Tradução: «empower»

Mais de metade

      «Não raras vezes», escreve-me um leitor, «deparo com a palavra empower e ainda não lhe consegui encontrar uma outra paralela em português. Na sua opinião, qual seria?» Há, não podemos esquecê-lo ou ignorá-lo, estrangeirismos intraduzíveis. Não me parece que seja o caso. Já vi o termo traduzido (e já o traduzi) por capacitar. O que importa é que o leitor (ou ouvinte) saiba que o fazemos corresponder ao inglês empower. Usar capacitar nunca pode ser mais estranho do que usar empower, não é assim? Convém não esquecer, e foi mesmo notícia esta semana, que 51,3 % dos Portugueses adultos não falam uma única língua estrangeira.

«Correr atrás do prejuízo» II


A sibila

      Na Antena 1, a repórter Rita Roque, que vai acompanhar o líder comunista no seu périplo pelo País, disse que Jerónimo de Sousa «vai correr atrás do prejuízo». Se não conhecêssemos a sem-razão da expressão e não soubéssemos que é precisamente nas autárquicas que os comunistas mais simpatias angariam, poderíamos pensar que se trata de uma profecia da jornalista. Embora o meio natural desta expressão seja no jornalismo desportivo, também é usada, para evidente prejuízo da compreensão dos ouvintes, na informação generalista. Contigo isto não muda.

Uma acepção de «vernáculo»

Vernáculo estrangeiro

      «“A única resposta que dou é parafrasear o dr. Alberto João Jardim na expressão inglesa a propósito de jornalistas — ‘Fuck you!’”. Foi assim que o bastonário Pedro Nunes reagiu ao semanário Expresso por estar a investigar denúncias de alegado favorecimento pela Ordem dos Médicos (OM) ao ateliê [de arquitectura] onde a filha estava a estagiar» («(Des)Ordem nos Médicos», Vera Lúcia Arreigoso, Expresso, 25.09.2009, p. 28). Há pouco mais de uma semana, a imprensa noticiou que o presidente da Câmara de Almeirim, Sousa Gomes (do PS) dirigira à vereadora da CDU, Manuela Cunha, na reunião do executivo, «entre outras frases vernáculas», escrevia o jornalista, «cale-se com essa merda. Fale mas é na merda dos pardais» («“Cale-se com essa m… fale dos pardais”», J. N. P., Correio da Manhã, 18.09.2009, p. 18). A primeira acepção de «vernáculo» que ocorre a um falante com umas tinturas de latim será talvez um sentido figurado: linguagem correcta, sem estrangeirismos na pronúncia, vocabulário ou construções sintácticas. E mesmo que lhe ocorra também a acepção que já vem do étimo, já será menos provável que lhe venha à mente a acepção (popular e jocosa) de linguagem popular, carregada de calão, termos chulos, tanto mais que não é acepção que todos os dicionários registem. Experimentem — têm aí um à mão? — consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Pois é.

Léxico: «senciente», «senciência»

Registe-se

      «Apoiada no que tem sido feito em países como a Alemanha, a Suíça e a Áustria, a Liga [Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA)] sugere que os animais constassem [sic] no Código Civil como “seres sensíveis e sencientes”. Isto de forma a abranger com maior acuidade aqueles seres que, mais do que sensibilidade, revelam senciência (que, basicamente, consiste na capacidade de sentir emoções como prazer ou sofrimento)» («Tribunal penhorou cão», Sara Felizardo, Sol, 25.09.2009, p. 34). O adjectivo uniforme senciente, esse quase todos os dicionários registam. Vem directamente do latim, língua em que era um particípio presente. Já senciência é um neologismo ainda não dicionarizado entre nós. Contudo, o vocábulo correspondente em inglês, sentience, foi registado pela primeira vez na língua na primeira metade do século XIX.

Ortografia: «árbitro de cadeira»

Nem pensar

      Caro L. M.: costuma ler-se como diz, mas não é grafado com hífen, não: «Os adeptos e o árbitro de cadeira ficaram com dores no pescoço. Os apanha-bolas e os juízes de linha estiveram à beira de adormecer» («Quando o ténis se torna um sofrimento sem fim», Rui Catalão, i, 26.09.2009, p. 70). Já aqui abordámos a grafia de termos relacionados com outras funções no ténis.

«Cão-polícia», «mulher-polícia», «carro-patrulha»

Comprem um dicionário

      Acabei de ler num texto o vocábulo «cão-polícia», o que de imediato me fez lembrar o que lera no livro que tenho aqui citado nos últimos dias, Azul Mar, de Cathy Cassidy (tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009). Ora, que nome damos nós ao agente policial do sexo feminino? Na referida obra, podemos ler: «— Isso não é possível — diz a mulher polícia. — Amanhã» (p. 184). Mas também se lê: «Sentamo-nos no carro patrulha e dirigimo-nos ao hospital» (p. 185).

Uso da vírgula


Tem de ser

      «Quando se cita um documento da Igreja», pergunta-me um leitor, «como Lumen Gentium na sigla abreviada, qual é o mais correcto: LG 31 ou LG, 31?; ou da Redemptoris Missio, RM 1 ou RM, 1?» É claro que é com vírgula, pois este sinal está lá a separar o nome do documento do número da página, como se vê na imagem em cima, pertencente à carta pastoral «Família e Natalidade», de Fevereiro de 1975.

«Collants», «colãs», «meias-calças»

Há alternativas

      «Quanto à nudez [nas cenas de sexo nas filmagens], não é assim tão real. Cuecas cor de pele, toalhas para evitar o contacto e o famoso tapa sexo [sic], inventado pelos brasileiros. “É uma coisa muito simples. Uns colãs de nylon, cortados em forma de cuecas. Depois deixa-se um triângulo e cola-se, com aquela cola de bigodes, à frente e atrás no meio do rabinho. Assim, se estiveres em cima de alguém, os órgãos não estão em contacto directo”, explica São José Correia» («Luzes, câmara, acção e sexo. Os segredos das cenas sensuais no cinema», Vanda Marques, i, 26.09.2009, p. 50). Bem, o aportuguesamento resolve um problema muito frequente: a grafia com erros da palavra original, collants. Mas, mesmo sem aportuguesamento, há quem contorne a questão, usando o termo meias-calças: «Visto a saia de ontem com uma camisola diferente, umas cuecas lavadas e umas meias-calças pretas com uma malha apanhada, que mal se nota, mesmo atrás do joelho» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 13).

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