Ortografia: «magnetoeléctrico»

É só copiar


      «O Mercedes-Benz S 400 Hybrid, o primeiro automóvel híbrido do Mundo a utilizar baterias de iões de lítio, tem por base a versão a gasolina S 350 e vem equipado com um motor magnético-eléctrico de 20 cv e caixa automática de sete velocidades, a 7G-Tronic, configurada para módulo híbrido» («Mercedes-Benz aposta na tecnologia híbrida», Correio da Manhã/«Sport», 12.09.2009, p. 22). E daí talvez não. Ontem vimos que o jornalista deveria ter grafado piezoeléctrico (ou piezeléctrico); hoje, é magnetoeléctrico (ou magneteléctrico). O jornalista leu na apresentação do modelo: «Hybrid drive system with an optimised V6 petrol engine, magneto-electric motor and modified 7G-TRONIC guarantees high responsiveness in addition to the reduced fuel consumption.» E não pensou duas vezes: magnético-elécrico. O revisor achou que o jornalista não podia deixar de ter razão.

Ortografia: «top model»


Porquê?


      «A top-model Claudia Schiffer fez um ensaio ousado para a edição de Outubro da revista ‘Vogue’ alemã, uma edição especial de aniversário» («Ousada e sensual», Correio da Manhã, 12.09.2009, p. 49). Os anglo-saxónicos escrevem top model; alguns de nós escrevem top-model.


Ortografia: «piezoeléctrico»

Assim não anda


      «No caso dos motores CDI de quatro cilindros as “performances” conseguidas ficam a dever-se aos novos injectores piezo-eléctricos e ao turbo de dois níveis» («Mercedes-Benz, familiar “premium”», Adriano Oliveira, Jornal de Negócios, 11.09.2009, p. 18). Nem é preciso perceber de mecânica para saber que está errado — basta conhecer a língua. Não conheço nenhum vocábulo português com o antepositivo de origem grega piez(o)- que tenha hífen.

Ortografia: «juiz-desembargador»

Semana sim, semana não

      «A sua juventude, aliada ao arrependimento que “pareceu sincero” aos juízes desembargadores, contribuiu para a decisão final» («Homicídio de rapariga com perdão de 4 anos», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 14). «“A comissão, através de mim, vai contactar os doentes para saber se estes aceitam participar no processo de mediação. Depois será emitida uma declaração e começaremos a trabalhar”, disse o juiz-desembargador, que conta ainda durante esta semana falar com os doentes. “Vamos averiguar os danos causados e depois propor um valor de indemnização”» («Cegos ouvidos esta semana», André Pereira, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 17).
      A Base XXVIII do Acordo Ortográfico de 1945 — o único que interessa — autoriza a grafia com hífen. No Correio da Manhã, se não sabiam no dia 2, no dia 8 já o sabiam. Vamos agora ver se na próxima semana ainda se lembram.

«Noite», coloquialismo

Colóquios

      «Polícias sob escuta por ligações à noite» (Tânia Laranjo/Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 9.09.2009, p. 4). Quase somos levados a crer que um dicionário que registe o coloquialismo noite na acepção de «actividades de divertimento e lazer realizadas durante esse período de tempo; vida nocturna» é perfeito, mas depois, sempre insatisfeitos, não apenas verificamos que quase todos os dicionários o registam, como ficamos frustrados por estes apresentarem tantas lacunas. E onde é que esta marca da expressão oral registada na expressão escrita é usada? De textos jornalísticos a acórdãos. Há coloquialismos com sorte.

«Fixed-gear»: «carrete preso»


Sem travões    


      «Dentro de uma semana, João David Moreira, de 25 anos, tenciona sair da garagem da avó com uma montada nova. Um detalhe: tem duas rodas traseiras, para usar de forma alternada. Uma delas é “carrete preso”. No original, “fixed-gear” — a última tendência urbana em Portugal» («Olha agora: sem mãos, sem pés…», Joana Stichini Vilela, i, 8.09.2009, p. 41). Não sabia disto, e se eu gosto de bicicletas… A observação de que «no original» se designa “fixed-gear” só pode ser para rir. Se a jornalista tivesse começado por afirmar que é uma moda que vem dos EUA e que em inglês carrete preso se diz fixed-gear, já se justificava. Mas sim, é a última tendência e tem uma legião de fãs. Em alguns sítios, leio «carreto» em vez de «carrete», mas é incorrecto: nem nesta acepção de pequena roda dentada ou peça cilíndrica utilizada em vários maquinismos nem em qualquer outra são vocábulos sinónimos. A propósito, têm aqui um glossário relativo à bicicleta em várias línguas. De nada.

«Substâncias de corte»

Nome de baptismo

      «Depois de feitas as devidas misturas com substâncias de corte, cerca de meio quilo de droga chegava às vivendas dos condomínios privados por cerca de vinte mil euros a dividir por todos — o grama de cocaína não custa menos de quarenta euros» («‘Telecoca’ chega à alta-sociedade», Henrique Machado, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 8). Sabemos que aquelas substâncias de corte são substâncias — açúcar, talco, estricnina, etc. — que se adicionam às drogas para lhes aumentar o volume. Por vezes, são também designadas como substâncias de traço. Tenho sérias dúvidas que o leitor comum do Correio da Manhã conheça o conceito. E donde vem aquele «corte»? Do inglês cut, pois claro!, que traduzido dá «corte». Contudo, aquela acepção do verbo inglês significa adulterar, como em «to cut the whiskey with water», que poderíamos traduzir por baptizar.


«Alta-sociedade»?

Como alta-roda


      Numa só página do Correio da Manhã, com uma peça principal e dois pequenos textos, aparece três vezes alta-sociedade e duas alta sociedade. Desleixo óbvio da revisão, mas não é disso que vou falar. O título do artigo principal era, do ponto de vista linguístico, sugestivo: «‘Telecoca’ chega à alta-sociedade». Por analogia com alta-costura e alta-fidelidade, alto-forno e alto-mar, decerto que também se deve grafar com hífen. Esta é uma das questões que se esperava que um acordo ortográfico resolvesse. A Academia Brasileira de Letras, porém, é de opinião que alta sociedade não forma um todo semântico e significativo; é um adjectivo e um substantivo sem formarem um nome composto.

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