»?

[Post 3147]

Léxico: «samo»

Outra lacuna


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Confraria Gastronómica do Bacalhau, com sede na Capital do Bacalhau, Ílhavo. Entre as várias especialidades, os confrades (e a indumentária e os títulos, grão-mestre, vice-grão-mestre, mestre chanceler, mestre cerimonial, mestre ecónomo e mestre conselheiro, fazem-me sempre rir) levaram uma feijoada de samos. Sónia Araújo quis saber do que se tratava. Um dos confrades disse que era uma membrana do bacalhau. Outro corrigiu: é a bexiga-natatória (órgão existente em alguns peixes que contém gases e regula a sua subida e descida na água e ainda, em alguns deles, auxilia a respiração) do bacalhau. Tal como ontem perguntei em relação a «melário», pergunto hoje em relação a samo (ou same, como vejo numa pesquisa na Internet): e que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3146]

Sobre «bidão»

Sempre atrasados


      «Se há coisa que nos lembramos desse dia, além da lição magistral dada pelo norte-americano — não foi por acaso que a 17.ª etapa da 93.ª edição da Grande Boucle foi considerada por muitos como um dos momentos altos da era moderna do ciclismo —, é da quantidade indescritível de água que o fugitivo bebeu. Será difícil encontrar uma imagem do dia em que Landis não tenha um bidão ou uma garrafa de água na mão» («Floyd Landis, o batoteiro também é hacker», Ana Marques Gonçalves, Público, 16.2.2010, p. 28).
      Pois é, mas os dicionaristas não têm dúvidas: bidão é a vasilha metálica, em regra cilíndrica, de grande capacidade. Mudamos o verbete ou a realidade?

[Post 3145]

Acordo Ortográfico

Primeira defecção?


      «Contrariamente ao que se escreveu entre nós sobre a nova Constituição angolana, nem o Presidente da República deixou de ser eleito diretamente nem a democracia ficou defunta naquele País. Todavia, a Constituição concentra tantos poderes nas mãos do Presidente, que o regime nela estabelecido só pode qualificar-se como superpresidencialismo, com os riscos que isso comporta.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de 9 do corrente.
      «Entre os aspectos basilares do Estado de Direito contam-se inegavelmente a inviolabilidade das comunicações privadas e o respeito da independência e autoridade dos tribunais. Apesar de constitucionalmente protegidos, ambos, porém, estão em causa entre nós neste momento, mercê da irresponsabilidade e impunidade dos media.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de hoje.
      O que se passou entre uma semana e outra, entre uma crónica e outra? Talvez nada de especial, talvez se tenha simplesmente esquecido de clicar no botão Converter para do FLIP. Mas há mais diferenças: na crónica da semana passada, assinava o texto como deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. Na crónica de hoje, identifica-se como professor universitário e deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. É Carnaval, ninguém leva a mal. Para a semana falamos.

[Post 3144]

Confusões: «extracto» e «estrato» II

Substância extraída de outra


      O jornal i propôs-se, através de um texto do jornalista Luís Leal Miranda, dizer-nos «Tudo o que precisa de saber sobre Tchekov em 5 minutos». Se o leitor fica a conhecer mais sobre este autor russo, também corre o risco de desaprender alguma coisa sobre a língua portuguesa. Leiam: «A profissão de médico foi o ganha-pão do escritor durante toda a sua vida. Nem quando as suas peças eram aplaudidas pela Rússia Tchekov deixou de exercer. A profissão permitiu-lhe viajar e conhecer gente de vários extractos sociais, que o ajudaria a compor personagens. Esta formação não o impediu, no entanto, de sucumbir à tuberculose, a mesma doença que lhe levara o irmão» (28.1.2010, p. 42). Nada de novo, para nem por isso menos lamentável, esta confusão entre extracto e estrato.

[Post 3143]

Tradução: «nobody»

Ninguém e toda a gente


      O original dizia que era «a nobody whom everybody could blame». Um ninguém? Um zé-ninguém? Pois é, podia ser, mas a coisinha insignificante era uma rapariga. E depois? Pode ser um ninguém. O tradutor foi criativo: «uma maria-ninguém que toda a gente podia censurar». Já conhecíamos maria-mijona, maria-rapaz, maria-vai-com-as-outras...

[Post 3142]

Como se escreve nos jornais

Tomem sentido


      Enquanto os apicultores fazem a língua, os jornalistas desfazem-na: «O Marítimo teve o jogo nas mãos, mas a equipa de Domingos Paciência somou mais três pontos e voltou a colocar o Benfica em sentido» («Vitória do Sporting de Braga com um golo que vai dar que falar», Luís Octávio Costa, Público, 15.2.2010, p. 24).

[Post 3141]

Léxico: «melário»



Menos uma


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Associação dos Apicultores de Terras do Antuã. Entre os vários objectos e produtos que levaram, estavam várias colmeias, em corte e inteiras — e melários, os quadros onde as abelhas depositam o mel. E que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3140]

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